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A tarde solidária de Johnny Depp e dos Hollywood Vampires

Sociedade

Sónia Calheiros e André Moreira

Sóbrios, dedicados e comovidos, os músicos da banda rock liderada por Alice Cooper, participaram na iniciativa da Starkey Hearing Foundation e da Gaes Solidária que devolveu a audição a 35 doentes portugueses. Esta noite, atuam no Rock in Rio de coração cheio

Um aperto de mão para começar e uma selfie da moda para terminar. Pelo meio, Johnny Depp manuseou os alicates com muito cuidado ao ajustar os novos aparelhos auditivos de Francisco Loureiro. O ator e guitarrista até precisou de trocar uns óculos escuros por outros mais claros, para passar a ver melhor e ainda brincou aos dentistas. Visivelmente feliz, o adolescente foi quem mais proveito tirou da vinda dos Hollywood Vampires à iniciativa da Starkey Hearing Foundation, em parceria com a Gaes Solidária, que decorreu esta tarde numa sala do Hotel Ritz, em Lisboa. Francisco Loureiro era um dos mais novos a receber um aparelho auditivo, entre os 35 utentes portugueses escolhidos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Esta não é a primeira vez que a banda de rock liderada por Alice Cooper aparece de dia para mostrar a sua face mais solidária. No ano passado, distribuíram 600 próteses no Brasil, durante a edição do Rock in Rio.

A banda já está hospedada no hotel de cinco estrelas vai para um par de dias, onde têm passado bastante tempo e bem comportados, segundo o staff do hotel. Aliás, Alice Cooper, acompanhado pela mulher Sheryl Goddard, com quem é casado há quarenta anos, já tinha passado por nós no lobby, junto aos elevadores, logo à uma da tarde. Mas não seria o primeiro a chegar à sala Marquês de Pombal. Antes vieram Bruce Wiktin (pianista, percussionista e guitarrista da banda Johnny Depp, Kids), Tommy Henriksen (guitarrista da banda de Alice Cooper) e Robert DeLeo (baixista dos Stone Temple Pilots), uma estreia, em Lisboa, ao lado do resto da banda. Ainda tiveram tempo para comer uns snacks vegetarianos. Cá fora, para doentes, organização e jornalistas nem uma migalha. Má ideia marcar uma ação solidária entre as 13 e as 16 horas, sem um único aperitivo.

A imagem de um veterano do rock, que atua sempre com os olhos pintados de preto, um tanto ao quanto assustador, contrasta com a genuína simpatia e interesse demonstrados pelo sorriso e olhos claros. “Este foi o ponto alto do dia, mais do que o concerto de logo à noite”, explica Cooper. “Somos uns sortudos por ainda não termos perdido a audição, nem sei como… Agora estas pessoas já podem ouvir a nossa música.” Duvidamos!

Entre uma e outra entrevista, Bill Austin fundador da Starkey Hearing Foundation não descurou os pormenores. “Somos da mesma banda”, brinca Alice Cooper com o médico. É preciso ajustar os moldes, fazer o equilíbrio do volume de cada um dos aparelhos e garantir que cada pessoa sai daquela sala a ouvir na perfeição. Algumas ouvem pela primeira vez, outras foram perdendo a audição gradualmente. Como Ana Vieira, 40 anos, que deixou de ouvir do lado esquerdo aos 6 anos quando teve meningite. Hoje, depois de ouvir de ambos os lados respondeu em inglês e de sorriso aberto. Para Maria José Gasso, responsável pela Gaes Solidária, o mais importante destas ações é a continuidade. “Não basta dar-lhes o aparelho. É preciso tratar da manutenção da bateria, da pilha, o molde vai mudando com o crescimento”. A empresa espanhola fundada, há 68 anos, pelo seu pai Juan Gasso, é a representante exclusiva dos aparelhos da Starkey.

“Estamos aqui para ajudar as pessoas que de outra maneira não teriam a oportunidade, nem ninguém que tratasse da situação de lhes devolver a audição”, diz Bill Austin. Nesta parte da Europa, os grandes inimigos da audição são vários, desde explosões, armas, música alta, corridas de carros ou sons industriais como martelos pneumáticos. “Quando se vai para a África as grandes culpadas são as doenças e infeções, o quinino, por exemplo, que trata a malária. À medida que tentam salvar as suas vidas, as pessoas destroem a sua audição”, explica o médico, garantindo que dez por cento da população mundial tem perdas significativas de audição.

Às 15 e 23 entra na sala o baterista Matt Sorum (The Cult, Gun N'Roses), enquanto a mulher de Alice Cooper dança com um dos utentes, ao estilo de Fred Astaire e Ginger Rogers. Daí a dez minutos é a vez de Joe Perry (Aerosmith) juntar-se à trupe. A sua ascendência madeirense faz com que esteja só à espera que a tour com os Hollywood Vampires termine, dentro de três semanas, para ir pela primeira vez à ilha portuguesa. “É difícil explicar a comoção, pois eu também já tenho vindo a perder a audição ao longo dos anos”, diz o guitarrista principal dos Aerosmith. Johnny Depp foi o último a entrar na sala.

De copo de coca-cola mão, óculos escuros, indumentária preta, faz questão de exibir os braços tatuados e alguns resquícios do pirata mais famoso da Sétima Arte, como as pulseiras, colares, três brincos brilhantes em forma de clip na orelha esquerda, cinco anéis espalhados pelas mãos e os dentes metálicos. Um lenço pendurado à cintura servirá para ir limpando o suor da testa. Aos 52 anos, o ator que está novamente solteiro, acedeu de bom grado falar com os jornalistas, não fossem os dois capangas, de porte extra largo e vestidos de preto, a apressarem-se para o tirar da sala – como se as estrelas de rock não tivessem vontade própria.

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