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Portuguesa cria app para mulheres conhecerem as suas próprias vaginas

Sociedade

Teresa Almeida, criadora da aplicação

Não basta descarregar a aplicação no telemóvel. Também precisa de uma peça de roupa interior concebida especificamente para explorar esta "ferramenta educacional", que visa prevenir problemas de saúde e esclarecer dúvidas sobre o sistema reprodutivo e a satisfação sexual das mulheres

Rui Antunes

Sabe onde fica e como funciona o clitóris? Consegue nomear todos os seus órgãos genitais? E por que são tão importantes os músculos do períneo? Estas e outras questões relacionadas com o corpo feminino são respondidas numa aplicação interativa para telemóveis que está a ser desenvolvida no Reino Unido por uma portuguesa da Marinha Grande.

O projeto que Teresa Almeida apelidou de Labella é a sua tese de douramento em Interação Homem-Máquina, que está prestes a concluir no departamento de Computação Científica da Universidade de Newcastle. Já teve honras de apresentação no jornal britânico The Independent e, à VISÃO, a criadora desvenda um pouco mais do seu protótipo.

"A ideia é levar as mulheres a olharem para o seu corpo e a refletirem sobre ele. Não se trata de um jogo, mas de uma forma de abordar assuntos tabu de maneira divertida", explica.

Desafiar tabus é um modo de vida para esta artista, estilista, pesquisadora e educadora, como é descrita no site da Universidade de Newcastle. E entre as suas ambições profissionais nenhuma a entusiasma tanto como usar a tecnologia para desmistificar temas sensíveis ligados ao bem-estar das mulheres.

Com a Labella, Teresa Almeida espera facilitar a vida das "mulheres que vão ao médico e não sabem explicar onde têm um problema", ajudá-las a "prevenir a incontinência urinária e a manter os órgãos internos no sítio após uma gravidez" ou a entender a "importância do clitóris" na satisfação sexual. Mutilação, menstruação e contraceção são outros tópicos que pondera incluir.

"Muita gente me diz que as pessoas sabem isso tudo, mas não é verdade. Nos estudos que fiz com mulheres dos 15 aos 52 pude confirmar. Tanto que a minha ideia inicial era centrar o projeto na importância para a saúde dos exercícios do períneo e só evoluiu para algo mais abrangente ao aperceber-me da falta conhecimento e das dificuldades para usarem o vocabulário certo", conta.

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Como funciona?

Descarregada a Labella na internet, sem qualquer custo associado, a utilizadora terá de apontar o telemóvel para os órgãos genitais e esperar que a aplicação inicie. Para isso deve ter vestida uma peça de roupa interior concebida para o efeito, com um padrão que o telemóvel vai reconhecer e que terá um custo – a definir quando o projeto começar a ser comercializado, "dentro de alguns meses".

Surgirá então no ecrã uma imagem ilustrada do pavimento pélvico (ou períneo), igual para todas as utilizadoras e com múltiplas possibilidades interativas. Teresa Almeida sublinha que "não se trata de uma fotografia ou imagem real" e que o gesto é apenas simbólico - inspirado numa ação educativa frequente no Reino Unido, em que "uma enfermeira se desloca às salas de aula e distribui um espelho às alunas para que elas olhem através dele para o seu corpo".

Um dos exercícios sugeridos na aplicação é encaixar os vários órgãos genitais no lugar certo e, argumenta a autora do projeto, "não é a mesma coisa tentar fazer um puzzle em cima da mesa ou tentar fazê-lo no telemóvel com a perceção de que se está a mexer nas peças do próprio corpo". A intenção é suscitar interesse num assunto sensível e reduzir o constrangimento a ele associado. Quem preferir, nem tem de vestir as cuecas - que Teresa Almeida pretende que sejam uma peça de coleção quando for lançada no mercado, com vários modelos diferentes.

A aplicação também convida a tocar nas várias partes do corpo visíveis no ecrã do telemóvel, não só para dar a conhecer as funções que desempenham, mas também como um desafio para as identificar corretamente. "Ao clicar na vulva, no ânus, no clitóris ou noutro ponto, surge o nome biológico dessa parte do corpo e também os nomes mais populares que as pessoas lhes atribuem. O objetivo é, através de um toque de humor, alargar o vocabulário das pessoas, que muitas vezes conhecem as expressões populares e desconhecem a designação biológica", explica Teresa Almeida.

À pedagogia, a Labella junta uma preocupação com a saúde, ao ensinar como se devem fortalecer os músculos do períneo e qual a sua importância. A criadora da aplicação lembra que essa "é a primeira resposta clínica a casos de incontinência urinária e uma medida preventiva do problema, tendo o mesmo efeito preventivo na deslocação de órgãos após a gravidez". Além disso, acrescenta, "a tonificação desses músculos facilita o prazer na atividade sexual". Os exercícios recomendados primam pela discrição: ninguém por perto saberá que os está a realizar e por isso podem ser feitos a qualquer hora e em todo o lado, "até no metro".

Teresa Almeida, nascida há 41 anos na Marinha Grande, emigrou em 2003 para Nova Iorque, nos Estados Unidos, onde permaneceu até 2006 para fazer um mestrado em design e tecnologia; em 2007 deu aulas de design em Kuala Lumpur, na Malásia; e de 2008 a 2011 foi professora de design e arte interativa em Singapura. Desde 2012, encontra-se na cidade inglesa de Newcastle a trabalhar no doutoramento que está agora a concluir.