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Quem é bloguer e ativista que enfrentou o poder político chinês através da internet?

Sociedade

YOSHIKAZU TSUNO

Em 2005 Michael Anti foi notícia internacional, quando a Microsoft desligou o seu blogue, para se poupar a atritos com o governo de Pequim. Mais tarde seria o Facebook a cortar--lhe a conta

Em 2005 Michael Anti foi notícia internacional, quando a Microsoft desligou o seu blogue, para se poupar a atritos com o governo de Pequim. Mais tarde seria o Facebook a cortar--lhe a conta, alegando que escreve sob pseudónimo. Nascido em 1975 em Nanjing, Jing Zhao, de seu nome verdadeiro, jornalista, estudou algum tempo em Cambridge, no Reino Unido, e em Harvard, nos EUA. Hoje é um bloguer influente, e veio recentemente à Fundação Gulbenkian, em Lisboa, participar numa conferência sobre a China, onde descreveu as bizarrias de uma sociedade sem as grandes empresas internacionais de tecnologia, mas onde, ao mesmo tempo, a internet se tornou um espaço público fervilhante: conta hoje com 688 milhões de internautas e mais de 300 milhões de utilizadores do equivalente local ao Twitter. Um mundo que aprendeu a viver dentro dos limites de empresas replicadas pela China a partir das ocidentais – como ‘clone’ da Google ali surgiu o Baidu, como ‘clone’ do Twitter os chineses aprenderam a ir ao Weibo, como equivalente do Facebook têm o Renren, e como equivalente do YouTube podem aceder ao Youku e ao Tudou.

À VISÃO, Michael Anti explicou como tem vindo a mudar o ciberespaço chinês desde que, há mais de uma década, criou o seu blogue.

Como vê o papel das grandes empresas de tecnologia na China, depois dos incidentes de percurso do seu blogue?

Depois de ele ter sido desativado, as pessoas foram-se apercebendo de que existia ali um padrão. Essas empresas vão para a China à procura de quota de mercado e não de liberdade de expressão. Mesmo nos Estados Unidos, quando falam muito na causa da liberdade de expressão, o que procuram realmente é aumentar as vendas. Os utilizadores gostam da ideia de que são protegidos por essas empresas. Mas na China isso não funciona assim, as regras são outras.

Tem-se falado na “grande muralha de fogo” que bloqueia o acesso às empresas internacionais de tecnologia. Quais são as consequências desse corte com o mundo exterior?

A principal foi começarem a circular notícias falsas, não só colocadas pelo Governo, como também por empresas muito corruptas. Isto só pode acontecer, porque essas empresas sabem que não irão ser desmentidas. Como não há competitividade, a falta de informação verdadeira leva à corrupção. Parece que se está aberto ao mundo, mas apenas se está a entrar numa guerra. Esta guerra é muito negativa e até perigosa, mas infelizmente creio que vai continuar.

Há quem considere que os media on-line são simultaneamente um inimigo e um aliado do Governo chinês. Concorda com isso?

Não creio que o Governo os considere inimigos. Quando muito, vê-os como potenciais inimigos, já que tem controlo sobre eles. Mas, quando hoje se fala em comunicações on-line na China, não pode pensar-se só no lado do controlo, mas também no da inovação. A internet é a força motriz da economia e da criação de empregos no nosso país. Sem ela, muita gente ficaria no desemprego e a economia iria abrandar. Por isso, a Internet pode ser uma ameaça para o regime, mas ao mesmo tempo funciona também como seu suporte. E a política da internet é definida a pensar nas necessidades do regime.

Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook, foi recentemente em visita à China. A Imprensa internacional falou numa tentativa de aproximação ao Governo. Também vê isso assim?

Sim, creio que ele quer muito aproximar-se do mercado chinês. Mas, para o Facebook ser desbloqueado, teria de deixar lá o servidor e não creio que Mark Zuckerberg possa fazer isso.

O servidor, que permite aceder aos dados dos utilizadores, foi sempre o problema, não foi?

Sim. As contas que essas empresas precisam de fazer são sempre as mesmas. Se querem disputar uma quota do mercado chinês, têm de entregar o servidor. A Microsoft, por exemplo, pode permitir-se isso, porque não é um produtor de conteúdos, mas o Facebook ou a Google não estão em condições de aceitar. O único obstáculo, a única condição posta pelo Governo foi sempre o servidor.

Aliás, o servidor das empresas de tecnologia fica em Beijing. Disse, na conferência que deu em Lisboa, que isso tem sido utilizado pelo Governo central relativamente aos governos locais. De que forma?

O servidor dá ao Governo central um poder que lhe permite atacar facilmente os governos locais. Estes, por seu lado, ficam muito nervosos e tentam contra-atacar, produzindo os seus próprios comunicados de Imprensa. Mas não são tão ágeis e o Governo central acaba sempre por descobri-los. De qualquer forma, a nova lei reguladora da internet, que foi publicada em 2013, já dá mais alguns poderes aos governos locais.

