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"O vinho português manteve as suas castas características e isso, hoje, é até muito fashionable"

Sociedade

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Jancis Robinson, crítica de vinhos do Financial Times, pertence a um grupo restrito de especialistas que seleciona os vinhos servidos pela Casa Real britânica nos banquetes oficiais. Em entrevista à VISÃO, a pretexto do livro que lançou sobre vinhos portugueses, elogia o caráter indígeno das castas nacionais, que diz estarem a ser procuradas por países ou regiões como Austrália, Califórnia ou Espanha, na esperança de lhes proporcionarem "adoráveis sabores"

É uma das mais influentes e respeitadas críticas de vinho do mundo. As suas crónicas no Financial Times podem levar uma marca a tornar-se um bestseller – embora, admita à VISÃO, ainda não conseguem fazer com que os vinhos alemães se tornem populares.

Licenciada em Matemática e Filosofia, Jancis Robinson, 66 anos, começou a escrever sobre vinhos em 1975. Além da coluna semanal no prestigiado jornal (e que tem uma média de leitores superior a dois milhões por dia...), as notas que publica no seu website são lidas por milhares de amantes ou simples curiosos sobre o mundo dos vinhos.

Em 1984 tornou-se Master of Wine, um título que ainda hoje só mais 329 especialistas em todo o mundo possuem. É Oficial do Império Britânico, comenda que recebeu das mãos da rainha em 2003, e no ano seguinte foi convidada para integrar o Royal Household Wine Commitee, um grupo restrito de especialistas que seleciona os vinhos servidos pela Casa Real britânica nos banquetes oficiais.

Depois de se ter tornado famosa do grande público pelos programas televisivos que apresentou, Jancis dedicou-se sobretudo à escrita. O livro The Oxford Companion to Wine é uma espécie de bíblia vinícola, de leitura obrigatória para qualquer enólogo que se preze.

Em Portugal lançou esta semana um livro chamado Especialista de Vinhos em 24 Horas (Casa das Letras), dedicado às castas portuguesas. A VISÃO aproveitou uma passagem de Jancis pelo Porto para conversar também sobre o livro, mas sobre muito mais do que isso.

Ainda continua a sentir, como um dia escreveu, um “absurdo prazer” ao entrar num táxi e pedir ao motorista para a levar ao Palácio de Buckingham?

[Risos] Sinto, sim. E sabe porque é que estou aqui agora em Portugal? Vim com outros membros do Royal Household Wine Commitee [RHWC, um grupo muito restrito de especialistas que faz a seleção dos vinhos servidos pela casa real britânica em cerimónias oficiais]. De vez em quando saímos para explorar algumas regiões vinícolas. O Vinho do Porto é muito importante e é servido pela rainha em diversas ocasiões especiais. Desta vez vim eu e mais três membros do RHWC.

Para escolher algum vinho em particular?

Não propriamente. É mais para provar e perceber o que se está a passar com o Vinho do Porto.

A Jancis é membro do RHWC desde 2004?

Sim, acho que sim. Você sabe melhor do que eu.

O que fazem concretamente os membros do RHWC?

Eu digo-lhe, mas se quiser saber mais pode ler no meu site. Eu escrevi um artigo muito longo sobre o que fazemos exatamente. Mas é mais ou menos isto: à volta de três a quatro vezes por ano encontramo-nos nas caves do Palácio de Buckingham ou, ocasionalmente, no Castelo de Windsor, e provamos entre 20 e 40 vinhos. O Clerk [uma espécie de guardião] das caves reais, Simon Berry, é que olha para os stocks e decide o que precisamos para um determinado evento. Pode ser um tinto da Borgonha [França] ou algum tipo de vinho branco, por exemplo. Depois vamos para uma tenda e testamos alguns deles em provas cegas e damos-lhes pontuações. É assim que tomamos a decisão sobre os vinhos que vamos comprar para cada ano.

A Jancis já escreveu uma vez que gosta das provas cegas...

