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Crónica de uma aventura no país do Pai Natal

Sociedade

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Aos 18 anos, Maria do Mar deixou para trás Lisboa – a família e os amigos – e foi viver um ano para os arredores de Helsínquia, integrada num programa de intercâmbio para estudantes do secundário. Um mês depois da experiência ter começado, aqui fica o relato das suas primeiras impressões, entre esquilos e ares quentes da sauna. "Tervetuloa Suomi!", que é como quem diz, bem-vindos à Finlândia!

Maria do Mar

Maria do Mar em Espoo, uma cidade a sul de Helsínquia

Há um mês, no aeroporto de Lisboa, mais ou menos às 6 da manhã, a voluntária da AFS que lá fôra para nos apoiar disse-nos que estava na hora. Despedi-me com um abraço apertado dos meus pais, do meu irmão e de algumas das minhas amigas, e embarquei nesta aventura. Depois de um dia inteiro passado em aviões e aeroportos, pisei terras finlandesas pela primeira vez.

Lá estava a minha nova família à espera: mãe, pai e irmã mais velha, a média de alturas a rondar os 1,85m. Olhei para cima, pronta para lhes dar dois beijinhos, mas em vez disso cada um deu-me um abraço. Perguntei-lhes se não davam beijos. E então ouvi-os a explicar que, se nos apresentam uma pessoa pela primeira vez, damos-lhe o típico aperto de mão, se chegamos junto de um grupo de amigos (por exemplo na escola) dizemos "moi" (olá, em finlandês), mas se for um amigo próximo ou familiar trocamos um abraço.

A minha nova casa

Quando chegámos a casa, fizeram-me uma visita guiada que começou no jardim (onde quase todos os dias vejo coelhos enormes e esquilos) e acabou na famosa sauna. Todas as casas finlandesas têm uma. Maior ou mais pequena, mas sempre indispensável. Na primeira vez que fui (sozinha), embrulhei-me numa toalha, como é habitual em Portugal. Da segunda vez, a minha irmã perguntou-me se queria ir com ela e avisou-me, enquanto se despia: “Aqui fazemos sauna nus, mas tu vais como te sentires mais confortável”. Como se costuma dizer, primeiro estranha-se depois entranha-se. E eu agora já estou mais do que habituada a fazer como os finlandeses.

No fim-de-semana passado tive uma das melhores experiências da minha vida. Aqui é bastante comum ter uma casa na floresta, junto a um lago. Nessas casas, o costume é ir para a sauna, sair dessa zona quente para dar um mergulho na água gelada e voltar. É uma sensação sem comparação.

A catedral de Helsínquia na noite das artes. Este monumento está a ser restaurado. É apenas uma das muitas obras que se veem pela cidade

Mas estes primeiros dias estão a ser cansativos. Penso em Português, falo em Inglês e oiço Finlandês – uma língua difícil e completamente diferente de todas as outras que divergem do Latim. Citando a comparação que o meu pai fez, ainda antes de eu aqui chegar, “o Latim é como o tronco de uma árvore e as outras línguas da Europa são os ramos. O Finlandês é uma planta que cresce ao pé da árvore”. Por enquanto, o mais difícil é conseguir pronunciar os sons que não temos no Português, como o trema, a dupla vogal ou a dupla consoante.

Neste país em que o custo de vida é bastante elevado (não existe salário mínimo e o médio mensal ronda os 3 700 euros) nem se pense em beber um café por menos de 2 euros. Tirar a carta de condução custa 2 mil euros, uma cerveja num bar é, no mínimo, 5 euros, e os bilhetes de autocarro são a 3,50 euros (5,50 euros à noite).

A escola é organizada de maneira diferente no país que obtém os melhores resultados a nível mundial e serve de modelo para a Europa. O ano escolar divide-se em cinco semestres de cerca de dois meses cada. Durante os três anos de ensino secundário, os alunos têm de completar 75 cursos (cada curso dura um semestre). Nas aulas, o ambiente é mais descontraído do que em Portugal, e o computador faz parte do material obrigatório. Os alunos têm muita autonomia e os professores estão sempre prontos a ajudar-nos.

Nos corredores, durante os intervalos, não se ouve aquela barafunda típica das escolas portuguesas. O ambiente é calmo, refletindo a personalidade dos finlandeses. Eles são reservados e não tomam iniciativa para falar com estranhos, o que torna mais difícil fazer amigos – mas se os abordarmos, mostram-se bastante prestáveis. Os almoços na escola são gratuitos e servidos às 11 da manhã. Em casa, janta-se por volta das 6 da tarde.

Isto são pulla, doces típicos da Finlândia que fiz com a ajuda da minha mãe Marita

Isto são pulla, doces típicos da Finlândia que fiz com a ajuda da minha mãe Marita

Felizmente, as refeições não são muito diferentes das que se comem em Portugal. Mesmo assim, há coisas estranhas, como um dos pratos típicos ser carne de rena. Já provei um cachorro com salsicha desse animal e posso dizer que sabe quase ao mesmo que as de porco.

Apesar de todas estas diferenças culturais, estou a adorar a experiência. Afinal de contas foi mesmo para isto que vim.

Para saber mais sobre o programa de intercâmbio da AFS, em que a Maria do Mar embarcou em agosto, clique aqui.

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    Este é um programa que existe em Portugal há 60 anos e que permite aos estudantes do secundário mudarem de país e de família durante uns meses. Não se garantem equivalências escolares, mas ninguém volta lá de fora sem uma grande história para contar