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Educar pelas emoções

Sociedade

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Luis Coelho

Duas psicólogas portuguesas e uma socióloga espanhola criaram um programa inovador com dois bonecos, que melhora as competências infantis e parentais e previne condutas violentas

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista e Psicóloga

No jardim-de-infância da escola Pedro Álvares Cabral, no concelho de Oeiras, crianças de quatro e cinco anos movimentam-se na sala e falam entusiasticamente umas com as outras, enquanto brincam, na companhia uns dos outros ou, como também é frequente, concentrados em coisas só deles, sob o olhar atento da educadora, pronta a responder aos vários apelos dos miúdos. Além deles, há duas presenças muito especiais na sala: o Nino e a Nina. Não sendo de carne e osso, eles fazem parte deste grupo desde o ano passado, altura em que a educadora Isabel Dias, ou Bé, como lhe chamam os pequenos, os apresentou ao grupo: “Estes dois meninos, que são de outra escola, enviaram uma carta a dizer que vos querem conhecer.” O contacto com estes protagonistas e as suas histórias e formas de comportar-se tem ajudado estas crianças a conhecer e a lidar com as suas emoções. Atestam-no os desenhos pendurados nas paredes da sala, onde os bonecos aparecem tristes, alegres ou zangados e a fazerem coisas como “esperar pela sua vez” ou “partilhar as suas coisas”.

Desde que o programa Nino e Nina, da associação Prevenir, entrou em funcionamento, em 2006, que a socióloga Lorena Crusellas e as psicólogas Marta Costa da Cruz e Margarida Barbosa se desdobram em contactos e ações de formação em escolas portuguesas e espanholas. A avaliação qualitativa realizada em escolas dos concelhos de Cascais, Oeiras e São João da Madeira, com crianças do pré-escolar e ao longo de dois anos, revelou melhorias significativas (entre os grupos experimental e de controlo) em todos as variáveis medidas: autocontrolo, diferenciação emocional, autoestima e competências sociais. A iniciativa envolveu 600 educadores e 15 mil crianças e a equipa quer ir mais longe. “Temos acordos com autarquias, colégios privados e patrocínios de empresas e o nosso objetivo é alargar o projeto a Espanha”, explica Marta Costa da Cruz. De resto, os resultados da experiência replicada recentemente no país vizinho, por Lorena Crusellas, a fundadora da Prevenir em Portugal, vai no mesmo sentido, como a própria confirma: “Os educadores observaram mudanças a curto prazo nas crianças, manifestas em condutas de cooperação e no reconhecimento dos sentimentos próprios e dos outros.”

Luis Coelho

Ver, fazer, sentir

Voltando ao Bairro dos Navegadores, em Oeiras, é chegado o momento para fazer uma pausa e, falando em 'psicologuês', regular emoções. “O Nino e a Nina estão aqui mas nem precisam, porque eles (as crianças) já interiorizaram o que fariam no lugar dos bonecos”, esclarece a educadora Isabel Dias, já depois do exercício de relaxamento. Minutos antes, o grupo, sentado em círculo, respondia ao apelo da Bé. “Como ficam o Nino e a Nina quando não respiram, lembram-se? Ficam com o corpo apertado… Como é que se respira?” Nariz, boca, peito, barriga… os miúdos vão sossegando, alguns soltam alguns bocejos até, com os olhos fechados e atentos ao que se passa no corpo. “Podemos fazer isto quando estivermos zangados”, vai dizendo Isabel. Terminado o exercício, Isabel conta o caso da criança a quem “a Nina a fez perceber que não precisava de morder os outros”. E o de outra, que era agressiva e rejeitada pelos colegas, que mudou da noite para o dia quando, individualmente, eles fizeram o jogo dos óculos mágicos, feitos de cartolina (incluído no guia de competências). “Mal os colocassem, só podiam falar coisas boas da colega; muitos ficaram-se pelos atributos físicos mas só isso bastou para mudar para melhor a relação entre eles”, remata a educadora.

Psicóloga Margarida Barbosa, da Associação Prevenir

Psicóloga Margarida Barbosa, da Associação Prevenir

Luis Coelho

Novos rumos

Nestas sessões semanais, com a duração de hora e meia, os bonecos – muitas vezes feitos com a colaboração das famílias – funcionam como veículo na relação entre os educadores e os miúdos, que se identificam com as vitórias e os problemas do Nino e da Nina – eles também se sentem ofendidos, com raiva, com medo –, tão parecidos com os seus. Não raras vezes, são detetadas situações de crianças em risco que requerem o acompanhamento das mentoras do projeto. A aposta da Prevenir passa também pelo treino da resiliência, que é feito no terreno, com os educadores e a colaboração dos pais, a quem são fornecidas dicas para reforçar comportamentos positivos (caderneta com estrelas) em casa. A psicóloga Margarida Barbosa explica: “Descobrem outras formas de dar a volta a um problema, sem ser isolar-se ou bater noutros, quando se sentem, por exemplo, provocados ou ignorados”. Foi o caso do miúdo que face ao facto de as irmãs não o quererem a brincar no quarto delas, deixou de importar-se com isso e aprendeu a fazer outra coisa que lhe apetecesse, como pintar. Ou o caso da mãe que dizia ficar triste quando os filhos choravam ou estavam doentes e tristes: após o programa, o seu registo era outro: “Procuro alegrar esses dias e sei que está tudo bem quando os vejo sorrir”. No final, são também as famílias que ganham outra consciência, deles e dos filhos, que lhes permite desmantelar velhos hábitos e fazer diferente. Melhor e mais saudável que antes. Sobre a azáfama da equipa da Prevenir, de escola em escola, pelo Continente e Ilhas, Margarida Barbosa comenta: “Este projeto implica esforço, mas os frutos compensam.”

Nino e Nina: meninos como nós: Veja o vídeo (versão original em espanhol)

Isabel Soares criou a coleção de livros Dra Catita, dirigida a educadores

Isabel Soares criou a coleção de livros Dra Catita, dirigida a educadores

Elas são nossas amigas

Seis personagens com o nome de emoções. E formas simples de aprender a viver com elas. A coleção Dra Catita, lançada no ano passado, é uma ferramenta auxiliar para os educadores do ensino pré-escolar e básico e inspirou-se no trabalho da psicóloga educacional Isabel Soares com crianças institucionalizadas: “Os Catitas têm sempre duas faces e é importante compreendê-las e geri-las desde cedo.” E a brincar. A autora exemplifica: "A Alegria sabe bem mas é preciso controlá-la para não ser demais; o Medo que aparece durante as trovoadas e quando estamos no escuro, está na nossa cabeça." Livros que fazem lembrar o filme Divertida(mente), mas para usar na escola com os mais pequenos.