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A luta 
de Rúben para voltar a viver sem medo

Sociedade

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Rúben não larga a mãe, Vilma Pires, e só aceitou ser fotografado fora de casa porque ela o acompanhou

Depois de ter sido violentamente agredido pelos filhos do embaixador iraquiano em Portugal, Rúben Cavaco ainda não recuperou os 11 quilos perdidos. Sonha em ser cabeleireiro, mas não consegue sequer sorrir, contou à VISÃO. COM VÍDEO

Aos 16 anos, Rúben não é nenhum menino da mamã. E, no entanto, quando finalmente sai da cama a pedido do fotógrafo da VISÃO, ao fim da manhã de terça-feira, 27, tenta sempre estar onde está a mãe. Só aceita ser fotografado no jardim em frente de casa, junto à Câmara de Ponte de Sor, porque ela vai. E olha discretamente para a mãe, como a pedir-lhe ajuda, quando recusa regressar ao local das agressões. “Ele nunca me larga”, há de brincar Vilma Pires, de 33 anos, “foi sempre assim, já de pequeno era muito protetor. Mas hoje sou eu que não o largo.”

Os dois não parecem mãe e filho. Quando Rúben nasceu, Vilma tinha 17 anos, só mais um ano do que ele tem agora. O filho entretanto cresceu, ultrapassa-a em altura pelo menos um palmo, se lhe puser o braço por cima podem pensar que é seu namorado – sucedeu pelo menos uma vez, no cabeleireiro onde ela trabalhava como esteticista, em Sacavém. Mas o que aconteceu a Rúben há um mês e meio inverteu os papéis, com ele a passar de protetor a protegido num ai. Ou em muitos ais, na verdade, tantos quantos Vilma lhe ouviu depois da noite de 16 para 17 de agosto.

Como todos se conhecem em Ponte de Sor, nessa madrugada não tardou em que lhe fossem bater à porta. Ela que fosse depressa porque o filho fora espancado numa rotunda a 100 metros dali. Imaginava-o a dormir sossegado, em casa de um amigo com quem saíra nessa noite; encontrá-lo inanimado na rua, a cara feita numa bola de sangue, causou-lhe a maior dor de sempre. “Ao vê-lo, achei que ia perder o meu filho. É uma dor tremenda, que não se consegue explicar.”

Podia ter sido o fim do seu idílio alentejano, mas não foi. Mesmo depois de “o que aconteceu”, não põe a hipótese de desistir de Ponte de Sor e voltar aos arredores de Lisboa. Refez a vida nesta cidade do distrito de Portalegre onde casou, ganhou duas enteadas, mais um filho, hoje com um ano e três meses, e a companhia da mãe e de duas irmãs. Trocou a estética pelo café do marido, o Mouratos Bar, na zona ribeirinha, e gosta do que faz.

Rúben já tinha 11 anos quando chegou a uma “terra parada”, onde “é tudo pequeno”, “como um circo pobre”. As expressões não são suas; ouvimo-las ao advogado António Santana-Maia Leonardo, que aos 9 anos ficou órfão de pai, foi viver com os avós maternos para Ponte de Sor e nunca sentiu saudades de Setúbal. “É só para contextualizar”, diz Santana-Maia, ciente de que o cenário traçado pode soar mal às gentes da terra, longe dele que adora a pacatez do sítio. “É só para se perceber que foi uma situação excecional, que só sucedeu aquilo ao Rúben por serem pessoas de fora, com outra vivência e cultura. Pelo grau de violência não podia ter sido gente de Ponte de Sor.”

Na boca do advogado de Rúben Cavaco, que também tem escritório em Abrantes, é das delícias morar em Ponte de Sor. Toda a gente se conhece, já se escreveu, e, mesmo quando se fala em zaragatas, “não passa de uns cachopos que entornaram umas cervejas” e, então, é como se fosse uma grande coisa. “Um encontrão num bar passa por ser um acontecimento, mas também se resolve sem problemas.”

Foi essa pacatez que sempre agradou a Rúben, sobretudo pelo momento em que se deu a sua mudança de cidade. Ao mesmo tempo que deixava de ser criança e ascendia ao estatuto de adolescente, ganhava uma liberdade que teria sido impossível em Sacavém. Passava a poder andar a pé de um lado para o outro e a encontrar-se facilmente com os muitos amigos que fez num instante.

Nada para fazer

Com um senão: em Ponte de Sor não há nada para um adolescente se entreter. Pode ser exagero de quem ali vai num toca-e-foge, mas o que dizer de uma terra onde cinema só mesmo ao fim de semana, não existem discotecas e uma noite divertida passa por gastar horas a jogar matraquilhos e snooker no complexo de piscinas cobertas ou comer tostas no Koppus, o único bar que fica aberto até às 4 da manhã? E como estranhar que um miúdo se arraste sem aproveitamento na escola e acabe a optar por um curso profissional “para pelo menos terminar o 9º ano” (Vilma a falar de Rúben) quando a expressão “saídas profissionais” é, com sorte, sinónimo de emprego da Câmara?