Sim. Já vi que fez bem a pesquisa. [Risos]

... até porque alguns dos vinhos vêm de empresas detidas por membros do próprio comité...

Sim, é verdade. É mais transparente.

Tem ideia de quantas garrafas há nas caves reais?

Não sei. Mas nós não queremos ter grandes stocks porque é dinheiro público e não queremos ser acusados de o desperdiçar. Por isso tentamos não ter stock para mais de um ano.

A rainha gosta de vinho português?

Não sei. [Risos]

Mas já serviram vinho português nalgum evento?

Vinho do Porto, sim. Vinho de mesa, não sei. As caves reais são muito tradicionais, não são nada vanguardistas, por isso penso que irá demorar até terem vinho de mesa português. Talvez depois desta nossa visita possamos aumentar o stock de Vinho do Porto.

A Jancis é Master of Wine, um título muito exclusivo. Deve ser preciso conhecer quase todos os vinhos do mundo para conseguir chegar a esse patamar...

Na verdade, sim. Eu tive sorte, porque fiz o exame em 1984 e nessa altura a quantidade de vinhos produzidos no mundo era muito mais limitada. Conseguir ser Master of Wine hoje em dia é mais difícil do que era no meu tempo. Há muito mais vinhos e sabemos hoje mais sobre a ciência do vinho. E é mesmo preciso saber tudo sobre a ciência do vinho. Em 1984, era muito mais óbvio reconhecer quando um vinho era australiano, californiano ou francês. Hoje há tantos vinhos com paladares tão semelhantes, independentemente da sua proveniência... E no exame há provas cegas onde os examinandos não sabem nada e têm de tentar identificar os vinhos e de onde veem.

Quantos Masters of Wine existem?

Somos 330 no total, atualmente.

E há muitas mulheres?

Sim, a proporção das mulheres tem vindo sempre a crescer. Neste momento devemos ser cerca de 40% do total.

A maioria delas é britânica?

Não, de todo. É verdade que o primeiro não britânico foi designado apenas em finais dos anos 1980, mas agora há Masters of Wine por quase todo o mundo.

Como é que lida com o poder que tem de destruir um vinho ou de o tornar um sucesso estrondoso com uma simples crítica?

Têm-me perguntado isso algumas vezes. A minha resposta geralmente é esta: ao longo destes 40 anos, venho dizendo que a Alemanha faz vinhos fantásticos, por exemplo, e mesmo assim é difícil que eles tenham sucesso e se vendam. Por isso, acho que não tenho assim tanto poder.

Não sente que tem esse poder?

Não. Adoro quando alguém diz que eu recomendei este ou aquele vinho e ele vendeu bem ou até esgotou o stock. Essa é uma boa sensação, é sinal que as pessoas acreditam no que eu digo. Mas não é por isso que o faço.

Mas é reconhecida internacionalmente...

Nos anos 1980, fiz as primeiras séries televisivas sobre vinhos. Foram três, ao todo, no Channel Four. Depois, nos anos 1990, fiz também uma série maior na BBC chamada Jancis Robinson’s Wine Course (Curso de Vinhos de Jancis Robinson). Nessa altura, em Inglaterra e na Austrália, principalmente, eu era muito reconhecida pelas pessoas na rua. Mas há vários anos que a minha vida se desligou da televisão e está mais dedicada aos livros, e hoje esse reconhecimento imediato já não acontece. Mesmo as pessoas ligadas ao vinho conhecem o meu nome pelos livros e pelos meus artigos nos jornais e no meu website.

Recebe muitas garrafas de vinho em casa?

Ui, sim. Imensas e não solicitadas. Eu não peço nada, mas elas, simplesmente, chegam. Estou muito cansada de ir à porta e dar de caras com mais uma encomenda, que não fiz, de caixas e caixas de vinho.

De todo o mundo?

De todo o mundo. E repare que é relativamente difícil enviar vinho para Inglaterra, porque as taxas de importação são muito altas.

Tem um novo livro dedicado aos vinhos portugueses. Que livro é este?

