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Divulgação de vídeos íntimos leva italiana a enforcar-se após conhecer decisão do tribunal

Sociedade

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A sentença ordenou a retirada das imagens e comentários da internet, mas obrigava Tiziana Cantone a pagar 20 mil euros em custas judiciais

Rui Antunes

Rui Antunes

Jornalista

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Iniciou o processo para mudar de nome, trocou de casa, despediu-se no trabalho. E tentou a todo o custo, pela via judicial, apagar da internet vídeos de natureza sexual em que participou e acabaram partilhados sem o seu consentimento. Andava nesta angústia há mais de um ano, caída numa depressão que, segundo a mãe, a fazia refugiar-se no álcool, até ganhar a ação em tribunal. Mas a sentença também a obrigava a pagar 20 mil euros em custas, por ter autorizado a gravação.

Não se sabe se foi essa a gota de água a fazer transbordar um copo cheio de ofensas na rua, nas redes sociais e até na televisão - a mãe alega que foi "tudo o que ela viu e ouviu, em particular o desfecho do processo legal" -, mas Tiziana Cantone enforcou-se, na terça-feira da semana passada, no sótão da sua casa. Não foi a primeira tentativa. "A minha filha já tinha tentado acabar com a vida noutras duas ocasiões. Não conseguia libertar-se desta história", contou a mãe, que acusa um ex-namorado da filha de ter divulgado um dos vídeos por vingança, depois de ela ter terminado a relação. Os outros filmes terão sido tornados públicos por pessoas que a napoliana de 31 anos tinha como amigos de confiança e para quem os terá enviado por e-mail.

Não é o ex-namorado, porém, que surge nos momentos íntimos de Tiziana. De acordo com a mãe, ele forçava-a a ter relações sexuais com outros parceiros e, num dos vídeos, Tiziana profere a frase "Estás a fazer um filme? Bravo", que haveria de dar origem às mais variadas formas de insulto, de t-shirts a memes, de grupos no Facebook a canções. Também foi alvo de chacota na televisão e os jogadores de futebol Paolo Canavaro e Floro Flores chegaram a fazer um vídeo, num supermercado, a gozar com a situação. Tornou-se paródia nacional.

"A minha sobrinha foi assassinada pela internet", acusa uma tia, sem meias palavras, enquanto o jornalista e escritor Roberto Saviano aponta o dedo à "intolerância italiana", no que respeita aos comportamentos sexuais das mulheres. "Morreu porque em Itália as mulheres não devem falar de sexo, não devem escrever sobre o tema, têm de praticá-lo com timidez, às escondidas. E se o fazem com facilidade ou desfrutam dele é inoportuno, pecaminoso. Para os homens é uma honra, mas a mulher que o faz é uma prostituta", diz, na sua página de Facebook, o homem que escreveu Gomorra após vários anos inflitrado na máfia, para quem Tiziana foi "vítima de voyerismo".

O Ministério Público italiano anunciou esta quarta-feira, 14, a abertura de um inquérito para apurar se está em causa o crime de indução ao suicídio.