VEJA O VÍDEO DA REPORTAGEM DA VISÃO EM PONTE DE SOR

Por ali ainda se fala no fecho, há sete anos, da Delphi, fábrica de cablagens que era um dos maiores empregadores da região. O aeródromo, lá está, é municipal (uma parceria público-privada) e a vizinha escola de pilotos (Campus Aeronáutico de Ponte de Sor), inaugurada há cinco anos, não dá para todos os bolsos. Os interessados num brevet são quase todos estrangeiros e chegam sobretudo de África e de países árabes. “Garotos com 16, 18 anos, a viverem sozinhos, com dinheiro e a funcionarem um bocadinho como os nossos quando vão para as viagens de finalistas”, compara Santana-Maia. “Às vezes, cometem alguns excessos. Parece que o mundo é deles e entram facilmente em choque com os residentes.”

Rúben sonha mais baixinho – quer ser cabeleireiro, talvez porque cresceu a ver a mãe a trabalhar num. Nem ele é capaz de responder. Apenas sabe que gosta de cortar cabelos, sobretudo de homem, e que a mãe lhe descobriu o jeito e aplaude a decisão. “Feito o 9.º ano, pagamos-lhe um curso privado”, conta Vilma, “porque o da escola dele não chega”.

Não estamos a ser lamechas se escrevermos que Vilma já consegue sorrir. Ou que há um mês e meio desesperou ao ver o filho mais velho em coma, nos Cuidados Intensivos do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. “Nem quero falar disso”, confessa, ainda hoje. “Estar 72 horas sem saber se o garoto morria foi dramático para ela”, justifica Santana-Maia.

Também Rúben, desde que teve alta, no dia 2 de setembro, véspera de fazer 16 anos, foi ganhando aos poucos a noção de que correu perigo de vida. Nunca viu como ficou depois das agressões, não lhe mostraram nenhuma fotografia nem lhe puseram um espelho à frente. Mas acordou ainda cheio de dores do coma induzido – como não? Ficara com fraturas nos ossos do lado direito da cara e tinha drenos na cabeça para fazer o escoamento das hemorragias. “A reconstrução de urgência foi uma obra de arte!”, enfatiza o advogado. “Não tem uma nódoa negra do pescoço para baixo. Os pontapés que lhe deram foram todos à cabeça e para matar. O Rúben só não morreu por milagre.”

Uma sorte danada

Neste mês e meio, a mãe já lhe contou a sorte danada que teve “dentro do azar”: os homens do lixo passarem por ali naquele momento, os bombeiros conseguirem estabilizá-lo (o quartel fica a cem metros do local das agressões) e os médicos de Évora que estavam de urgência do Centro de Saúde decidirem transferi-lo de helicóptero para Lisboa. “Bastava terem-no mandado para Portalegre e era o suficiente para o Rúben não estar cá a esta hora”, ainda se arrepia Vilma.

Sobreviver para contar. Quem o viu estendido numa cama de hospital não adivinhou que o seu estado de saúde iria evoluir como evoluiu em tão pouco tempo. “Quando acordou nem me conheceu”, conta o advogado. E, agora, Rúben até já pediu à mãe para falar com os médicos porque quer ir às aulas em outubro. Sim, sabe que a convalescença é muito importante mas… “Não consigo ficar sempre em casa”, confessa, a trocar mais uma sms.

O smartphone ajuda a mitigar a distância da namorada e dos amigos com quem gostaria de estar com maior frequência. Embora ainda sinta problemas de equilíbrio, tem saído à rua e só fica incomodado com os olhares “muitas vezes fixos!” com que é recebido. Sai sempre de dia e sempre acompanhado. À noite “é impensável”, pelo menos por enquanto. “Não consigo sequer pensar nisso”, diz.

E as sequelas?

A vontade de viver, mais do que apenas sobreviver, faz com que lute diariamente para conseguir viver sem medo. Para ter de novo uma vida normal. Isso passa por regressar à escola, embora nunca tenha gostado de estudar, e por voltar a fazer todas as outras coisas que fazia antes das agressões. “No outro dia”, conta a mãe, “disse-me que lhe apetecia jogar snooker mas tinha medo de não ser capaz. Acabou por ir e até lhe correu bem.”

A psicóloga que o acompanha avisou que agora é um dia de cada vez. Vai fazer pequenas conquistas – já perdeu o medo do escuro que sentiu nos primeiros dias – e talvez fazer marcha-atrás nalguma coisa. Por exemplo, poderá vir a ter pesadelos. “O trauma aconteceu”, nota Santana-Maia “mas não sabemos que sequelas é que as agressões vão deixar. Até pode ficar com alguma fobia.”

Que Rúben não está igual já toda a gente percebeu. Neste mês e meio, perdeu 11 quilos e deixou de sorrir (e não foi apenas porque lhe falta um dente da frente e tem outros dois meio partidos). Era um miúdo descontraído e vivaço que gostava de futebol (chegou a jogar no Sporting) e desestabilizava as salas de aula com piadas certeiras – talvez por isso fosse um dos alunos mais populares da turma. “Agora, perdeu a alegria de viver”, lamenta a mãe.

