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Reação do Movimento para a Prevenção da Poluição Electromagnética ao artigo da VISÃO

Sociedade

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O tema de capa da VISÃO sobre os eventuais perigos do wi-fi despertou várias reações. Incluindo de alguns dos entrevistados no artigo Zona wi-fi: Perigo? que se mobilizaram para criarem o Movimento para a Prevenção da Poluição Electromagnética

O artigo da Visão “Zona WiFi: ameaça para a saúde” suscitou indignação por parte de diversos leitores, destacando-se a Comunidade Céptica Portuguesa (CCP). Estas atitudes negacionistas revelam a desumanidade perante o sofrimento alheio, que caracterizam a sociedade tecnocrata actual. Segundo a visão tecnocrata, nada pode atrapalhar o progresso tecnológico da humanidade. Este tipo de batalhas e de desinformação assiste-se diariamente, seja na luta contra o glifosato, os transgénicos, as radiações, etc. A nossa saúde fica a perder e os lobbies industriais saem a ganhar.

A CCP ficou chocada porque, pela primeira vez no jornalismo português, se deu destaque à minoria da comunidade electrossensível portuguesa, ficando os ‘especialistas’ do meio académico e tecnológico português em segundo plano. A opinião destes ‘especialistas’ é geralmente de que as radiações são seguramente inofensivas.

Esta minoria foi chamada de ‘leigos’, negando o seu enquadramento na reportagem, que era de ‘vitimas’. Isto porque para a CCP (e outros leitores) não existe a electrossensibilidade derivada das radiações, portanto não há vitimas, apenas leigos a expressarem as suas opiniões. Ignora-se até que muitos destes ‘leigos’ também tem formação universitária à semelhança dos membros da CCP.

Os membros da CCP, que tão bem dominam a ciência, parece que ignoram algum do conhecimento sobre os seres vivos: a grande variabilidade da resposta biológica que existe em uma dada espécie, bem patente em estudos de toxicologia, por exemplo. Porque alguns de nós não podem ser mais sensíveis que outros? E não existe sensibilidade magnética nos seres vivos? Então e como se orientam as bactérias magnetotáticas, as baleias, as aves e borboletas migradoras através de longas distâncias?

Reportagem “sensasionalista e alarmista” – poderia ser considerada se tivesse sido escrita uma década atrás, quando existiam menos vítimas. Mas há mais de uma década que existem electrossensíveis em Portugal, várias pessoas mudaram de casa porque não conseguiam dormir debaixo de antenas de telemóvel, outras aplicaram técnicas de blindagem. E somos acusados pela CCP de “lucrar com o medo”? Estas mudanças, necessárias para o nosso bem estar, foram pagas totalmente às nossas custas!

Estas pessoas permanecem no anonimato, porque não quiseram/querem ser ridicularizadas. A jornalista não abordou este lado da problemática. Pela primeira vez na revista Exame Informática de Março 2016, e nesta Visão de Abril 2016, uma pequena parte da comunidade electrossensível portuguesa saiu do anonimato.

Infelizmente, este artigo foca apenas o Wi-Fi. Em parte porque surgiu nos media estrangeiros a notícia de que em França foi banido nas creches. Mas a ‘Lei Abeille’, aprovada já em janeiro de 2015, tem outras implicações, como a publicidade sobre telemóveis dever incluir menção aos riscos e modo seguro de uso (http://www.assemblee-nationale.fr/14/ta/ta0468.asp). Estes pormenores não foram aprofundados. Falta jornalismo de investigação em Portugal!

O tema da revista - focado sobre o Wi-Fi - não esclarece os leitores sobre o que é a poluição electromagnética (ou electrosmog), passando por exemplo despercebidos os riscos dos telefones sem fios (DECT).

Os cidadãos (e os media) confundem antenas muito potentes, mas que se situam a quilómetros do nosso corpo, com aparelhos mais fracos, cuja radiação é emitida a centímetros ou escassos metros do nosso corpo, durante 24 horas. Os media não ajudam a ter a percepção correcta da dose efectiva de radiação a que estamos expostos. E para dificultar, a ANACOM não disponibiliza as medições quantitativas quando é chamada pelos cidadãos!

Para colmatar esta lacuna dos media e ajudar quem não pode aceder a textos em inglês ou francês, alguns cidadãos portugueses têm explicado na Internet o que é o electrosmog: http://antenasaquinao.blogspot.pt/, http://emf.pt/; http://electrosensibilidade.blogspot.pt/; https://camposeletromagneticos.wordpress.com/.

Os media não tem apresentado aos leitores os textos produzidos por diversos grupos de cientistas independentes e médicos, que têm subscrito vários relatórios de alerta ao longo dos últimos anos (ex.: Apelo de Freiburgo 2002 e 2012, Apelo Internacional de Cientistas EMF 2015, etc).

