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“Não se faz!”, dizem os fãs de Elena Ferrante, ao conhecerem a sua identidade

Sociedade

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Anita Raja continuou a escrever sob anonimato mesmo depois do êxito mundial do seu quarteto napolitano. Foi tramada pelas transferências bancárias da editora e pelo trabalho detetivesco de um jornalista “sem vergonha”, lamentam os seus admiradores

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

As pistas eram muitas e há anos que davam azo a especulações. Mas foram precisos “meses de investigação” para que Claudio Gatti, jornalista do Il Sole 24 Ore, concluísse, aparentemente sem margem para dúvidas, que a autora de bestsellers Elena Ferrante e a tradutora Anita Raja, de 63 anos, são uma e a mesma pessoa.

Duma penada, Gatti anunciou a sua descoberta com pormenores como as origens judaicas da autora e extratos das suas contas bancárias que, diz, foram cruciais para chegar a Anita. E para que a nova se espalhasse rapidamente pelo resto do mundo, conseguiu que o seu artigo fosse publicado noutros meios, depois de traduzido para Francês, Alemão e Inglês.

Não demorou muito para o jornalista, no seu papel de arauto, ser acusado de misogenia. Um homem a revelar à força a identidade de uma mulher, olha que bonito. Além de, claro, falta de respeito pelo desejo de a autora de A Amiga Genial, o primeiro de quatro volumes que são verdadeiros page turners, manter o anonimato.

Quando Claudio Gatti confrontou as Edizioni E/O, a resposta veio curta e lacónica, frisando que se avançasse com a publicação do artigo seria uma “invasão da privacidade” da autora e da editora. Ele não era o primeiro a apontar baterias a Anita Raja, mas, até então, todos tinham acabado por resistir à tentação de juntar um-mais-um-igual-a-dois.

E quem é Anita Raja?

Ao contrário do que Elena Ferrante escreveu na sua última obra, Frantumaglia, em que supostamente conta a sua vida e “viagem” como escritora, Anita não é filha de uma costureira de Nápoles, mas sim de uma professora nascida em Worms, na Alemanha, numa família de origem polaca, que fugiu do Holocausto e acabou por casar com um magistrado napolitano.

Anita nasceu em Nápoles e mudou-se com a família para Roma aos 3 anos. Tem um irmão mais novo e veio a casar-se com o escritor Domenico Starnone, com quem teve dois filhos. Dirigiu uma biblioteca pública em Roma, passou boa parte da sua vida a fazer traduções de alemão, em regime de freelancer, e publicou uma primeira novela em 1992, já sob o nome de Elena Ferrante.

Sim, eram muitas as pistas, já se escreveu. Dois exemplos: Anita Raja foi a criadora e diretora da coleção da E/O que publicou o primeiro livro de Ferrante; e existem grandes semelhanças entre o seu estilo e estrutura narrativa e os dos autores alemães que traduz, como Christa Wolff.

Mas há mais, notou Tommaso Debenedetti, conhecido como “o maior mentiroso da internet” porque se entretém há anos a criar contas falsas nas redes sociais. Debenedetti garante que teve acesso a textos manuscritos de Anita que coincidem com a letra da versão final de um dos quatro volumes do quarteto napolitano, publicada numa entrevista que Elena Ferrante.

Debenedetti ficou tão convencido de que tinha razão que, em março do ano passado, inventou um perfil de Ferrante no Facebook. Duas horas depois, o editor avisava que a conta não era verdadeira.

Agora, Claudio Gatti faz um paralelismo entre o êxito crescente da obra de Ferrante e os sinais exteriores de riqueza de Anita. Logo em 2000, quando o seu primeiro livro deu origem a um filme, a tradutora comprou um apartamento com sete assoalhadas perto de Villa Torlonia, uma zona cara de Roma; e no ano seguinte, comprou uma casa de campo na Tuscânia.

Em 2014 e 2015, anos que marcam o início do seu êxito no mercado internacional, com quase 4 milhões de livros vendidos em mais de 40 países, Anita recebeu grandes somas de dinheiro da editora: em 2014, foi mais 50% do que costumava; e no ano seguinte mais 150 por cento. E, em junho deste ano, o seu marido comprou um outro apartamento em Roma, também perto da Villa Torlonia – onze assoalhadas em 2 500 metros quadrados, avaliado entre 1,5 milhões e 2 milhões de dólares.

Fugir às pressões

Para não o acusarem de só falar de dinheiro, Gatti sublinha algumas piscadelas de olho que a própria Ferrante dará: o nome de Lenù, a protagonista, vem de Elena, uma tia de Anita, Nino, o seu grande amor, é o petit-nom do marido de Anita, e a universidade em Pisa onde Lenù estudou foi precisamente aquela onde andou Viola Starnone, filha de Anita e Domenico.

As reações dos fãs não se fizeram esperar, nas redes sociais. Entre “Não se faz!” e “que jornalista sem vergonha!”, fica o medo de o fim do anonimato vir a secar a veia literária de Anita Raja. “Se a Elena Ferrante não escrever mais nenhum livro, é por causa do ego de Claudio Gatti”, escreveu no Twitter Kimberly Burns, uma agente literária californiana. Pode acontecer. A verdade é que Ferrrante disse, em mais do que uma entrevista, que não detestava mentiras; pelo contrário, precisava delas: “Na vida acho-as úteis e recorro a elas quando preciso de me proteger de sentimentos, pressões.”