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Polícia chamada a investigar suicídios de cães em Madrid

Sociedade

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Pablo Blazquez Dominguez

Em Portugal, "há muitos animais que se atiram de janelas" e a primeira tentação é pensar em acidente, "mas às vezes pode ser do stresse a que o animal está sujeito". Há investigadores que acreditam nessa tese e por isso que lhe chamam suicídio, mesmo que inconsciente. Afinal, questionam, quantos humanos estarão conscientes quando seguem por esse caminho?

Rui Antunes

Rui Antunes

Jornalista

A morte de cães em circunstâncias estranhas tem vindo a tornar-se "frequente" em Madrid e o Ministério Público espanhol instruiu a polícia a realizar uma investigação "mais aprofundada", no sentido de descartar ações criminosas que possam estar a ser mascaradas como casos de suicídio canino: desde os que se atiram (ou caem?) de varandas à invulgar denúncia de um cão que enfiou a cabeça num saco de plástico e se deixou asfixiar, sem ter tentado libertar-se.

Como explica o jornal El Mundo esta quinta-feira, quando não há sinais de maus tratos aos animais por parte dos donos, as autoridades avançam com a possibilidade de ter ocorrido um suicídio. Não no sentido de os cães elaborarem um plano para acabar com a vida, até porque a ciência ainda não conseguiu demonstrar esse grau de racionalidade/intencionalidade, mas como consequência de uma condição de stresse extremo, alimentado por dor e sofrimento, e susceptível de levar a uma espiral de negativismo sem saída à vista. O tipo de sentimento que tantas vezes se resume como depressão nos humanos e que está na origem de muitos suicídios.

É essa a tese defendida por investigadores como o britânico Edmund Ramsen, historiador da Ciência e Medicina na Universidade de Queen Mary, em Londres, para explicarem os comportamentos suicidas nos animais. Num estudo publicado em 2014 - em parceria com Duncan Wilson, da Universidade de Manchester -, Ramsen não sustenta apenas que eles também comentem suicídio, como sugere que as causas na base desse desfecho são iguais às verificadas nos humanos. "O corpo e a mente estão tão danificados pelo stresse que isso conduz à auto-destruição", afirmou à Discovery News. "Não é necessariamente uma escolha", vincou, para contestar a intencionalidade enquanto traço obrigatório na definição de suicídio. No seu entender, isto é tão válido para os animais como para os humanos, uma vez que considera o ato de acabar com a vida revelador de alguma dose de irracionalidade também nas pessoas.

Em Portugal, são "muitos os animais que se atiram de janelas", como admite à VISÃO Maria do Céu Sampaio. "Mas não sabemos porquê porque não há estudos", resigna-se a presidente da Liga Portuguesa dos Direitos dos Animais. O instinto de alguém que lidou toda a vida com animais, porém, diz-lhe que os acasos do destino não explicam tudo. "Pensamos sempre que foi um acidente, mas às vezes pode ser o stresse a que o animal está sujeito", sugere, com o exemplo de Sandokan bem presente na memória.

Aquele "cão grande" com fama de agressivo, que decidiu adotar, viveu com ela durante três anos, "feliz e contente". Até que numas férias o deixou ao cuidado de um abrigo que colabora com a associação que dirige. Quando regressou, convenceram-na a manter lá o rafeiro "parecido com um pastor alemão", uma vez que se tinha dado às mil maravilhas. Maria do Céu acedeu e um dia telefonaram-lhe a informar que um casal que o costumava passear o tinha adotado: "Quatro meses depois, ligaram-me a dizer que se tinha atirado de um quinto andar. Na minha ótica, tudo se deveu à mudança do espaço onde vivia. Um cão daquele tamanho não iria fazer isso inadvertidamente."

Ao partilhar este episódio que a marcou para sempre - "nunca mais vou deixar um cão sair de minha casa" -, Maria do Céu Sampaio recorda-se dos cães que, ao chegarem aos abrigos, revelam toda a sua "angústia e stresse" pela mudança de ambiente. "Não param quietos, tentam saltar as redes, andam de um lado para o outro, fazem tudo e mais alguma coisa", descreve, para reforçar a ideia de que a ciência ainda tem um longo caminho pela frente até decifrar o que determina certos comportamentos caninos. Uma coisa é a impressão com que as pessoas ficam ao observar os animais, outra é fazer prova de que algo acontece por esta ou aquela razão.

A polícia espanhola não terá trabalho fácil para satisfazer o pedido do Ministério Público, mas pode partir do princípio, já demonstrado cientificamente, que, tal como os humanos, os cães também sofrem de doenças mentais, desde distúrbios de ansiedade a fobias e até autismo.