É o livro mais pequeno que alguma vez escrevi. Não é para entusiastas obsessivos, para quem é absolutamente fascinado pelo vinho. É para pessoas que gostam de beber vinho e não gostam de fazer má figura. Pessoas que querem saber o suficiente, o essencial, e de uma forma fácil.

Os seus livros e artigos têm quase sempre essa preocupação de educar para o vinho. É isso que mais gosta de fazer?

Dá-me imenso prazer. Gosto de partilhar, não gosto de posturas ditatoriais ou de prescrever vinhos. O que gosto mesmo é de encorajar as pessoas a sentirem-se confortáveis com o vinho e dar-lhes a informação suficiente para fazerem os seus próprios juízos sobre o que bebem.

Como vê o panorama vinícola português?

Acho que está ótimo. O vinho, em termos de qualidade, melhorou imenso desde a primeira vez que cá vim, em 1976. Quarenta anos, meu Deus! É tanto tempo. Nessa altura o vinho era muito tradicional, quase não tinha fruta, tinha poucos taninos. O que eu mais admiro em Portugal é que não se deixou apaixonar pelas castas mais comuns, o Chardonnay, o Cabernet e outras castas internacionais. Pelo contrário, manteve as suas castas características, e isso hoje é até muito fashionable. Toda a gente hoje procura o caráter local e variedades indígenas, e isso é o que Portugal tem. Ao mesmo tempo, essas castas portuguesas adaptam-se ao clima, aos verões quentes. Com a temperatura global a subir, já há mesmo países ou regiões a importar castas portuguesas, como a Austrália, a Califórnia ou a Espanha, esperando sair-se bem com elas e que elas tragam estes adoráveis sabores. Portugal está numa excelente posição. Só estou triste porque, por uma questão de tradição, o mercado inglês espera sempre que os vinhos portugueses sejam baratos. E isso está a fazer com que o crescimento da exportação para Inglaterra, por exemplo, seja mais lento.

Mas podem os vinhos portugueses ser competitivos noutros mercados? Podem bater-se com os vinhos do Novo Mundo, que são mais apoiados pelos próprios governos e, por isso, mais baratos?

Claro que sim. Em muitos aspetos os vinhos portugueses são muito mais interessantes e têm caráter, e é isso que muitos consumidores querem.

Quantos vinhos consegue provar por dia?

Depende da logística. Se for numa sala cheia, com muitos provadores e com muito movimento, talvez uns 60. Mas é possível provar 80, por exemplo, em condições mais favoráveis.

E não fica cansada?

As pessoas dizem que à medida que envelhecemos vamos perdendo faculdades. Talvez seja verdade, e eu não tenho hipótese de o desmentir. Mas o que descobri é que com a idade o meu poder de concentração tem aumentado. Quando vou para uma prova foco-me completamente nos vinhos, o que não sucedia quando era mais nova, em que achava que as provas eram ocasiões sociais e por isso aproveitava também para conversar com as pessoas. Hoje concentro-me muito mais. Acho que em parte também é porque o meu website tem assinantes, e eu sinto que devo dar a essas pessoas o máximo de notas possível.

Em 2008 perdeu o olfato por causa de um vírus. É possível provar e avaliar um vinho sem o cheirar?

Foi terrível. Eu descobri que tinha ficado sem olfato no avião a caminho da África do Sul onde ia ser júri de um concurso numa importante competição. Tive de provar os vinhos todos e avaliá-los, embora não conseguisse cheirar nada. Mas foi interessante porque, apesar disso, e de eu sempre ter acreditado que o olfato era absolutamente crucial, descobri que, quando comparei os meus julgamentos com os dos meus companheiros de painel, as avaliações foram muito parecidas. Descobri que conseguia julgar razoavelmente apenas com o palato. O que não consegui foi dizer a que cheiravam os vinhos. Mas foi muito assustador. Durou cerca de duas semanas e os meus filhos até brincavam comigo e davam-me perfumes a cheirar. ‘Vá lá, mãe. Tu consegues cheirar isto’. [Risos] Mas eu não conseguia, mesmo.