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Amamentar em público: Porque é que isto incomoda?

Sociedade

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“Esconder o bebé porquê?” Assim 
se insurgiu o marido 
de Diana Ralha (aqui a amamentar o terceiro bebé) quando um empregado de mesa sugeriu que a mãe, hoje de quatro crianças, se cobrisse enquanto dava de mamar

DR

Sucedem-se as campanhas sobre a forma mais natural e saudável de alimentar um bebé, em defesa das mulheres que o querem fazer a qualquer hora e em qualquer lugar. Ainda há quem se choque – em 2016

Diana Ralha, 38 anos, mãe de quatro, já nem reparava nos olhares que lançavam, sempre que era preciso pôr a mama de fora – ainda há pouco tempo andava pelo supermercado de bebé ao peito, como se fosse o ato mais natural do mundo. “Dei de mamar a todos meus filhos e nem sempre foi fácil”, reconhece, a lembrar-se de si enquanto jovem de 25 anos, quando foi mãe pela primeira vez, num país que não falava de aleitamento materno e em que as enfermeiras (pelo menos foi essa a sua experiência) num instante passavam biberões para as mãos das mães recentes.

Depois, devagarinho, o discurso da amamentação foi entrando em cena, mas sempre de uma forma resguardada. Uma coisa íntima, como se o bebé não pudesse de forma alguma ter fome quando anda com a mãe na rua. “Ouvi muitos comentários desagradáveis. Uma vez, num restaurante, um empregado sugeriu-me que cobrisse o bebé com uma fralda. Até foi o meu marido que respondeu: 'Porquê? O senhor costuma comer com um guardanapo a tapar-lhe a cara?', conta, divertida, comentando que não sabe como é que o ato, próprio dos mamíferos, replicado até pela iconografia religiosa, se tornou um tabu – para depois rematar: “Convenhamos que encarar isto como um ato sexual é do caneco!”

Desconsiderado durante alguns anos, nos idos de 1970 e 1980, quando os biberões eram o símbolo do progresso, hoje não há dúvida alguma que o leite materno é o alimento mais saudável que uma mãe pode dar a um filho – e está pronto a servir, à temperatura ideal, seja onde for.

Foi a pensar nisto que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) decidiu apoiar o desafio lançado pelo agrupamento dos centros de saúde de Lisboa e Oeiras, numa campanha chamada “Aleitamento materno: presente saudável, futuro sustentável”, para integrar as comemorações da semana mundial dedicada ao tema, de 10 a 16 de outubro. “Acolhemos de imediato a ideia, porque se enquadra na perfeição no nosso plano municipal de saúde e qualidade de vida, que segue as estratégias definidas pela Organização Mundial de Saúde [OMS]”, assume João Afonso, o vereador dos Direitos Sociais na CML.

Mas ainda antes da apresentação, no sábado 10, no Jardim da Estrela, em Lisboa, já a polémica estalara em torno dos primeiros cartazes. Instalada junto à Assembleia da República, a primeira imagem a ser conhecida não demorou a ser alvo de chacota, por causa do olhar do pai na direção da mama da mulher, do seu corte de cabelo, enfim... Para o vereador, a cena limita-se a espelhar a vida como ela é: “Estas reações só mostram que a nossa campanha é importante por duas razões: para chamar a atenção para a saúde e o desenvolvimento das crianças e para ajudar a desconstruir tabus”, responde o vereador, a sublinhar que a amamentação deve ser feita sempre e onde necessário. “Trata-se de um ato entre uma mãe e o seu bebé. E coisa mais natural no mundo não há: porque não há de invadir a cidade, que é um espaço público?”

É uma boa pergunta – mas a verdade é que o cartaz no tal múpi junto ao Parlamento foi trocado em poucos dias (ver caixa). Trata-se de um tema que levanta sempre as discussões mais acaloradas. Há quem considere que é uma exposição pública desnecessária, há quem não esteja minimamente interessado no que os outros pensam e o faça sem quaisquer pudores. Há ainda quem concorde que se devia poder fazê-lo em qualquer lado, mas tenha vergonha. E há quem transforme a amamentação numa causa e promova manifestações públicas em sua defesa.

Controvérsia e outros 'statements'...

Lá fora, a polémica estalou há mais tempo. Mulheres a amamentar fizeram capas de revista um pouco por todo o globo – na Elle austrália e na Vogue Brasil, por exemplo, depois de, em 2009, o Facebook ter censurado imagens de mães a amamentar: fotos com mamilos à vista, explicava o site, eram uma violação da sua política de privacidade. A reagir contra medidas assim, em 2010, a eurodeputada italiana Licia Ronzulli fez questão de levar a filha de um mês para o trabalho, para poder continuar a amamentar. Em 2013, a modelo Gisele Bündchen publicou uma foto no Twitter a amamentar, enquanto era maquilhada para um desfile. Em janeiro deste ano, outro caso fazia as delícias das manchetes: no país vizinho, a deputada do partido Podemos, Carolina Bescansa, não se fez rogada e protagonizou a imagem mais invulgar na sessão constitutiva do então novo Congresso dos Deputados espanhol, ao dar de mamar ao seu bebé de meses enquanto assistia ao plenário. No princípio do verão, foi na Argentina que centenas de mulheres saíram à rua a amamentar os filhos, em resposta a um polícia que proibira uma mãe de o fazer.

