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Os prós e contras dos auriculares sem fios

Sociedade

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A Apple quer acabar com os fios dos auriculares. Vamos ver se pega – até porque as desvantagens são muitas

A promessa é acabar com uma das dores de cabeça da tecnologia: aqueles fios dos auriculares que se entrelaçam e fazem nós a si próprios como por artes mágicas. E será que não se pode exterminá-los? Ainda por cima, fios é tão... século XX. A Apple quer estar na frente do pelotão de fuzilamento (ainda que esteja longe de ser a primeira a chegar, mas já lá vamos): o lançamento do iPhone 7 ficou marcado pelo anúncio dos fones AirPods, disponíveis a partir dos últimos dias de outubro, idênticos em tudo aos modelos atuais exceto na troca dos fios por bluteooth. E assim se anuncia o princípio do fim dos problemáticos e inestéticos cabos.

Mas será que estamos a tratar da enxaqueca cortando a cabeça?

À boleia dos iPhone7 e 7 Plus, que deixaram de ter entrada exclusiva para os auriculares (quem quiser continuar a usar fios terá de comprar um adaptador para ligar ao orifício onde se carrega a bateria), serão postos à venda os tais AirPods, que vão custar 179 euros. Esta alteração da Apple não foi propriamente pioneira – tanto a Nokia como a Motorola já tinham tirado a dita entrada universal, e muitas outras marcas comercializam atualmente este tipo de fones. “Vem confirmar uma tendência, mas nenhum equipamento até agora abdicou totalmente da entrada. Mantêm sempre a compatibilidade com dispositivos com fios”, explica Pedro Oliveira, diretor da revista Exame Informática. “Imperativos técnicos devem ter falado mais alto. Ao abdicarem do jack, a Apple ganhou espaço dentro do telefone e pôde melhorar a câmara, o processador e a bateria.”

As boas notícias acabam aqui. Já não bastava ter de carregar o telemóvel ou o smartwatch, agora também é preciso fazer o mesmo aos auriculares sem fios. E como muitos deles se carregam dentro da própria caixa, qualquer dia é preciso uma mochila só para os gadgets mais simples do dia a dia. “As pessoas tornam-se reféns da autonomia”, diz Pedro Oliveira. São importantes critérios como design, preço, conforto, ergonomia e qualidade de som (“os melómanos mais puristas, por exemplo, nunca abdicarão dos cabos”, garante o diretor da Exame Informática), mas consoante o objetivo de cada utilizador é preciso estar ciente de que a tecnologia bluetooth gasta bateria ao telemóvel. “Está sempre a consumir energia. Mesmo por pouca que seja, consome. Apesar de a autonomia estar a aumentar, quando se tem pouca bateria no telemóvel, terá sempre de se optar entre ouvir música e atender uma chamada. Em última análise, queremos falar ao telefone”, explica Pedro Oliveira. Além disso, ao contrário da maioria dos gadgets, os auriculares não têm um indicador a mostrar exatamente que bateria resta – corremos o risco de ficar sem música a meio do jogging.

Aos primeiros rumores de que o próximo iPhone ia perder a entrada, o cofundador da Apple, Steve Wozniak, insurgiu-se. Em entrevista ao Australian Financial Review defendeu que o som perderá qualidade com a utilização do bluetooth. Para Wozniak o futuro é a ligação USB-C, com muito mais largura de banda e que não obriga a comprimir dados como a tecnologia streaming. “É como se fosse uma estrada com mais faixas por onde passa muito mais informação. Quantos mais dados uma música tiver, mais pormenores serão percetíveis, mais rica será a reprodução”, explica Pedro Oliveira.

Outras vozes críticas também se fizeram ouvir, mas para abordarem a questão da saúde. Especialistas como Joel Moskowitz, professor na Escola de Saúde Pública na Universidade da Califórnia, em Berkeley, alegam que as ondas de rádio de baixa intensidade (as utilizadas pelo bluetooth) são prejudiciais tão perto do cérebro. “Estamos a brincar com o fogo”, disse ao Daily Mail. “Porque é que alguém haveria de inserir dispositivos que emitem micro-ondas dentro dos ouvidos, ao lado de cérebro, quando há formas mais seguras de usar o telemóvel?”

Será a tecnologia sem fios o princípio do fim dos fios? É sem dúvida uma experiência mais cómoda, mas os utilizadores não se podem esquecer que, se não quiserem fios, terão de se submeter às limitações das baterias. O preço é mesmo a melhor notícia – melhor para as empresas, claro está, atendendo aos preços exorbitantes dos novos fones.