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Sim, as mulheres também têm ereções

Sociedade

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E uma investigadora francesa criou um clitóris em três dimensões, em tamanho real, para ajudar os educadores a explicarem como funciona o órgão sexual feminino que equivale ao pénis. Não, não é a vagina

Rui Antunes

Rui Antunes

Jornalista

O clitóris 3D criado por Odile Fidol com o intuito de se transformar num objeto de estudo

O clitóris 3D criado por Odile Fidol com o intuito de se transformar num objeto de estudo

Ao constatar que o clitóris é "esquecido" ou "sistematicamente mal representado" nos manuais escolares em França, Odile Fidol meteu mãos à obra. O resultado do trabalho desta investigadora em sociologia das ciências e vulgarização científica é um exemplar em três dimensões do órgão sexual feminino, aquele que corresponde ao pénis na anatomia das mulheres.

"É vital saber-se que o equivalente ao pénis numa mulher não é a vagina, é o clitóris", sublinha esta pesquisadora especializada em questões de género, "entusiasmada com a possibilidade de partilhar uma ferramenta pedagógica com os educadores da sexualidade" no seu país.

Em França o tema é abordado na disciplina de Ciências da Vida e da Terra desde a escola primária. Mas o órgão responsável pelo prazer sexual feminino não é matéria aprofundada nas aulas, por não interferir na reprodução, ao contrário do que acontece com o pénis, como revelou um relatório divulgado em junho pelo Alto Conselho para a Igualdade entre homens e mulheres.

Na opinião de Odile Fidol, expressa ao jornal Les Nouvelles News, os dois pesos e duas medidas decorrem de uma "visão segundo a qual os homens têm qualquer coisa entre as pernas, enquanto as mulheres não têm nada: apenas uma ranhura, um buraco ou uma abertura para preencher".

Para ajudar a mudar esta mentalidade, a investigadora recorreu à Cidade das Ciências e da Indústria - um organismo criado pelo ex-presidente francês Giscard D'Estaing com o objetivo de levar o conhecimento científico à sociedade e em especial aos mais jovens - para criar o seu modelo de clitóris em 3D, em tamanho real. A iniciativa visa quebrar tabus à volta do assunto e dar a conhecer, não só a forma anatómica, mas também, por exemplo, que é feito do mesmo tipo de tecido do pénis e que a sua zona saliente, igualmente designada de glande (ou cabeça), tem cerca de oito mil terminações nervosas.

"É importante que uma mulher tenha uma imagem mental do que acontece no seu corpo quando é estimulada", salienta Fidol ao The Guardian. "Ao perceber o papel fundamental do clitóris, a mulher pode deixar de ter vergonha ou sentir-se anormal se a penetração vaginal não a excitar. Por causa da anatomia, isso acontece com a maioria das mulheres".

Além do formato, uma das principais diferenças em relação ao órgão sexual masculino é que a maior parte do clitóris não está à vista. Mas costuma medir mais do que o pénis e tem características semelhantes que ajudam a compreender o que desencadeia o prazer sexual feminino.

A escultura Adamas, de Sophie Wallace

A escultura Adamas, de Sophie Wallace

"As mulheres têm ereções quando estão excitadas, só que não se veem porque o clitóris é interno", explica a pesquisadora, interessada em mostrar que o processo que leva à satisfação sexual "não é fundamentalmente diferente" entre homens e mulheres.

Em 2013, a artista norte-americana Sophie Wallace fez uma escultura do clitóris na tentativa de desmistificar o tema do outro lado do Atlântico. Chamou-lhe Adamas. Três anos depois, não esconde a satisfação por ver Odile Filol tranformar o órgão sexual feminino num objeto de estudo.

"Acho maravilho que a Odile esteja a disponibilizar este modelo como uma ferramenta educativa. É uma mudança paradigmática para novos e velhos compreenderem finalmente que o clitóris, e não a vagina, é o homólogo do pénis", diz à VISÃO esta artista conceptual de Nova Iorque, elogiando a coragem da investigadora francesa. "Nós que inovamos sobre este assunto enfrentamos tremendos obstáculos de censura, pouco ou nenhum suporte financeiro apesar da sua utilidade para o mundo em geral, e uma onda de reações negativas precipitadas sobre tudo o que tem a ver com os genitais femininos. É uma batalha difícil", lamenta.

SAIBA MAIS SOBRE O CLITÓRIS NESTA APLICAÇÃO INTERATIVA (EM INGLÊS):