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Um windsurfista pronto para fazer um ‘reset’ à vida

Sociedade

João Rodrigues viveu 35 dos seus 44 anos em cima de uma prancha de windsurf. Cinquenta e quatro medalhas internacionais depois vai dedicar-se a algo que não dependa tanto da sua condição física

Depois de seis (mais a que está para vir) participações nos Jogos, o mais olímpico dos atletas portugueses está prestes a despedir-se da competição ao mais alto nível. Dia 5 de agosto, na abertura dos Jogos do Rio, será ele o portador do estandarte português

Filho de peixe

De pais açorianos, João nasceu na ilha da Madeira em novembro de 1971. Ilhéu dos quatro costados, estreou-se no windsurf aos nove anos (depois de experimentar a natação ou o judo) e percebeu que “era [windsurf] o que queria fazer para o resto da vida”. Não acabou a sua primeira prova (iniciou-se na competição aos 11, nos regionais da Madeira), mas também não desistiu. Aos 16, juntava ao currículo a sua primeira internacionalização (ficou em 52º, numa prova em Espanha). Um ano depois, tornava-se campeão nacional de windsurf. Foi em 1988. De então para cá (e já lá vão quase 30 anos), o seu nome não tem saído da ribalta... sempre pelos mesmos motivos: o sucesso e o windsurf.

Sr. Engenheiro

Durante dois anos dedicou-se, quase em exclusivo, ao que o tinha levado ao Instituto Superior Técnico: a engenharia mecânica. Com “as piores notas possíveis” (mas passando sempre), a sabática foi natural, quando se tratou da qualificação para os Jogos Olímpicos de Barcelona (92). Ficou em 23º (ex-aequo com o 22º e o 21º). De regresso, toma a decisão de ir aos JO de Atlanta (96) e de acabar o curso. Meteu a TV num armário e potenciou o que tinha. O Técnico ajudou-o “com a estratégia, o vento, o peso, as afinações da prancha” e o windsurf a “nunca desistir, acreditar sempre até ao cortar da meta”. Terminou o curso e foi para Atlanta.

Porta-estandarte

No Rio, a bandeira nacional será transportada, na cerimónia de abertura dos Jogos, por João Rodrigues. Para o mais olímpico dos atletas portugueses, este é um tributo ao percurso da vela nacional nos voos além fronteiras e ao papel das Regiões Autónomas nas missões olímpicas. O windsurfista sucede, nesta função, à judoca Telma Monteiro, que levoua bandeira nos JO de Londres, em 2012.

A reforma

Após os JO de Atenas, em 2004, achou que “era altura” de se “dedicar à engenharia ou a algo que não dependesse da minha condição física.” Ano e meio depois voltou a andar de prancha e foi a mais duas olimpíadas. Garante à VISÃO que os do Rio é que serão os seus últimos Jogos. “A partir de 15 de agosto, a minha vida é um livro em branco”, diz, grato por, “aos 44, poder começar de novo”. Mas não tem pressa. “Vou dar a mim mesmo um tempo para decidir o que fazer daqui para a frente. Preciso de fazer um reset.”

O recordista

Em cima de uma prancha desde 1980, participa este ano, pela sétima vez consecutiva, nos Jogos Olímpicos. Encontrar-se-á com um atleta (de equitação) que já foi 11 vezes. Costuma brincar, dizendo que o seu (primeiro) cavalo já deve ter morrido. João Rodrigues conta com 140 interna-cionalizações, de onde trouxe 54 medalhas: 23 de ouro, 17 de prata e 14 de bronze. Há uns tempos, deu boleia a um estoniano, que queria ver a ponta mais ocidental da Europa. Pelo caminho, falaram dos JO e João, sem gabarolice, contou-lhe do seu percurso. No fim, o estoniano “agradeceu, desejou-me boa sorte e pediu-me para escrever o nome num papel. Quando arranquei, fiquei com a nítida sensação de que ele cria ter passado umas quantas horas com um aldrabão!”, conta, na sua página de Facebook.

© Denis Balibouse / Reuters