Vilma acredita que a recuperação, para ser completa, passa pelo filho voltar a ter o aspeto que tinha antes. Já lhe disse que, quando tiver dentes novamente, deve usar o boné e os brincos que usava. “É o seu estilo e as pessoas não têm de o julgar pela aparência. Não é por ter um cap e argolas que ele é um rufia.”

Rúben passa mais tempo em casa e ainda não voltou a sair à noite

Rúben passa mais tempo em casa e ainda não voltou a sair à noite

O que aconteceu naquela noite

Naquela terça-feira, 16 de agosto, ao jantar, Rúben avisou a mãe de que dormiria em casa de amigo. Não era a primeira vez que isso acontecia, por isso Vilma não ficou preocupada. O filho iria, com mais cinco amigos jogar matraquilhos e snooker para o Splash, um bar no complexo das piscinas cobertas de Ponte de Sor.

Apesar de o processo se encontrar em segredo de justiça, a VISÃO apurou que, quando o Splash fechou, às 2 da manhã, o grupo de amigos seguiu para o Koppus, situado do outro lado do jardim à frente da casa de Rúben. Tinham fome e sabiam que, aquela hora, só ali poderiam comer uma tosta.

No Koppus, um pequeno bar com um balcão comprido e sete ou oito mesas, que fecha apenas às 4 da manhã, estavam dois gémeos iraquianos, Haider e Ridha, alunos do Campus Aeronáutico de Ponte de Sor e filhos do embaixador do Iraque em Portugal, que já confessaram publicamente terem agredido Rúben nessa madrugada.

A confusão terá começado no interior do bar, com Haider a baixar as calças e a mostrar o rabo na direção da mesa dos seis amigos; mais tarde, terá sido também ele a espetar-lhes o dedo do meio. Mas foi já no exterior que alguns dos elementos do grupo se envolveram numa briga com os gémeos. Rúben ter-se-á deixado ficar à parte, a fumar, e, quando cada um seguiu à sua vida, decidiu visitar a namorada.

Uma ou duas horas depois, Rúben ia pela rua, por acaso a apenas 100 metros da sua própria casa, quando Haider e Ridha saíram de um carro e correram na sua direção desferindo pontapés que o derrubaram. Ao segundo ou terceiro, Rúben ficou sem se mexer. Naquele momento, passava um camião do lixo da Câmara com dois cantoneiros que assistiram às agressões. Um deles correu imediatamente a tentar socorrer Rúben, mas enquanto afastava um dos agressores, vinha logo o outro desferir mais um pontapé na cabeça do rapaz.

Além dos pontapés, calcavam e esmagavam violentamente a cabeça de Rúben. Só quando o condutor saiu do camião é que os dois irmãos se puseram em fuga, deixando o rapaz inanimado e de cara desfeita. Os cantoneiros chamaram logo a mãe, que ainda o viu estendido no chão e a esvair-se em sangue. A tese de que Rúben teria sido atropelado não colhe porque não havia qualquer marca de rodados na sua cabeça ou corpo.

O labirinto jurídico

O crime pode acabar sem castigo? Sim, se a imunidade não for levantada, os gémeos não podem ser julgados em Portugal.

Em que ponto está o processo?
Durante o inquérito- -crime, a Polícia Judiciária (PJ) e o Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa concluíram estar perante indícios de um crime de tentativa de homicídio. Só que os filhos do embaixador iraquiano que confessaram já publicamente as agressões a Rúben Cavaco nunca foram formalmente interrogados. Para o serem é preciso que estejam desvinculados de uma garantia chamada 'imunidade diplomática', atribuída aos diplomatas e seus familiares no âmbito da Convenção de Viena. Por isso, o pedido de levantamento da imunidade foi feito diretamente ao governo iraquiano pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros português. O Iraque pediu tempo para analisar o pedido. A resposta ainda não chegou.

O que acontece se o Iraque permitir o levantamento da imunidade?
O processo-crime segue os seus trâmites normais em Portugal. Os gémeos poderão finalmente ser interrogados e, no final, se o Ministério Público concluir que há fortes suspeitas de que terão praticado um ou mais crimes serão acusados e terão de responder em julgamento.

E se o Iraque não autorizar?
Se o Iraque não levantar a imunidade, ao abrigo do artigo 32º da Convenção de Viena, e se os jovens suspeitos das agressões não abdicarem dessa garantia por sua livre iniciativa, o caso nunca será resolvido na justiça portuguesa. Restam duas opções: ou Portugal decide repatriar os jovens para serem julgados no Iraque, ou pode considerá-los personae non grata e expulsá-los do País. No último caso, à família de Rúben Cavaco, vítima das agressões, restaria apenas a hipótese da luta nos tribunais internacionais – o mais apropriado seria o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.