No entretanto, as defensoras da amamentação em público ganharam um novo aliado, com a campanha anual da OMS a lembrar que deve ser natural as mães darem de mamar em restaurantes, autocarros ou quando andam às compras. A razão, enfim, não é propriamente desconhecida: “O leite materno é o melhor alimento que se pode dar a um bebé.” Então o que obriga a tanta campanha, a tanto manifesto?

Abençoado e bonito por natureza

“Antes de mais, para muitas mulheres não é assim tão natural porque a amamentação desapareceu das referências mais próximas de várias mães, alimentadas a biberão, quando as mulheres foram trabalhar em massa”, recorda Mónica Pina, médica consultora de lactação, que desde 1995 se dedica a ajudar mulheres a amamentar os filhos. “Conto sempre a história da experiência com uma macaca criada em cativeiro. Quando chegou a altura de amamentar a cria, ela não sabia o que fazer. Depois, puseram uma série de mães a dar de mamar à sua frente e ela lá repetiu os gestos. É uma coisa que tem de se aprender”, segue Mónica, que fez a formação de conselheira de amamentação da OMS/UINICEF e faz parte da delegação nacional da Liga do Leite.

“Ao contrário do que muitos julgam, não estou lá para julgar a mãe, apenas para a ajudar nas suas decisões”, comenta ainda a especialista, a lembrar que o investimento nessa área, o mesmo que criou cantinhos de amamentação nos centros de saúde em 2007, costuma ser dos primeiros a sofrer reduções em momentos de crise. “E aquilo que podia ser uma mais-valia para as mães, para poderem alimentar os seus filhos convenientemente, até por questões financeiras, deixou de ser uma preocupação das políticas de saúde.” E depois, insiste, o tema só toma estas proporções porque se trata do corpo feminino. “Tudo o que tem a ver com o corpo das mulheres torna-se um campo de batalha na sociedade.”

Outros reconhecem o tabu – e foi por isso que surgiu o Loove.pt, uma coleção de fotografias de mães a amamentar no local que lhes fosse mais confortável. Conta Tiago Figueiredo, fotógrafo de serviço do projeto: “Acho muito bonito que a natureza nos dê meios de sobrevivência e ainda mais bonito que não abdiquemos deles, numa era em que somos seduzidos por todo o tipo de dispositivos e plataformas que nos afastam uns dos outros. A ligação entre mãe e filho que vi nas sessões que fiz encheu-me de ternura”, confessa o fotógrafo. “Parece que os seios da mulher só são tolerados em público se forem sexualizados. Se forem para satisfazer uma necessidade básica de uma criança tornam-se uma ofensa à moral e bons costumes.”

Diana Ralha, a tal mãe que chegou a ouvir de um empregado de mesa que tapasse a mama e a cara do bebé, sabe bem do que fala – também aparece nesse projeto, a dar de mamar na varanda da sua casa. Mas também o faz num jardim público ou no cabeleireiro, a pintar o cabelo. “Tenho até uma foto no Museu Nacional de Arte Antiga com o bebé na mama debaixo do quadro da Virgem do Leite, um quadro do alemão Hans Memmling, em que Maria aparece a amamentar o filho.” Também por isso não teve pudores em alimentar o filho à mama durante o velório do sogro. “Aliás, eu e a bebé acompanhámo-lo durante todo o processo, às consultas no IPO, às sessões de quimioterapia – dar-lhe de mamar era a vida contra a doença e contra a morte. Por isso, quando a bebé começou a chorar na missa de corpo presente até foi o padre a interromper as leituras para dizer: ‘A mãe que dê de mamar ao bebé.’ Porque é absolutamente natural”, remata – ela, que nem se diz propriamente religiosa, mas, mesmo que fosse, já sabe que estaria abençoada. Até o Papa Francisco já o disse, durante o batismo de 32 crianças na Capela Sistina: “Mães, nem pensem duas vezes se precisarem de amamentar. Numa igreja ou em outro qualquer lugar público.”

De boas intenções...

A ideia da campanha a favor do aleitamento materno a qualquer hora e em qualquer lugar é feita dos melhores propósitos. Na terça-feira, 6, um primeiro cartaz era colocado junto à Assembleia da República. No dia seguinte, a imagem circulava nas redes sociais acompanhada dos primeiros comentários jocosos. Até o Expresso comentou, em tom irónico, “a classe com que a mãe dá de mamar de perna cruzada”, qualificando a foto de “kitsch com um toquezinho azeiteiro”.

Ao que a VISÃO pôde apurar, os casais visados não gostaram do que leram. Os efeitos de tudo isto não demoraram a fazer-se notar: no passado dia 13 de setembro, a imagem junto ao Parlamento já tinha mudado. Mas do gabinete dos Direitos Sociais da autarquia lisboeta garantem à VISÃO que a campanha voltará às ruas – em breve.