Tem insistido muito em que não podem esquecer-se os aspetos positivos que a internet trouxe à sociedade chinesa, apesar das restrições.

Sim, a internet foi boa não só para a inovação, como já disse, mas também para o investimento e até para o quotidiano do povo chinês, que é bem mais confortável do que antes. Os chineses têm uma internet muito rápida. A Weixin (equivalente à WhatsApp) é realmente muito boa. Assim como o Taobao (comércio online) funciona bastante bem. Portanto, tudo isto abriu perspetivas de vida que, de facto, não existiam no meu país. Daí eu insistir em que é complicado falar sobre este mundo das empresas de tecnologia na China. Do ponto de vista político, o controlo é cada vez mais apertado, mas a liberdade individual é cada vez maior.

Mencionou na conferência o caso Snowden. Como foi visto pelos internautas chineses?

Basicamente começámos a perder a perspetiva idealista que tínhamos em relação aos Estados Unidos. Pessoalmente, estou cada vez mais cético. Os EUA sempre tiveram a pretensão de definir um padrão moral. Agora, depois de um caso destes, sinto-me enganado. Deve lutar-se pela liberdade de expressão em todos os países e não só na China. Nós costumamos dizer que já fazemos isso sempre.

Até onde vão hoje os limites das autoridades? Que tipo de críticas é tolerado no ciberespaço chinês?

Antes de mais, constata-se que as pessoas podem ser presas mais facilmente do que antes, devido à nova política da internet.

Refere-se à lei de 2013?

Sim. Uma das inovações dessa lei são as punições previstas sempre que sejam reproduzidos mais de 500 vezes rumores que se circulem na internet e que o Governo venha a declarar serem falsos.

Um rumor poder ser reproduzido 500 vezes na China não parece muito difícil. Quais são as consequências?

Depende do grau de gravidade do rumor, mas as punições podem ir até à prisão. Os limites são hoje, como disse, mais apertados, embora tenhamos ganho bastante em inovação. Existe sempre, como costumo dizer, um lado escuro e outro mais brilhante. É difícil avaliar uma sociedade assim. Digamos que as pessoas dispõem hoje de mais opções, ainda que essas opções não sejam políticas.

Que críticas podem levar à prisão?

Não sei dizer, porque o limite está sempre a mudar. Aliás, isso é mesmo o mais difícil, pois, quando se conhecem os limites, tenta-se não os ultrapassar. Pessoalmente, quase deixei de escrever artigos políticos no meu blogue. Talvez tenha vindo a ser essa a minha opção porque me tornei mais conservador, estou mais velho e tenho um filho. Mas algumas pessoas, sobretudos os mais jovens, tentam forçar os limites.

Com todas as precauções tomadas pelo regime, as detenções por críticas feitas no ciberespaço continuam a ser frequentes?

Sim. Ainda em 2013 muitos bloguers meus amigos foram detidos. Mas a maioria das pessoas tenta não ultrapassar os limites. O problema é que estes mudam, às vezes, de semana para semana.

Que diferenças nota no ciberespaço chinês desde que iniciou o seu blogue?

A regulação é mais apertada do ponto de vista político. Não corresponde de todo ao que as pessoas desejariam. Mas, se excetuarmos este aspeto, existem cada vez mais opções. É uma sociedade bizarra.

Quando fala em opções, refere-se a quê?

Hoje é mais fácil viajar e tirar um passaporte do que há dez anos. Podemos deslocar-nos a qualquer parte do mundo. Assim como é mais fácil conseguir um visto para os Estados Unidos. Em contrapartida, tornou-se ainda mais difícil do que antes escrever um artigo político num blogue.

Outra grande diferença a ter em conta é que dantes era preciso muito dinheiro para criar uma empresa. Hoje, isso custa quase zero. Aliás, até existem alguns incentivos à criação de start-ups. A China de hoje é politicamente mais restrita, nas socialmente mais livre.

O acesso à tecnologia é acessível, não é?

Os equipamentos são baratos e bons. Por esse lado não há dificuldade. Os iPhones são mais caros, mas os telemóveis chineses, por exemplo, são mais baratos do que no Ocidente. E pode aceder-se facilmente à internet, que é inclusivamente oferecida às pessoas pobres. Isso tudo está agora muito mais generalizado.

Mas do estrito ponto de vista de um bloguer, o que mudou desde que começou o seu?

Depende do tipo de blogue que seja. Se for político, tem de se estar preparado para uma vida dura. Se não for o caso, estamos numa idade de ouro. Pode facilmente ganhar-se milhões com um blogue que não seja político. Por outras palavras, estamos a viver uma era dourada não-política.

E a realidade é que nem todas as pessoas se interessam por política. Eu pertenço a uma minoria. Mas, mesmo fazendo parte dessa minoria, amo o meu país, porque sinto nele uma atmosfera de inovação vivíssima, só comparável à de Silicon Valley. É tudo isto que torna a China de hoje tão complicada.