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Tatuagens para sempre? Há uma nova técnica para os arrependidos

Sociedade

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Há dez anos as tatuagens eram moda. Agora também é moda removê-las, mas sai caro

"Fanhan”. A alcunha da adolescência está-lhe gravada no braço há uma década. João, chamemos-lhe assim, tinha 18 anos quando foi com o irmão gémeo à Bad Bones, no Bairro Alto, para fazer uma tatuagem. O irmão já se aventurou a mais umas quantas. João quer é apagar a palavra que lhe ocupa boa parte do antebraço. “Foi um excesso da juventude”, conta o jovem advogado, assegurando que nunca a escondeu mas também não é um feito de que se orgulhe. “Hoje, não faz qualquer sentido.” À procura de uma solução para o seu caso chegou à Clean Ink, a primeira clínica portuguesa dedicada à remoção de tatuagens, que usa laser de última geração para apagar tinta preta e colorida, e que promete deixar a pele intacta.

“É um negócio engraçado porque cada tatuagem tem uma história – e cada remoção também”, conta Filipe Safont, 37 anos, gestor de uma empresa de jogo online até ela fechar, e que por isso se pôs em campo à procura de um negócio novo. As portas da Clean Ink abriram em maio e de momento já têm 70 pessoas na carteira de clientes. O próximo passo será instalarem-se também a norte. “Há quem venha do Porto de avião de seis em seis semanas para fazer o tratamento.”

O tema é da maior atualidade, apesar de as tatuagens serem uma tradição bem mais antiga do que poderíamos imaginar. A palavra deriva de “tattow”, usada pela primeira vez pelo capitão James Cook depois da expedição à Polinésia, e pretendia relatar os desenhos que os nativos faziam no seu corpo (a que chamavam “tatau”, dado o som feito durante a execução). Mas poderá ser uma prática bem anterior ao século XVIII – em 1991, quando encontraram a múmia Otzi, datada de 5300 anos antes de Cristo, eram bem visíveis as suas 57 tatuagens, uma série de padrões de pontos e linhas ao longo da coluna, além de desenhos tribais em toda a perna.

Em 2006, escrevia a VISÃO que a tendência era tatuar e que a prática se democratizara, de estudantes a figuras públicas, passando por mães de família.

A socialite Bibá Pitta dizia mesmo que doía menos do que arranjar as sobrancelhas; Sónia Tavares, vocalista dos Gift, assumia que “fazer tatuagens é como comprar uns brincos”.

Hora do arrependimento

O boom, sabia-se, começara no início dos anos 90. Depois de terem sido território de marinheiros e rufias, tornaram-se quase obrigatórias para quem queria seguir as últimas tendências. Até que começaram a aparecer as primeiras histórias de desenhos que perdiam a validade, a assumir que “para sempre” pode mesmo ser demasiado tempo. Desde então, e os números são americanos, a procura de remoção de tatuagens cresceu 40 por cento. Os ícones internacionais deram o primeiro passo: a atriz Angelina Jolie limpou do braço o nome de Billy Bob, seu ex-marido, em 2002, acabando por inscrever o nome dos filhos por cima; já Johnny Depp alterou o seu “Winona forever”, dedicado à namorada do início da década de 90, para Wino, tornando-o alusivo ao vinho.

Hoje, fazer ou não uma tatuagem tornou-se uma declaração de valores. Veja-se o caso de Alison Habbal, uma australiana que lutou contra um cancro de mama e depois não hesitou em tatuar o peito em vez da cirurgia plástica. Já Cristiano Ronaldo faz questão em manter o corpo imaculado: é dador de sangue e uma coisa pode impedir a outra. Entre um extremo e o outro, há todo um rol de arrependidos.

“Chegam-nos tatuagens de iniciais ou nomes de pessoas que já não fazem sentido, desenhos que ficaram deformados, que perderam a cor... Há quem venha tirar no próprio dia em que a fez, tal o desencanto”, confirma o mentor da Clean Ink, fazendo questão de lembrar que não é obra que se apague num dia. Tudo começa com uma consulta de diagnóstico, seguindo-se seis a oito sessões: o laser dispara, destrói a tinta em micropartículas que entram no sistema linfático e são depois expelidas pelo organismo. Aplicado o creme anestético meia hora antes, há quem diga que não dói nada, há quem sinta um formigueiro e há também quem garanta que dói mais do que fazer a própria tatuagem. Apagar um desenho do tamanho de um moeda de 50 cêntimos custa €39 por sessão (o que dá um total de €234 a €312); se for do tamanho de uma caixa de DVD, já fica por €159 (para um valor máximo de €1272). Afinal, apagar uma má memória tem preço.