Destaca-se o exaustivo “Relatório Bioinitiative”, subscrito por cientistas de vários continentes em 2006, e que fez a síntese de mais de mil e quinhentos estudos específicos do tema, ressaltando alguns dos efeitos que estão mais reconhecidamente relacionados com a exposição às radiações electromagnéticas não-ionizantes, quer de baixa frequência quer de radiofrequência. Destaca-se a leucemia infantil e adulta, tumor cerebral maligno, neuroma acústico, cancro da mama, doenças neurodegenerativas, genotoxicidade sobre o ADN humano, alterações nas funções imunológicas (ex.: reacções inflamatórias e alérgicas).

É nesta sequência de eventos que surge a Resolução 1815 de 27/05/2011 do Conselho da Europa, que exorta fortemente os estados membros a aplicarem o princípio da precaução relativamente aos riscos electromagnéticos.

E querem os ‘especialistas’ portugueses fazer crer ao público que a Lei Abeille foi passada sem antecedentes científicos? Se os políticos cedem tão facilmente a lobbies de pressão, porque não foram ainda as operadoras móveis obrigadas a reduzir a emissão das antenas, como pretendem as numerosas associações de electrossensíveis da Europa?

Os media portugueses também não noticiaram que o Comité Económico e Social Europeu (CESE) se pronunciou sobre hipersensibilidade electromagnética em janeiro de 2015. Foi elaborado em 2014 um parecer prévio que reconhecia a hipersensibilidade electromagnética e a sua crescente prevalência e pedia apoio para pessoas afectadas (diagnóstico e prevenção, criação de zonas isentas de radiação (‘zonas brancas’). Propunha também a redução da exposição (proibição de publicidade para menores e restrição de tecnologias sem fio (wi-fi, telemóveis) nos estabelecimentos de ensino).

Infelizmente, foi um contra parecer, apresentado apenas em janeiro de 2015 pelo membro Richard Adams, que foi aprovado por 136 votos a favor, 110 votos contra e 19 abstenções. Este contra parecer foi negacionista e calunioso para com as comunidades de electrosensíveis.

Os media também não abordam que Richard Adams é membro da “UK Charity Sustainability First” que promove a grelha inteligente e os contadores inteligentes. Este Fundo de Caridade é patrocinado pela BEAMA, que por sua vez representa 300 firmas de electrónica, e tem grande influencia internacional.

Quanto a provar cientificamente a electrossensibildiade, é referido que os ‘testes de provocação’ têm falhando em encontrar causalidade. Esta via tem-se revelado claramente inadequada para solucionar a questão.

Mas o Prof. Belpomme, após estudar centenas de electrossensíveis, publicou em 2015 um artigo que descreve os biomarcadores que podem ser usados para definir a Electrohiperssensibilidade e também a Sensibilidade Química Múltipla (Reliable disease biomarkers characterizing and identifying electrohypersensitivity and multiple chemical sensitivity as two etiopathogenic aspects of a unique pathological disorder, Revues Environmental Health 2015; 30(4): 251–271).

Os dados deste estudo sugerem que quer a electrossensibilidade, quer a sensibilidade química múltipla, parecem envolver hyper-histaminemia relacionada com inflamação, stress oxidativo, resposta autoimune, perturbação na circulação sanguínea cerebral e abertura da barreira hemato-encefálica e um défice na melatonina disponível.

A gravidade destas conclusões é que sugerem um risco de doença crónica neuro-degenerativa!

Para finalizar, a comunidade electrosensível organizou-se recentemente, dando inicio ao MOPPE: “MOvimento para a Prevenção da Poluição Electromagnética”.

Os membros do MOPPE convidam o público a ler atentamente:

  1. as três páginas da Resolução 1815/2011 do Conselho da Europa (https://drive.google.com/file/d/0B-eqoKuzX2vaOTVlNTE0N2MtYzY2MS00NjU2LWJkMjAtN2Y1YjJhZTBhNzZm/view ).
  2. As directrizes da Associação Austríaca de Medicina para o diagnóstico e tratamento de problemas de saúde relacionados com os campos electromagnéticos (http://www.weebly.com/uploads/3/4/2/5/3425631/directrizes-medicos-austria-emf.pdf ).
  3. O MANIFESTO EUROPEU DE APOIO à Iniciativa de Cidadania Europeia “Radiação Electromagnética” (http://www.peccem.org/DocumentacionDescarga/Campanas/ICE2013/POR_MANIFIESTO_EUROPEU_DE_APOIO_A_ICE.pdf ).
  4. O Manifesto fundador do MOPPE (https://www.facebook.com/moppe2016/posts/1707783319470425 ).

E para os leitores mais fluentes no inglês, os textos da Agência Europeia do Ambiente:

  1. Lições tardias de alertas precoces: o principio da precaução 1896-2000 (http://www.eea.europa.eu/publications/environmental_issue_report_2001_22)
  2. Riscos para a saúde da radiação de telemóveis – porque os especialistas não se entendem (http://www.eea.europa.eu/highlights/health-risks-from-mobile-phone)

Ou melhor ainda: façam a experiência de germinar sementes em cima de um router com wi-fi e fora deste, como o fizeram estes adolescentes de uma escola dinamarquesa e verificaram que plantas não germinam (http://framtida.no/articles/elevforsok-vekkjer-oppsikt#.U26nOXafjTo).

Paulo Vale (biólogo), em representação do MOPPE

Pode ler o artigo em causa aqui.

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