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Desvendado mais um pouco do quebra-cabeças sobre a 'receita mágica' do leite materno

Sociedade

RAUL ARBOLEDA/ Getty Images

A composição do leite materno, com a sua constante mutação e adaptação, continua a intrigar os cientistas, mas um grupo de investigadores de Zurique tem novas pistas

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Só moléculas de açúcar diferentes tem mais de 200, contra as 30 a 50 que se encontram, por exemplo, no leite de vaca, fazendo do leite materno humano o mais complexo de todos os mamíferos, concluiu o mais recente estudo sobre este superalimento, levado a cabo por um grupo de investigadores do Instituto de Fisiologia da Universidade de Zurique, na Suíça.

Os cientistas descobriram ainda que as concentrações de cada um desses açúcares varia ao longo do tempo da amamentação e, embora não tenha sido possível ainda descobrir porquê, os investigadores acreditam que estes açúcares podem ter um papel primordial no desenvolvimento do sistema imunitário dos bebés e ajudá-los ao estabelecimento de uma flora intestinal saudável.

Publicado no Trends in Biochemical Sciences, o estudo conluiu que apesar de constituir, com frequência, a primeira refeição do bebé, o leite materno não serve só para o alimentar: quando nascem, os bebés não têm bactérias no intestino, mas, dentro de uns dias, já têm milhões e ao fim de uma semana milhares de milhões. O professor Thierry Hennet, da Universidade de Zurique, afirma mesmo que o favorecimento da colonização do intestino por grupos bacteriais específicos que podem digerir estas moléculas de açúcar "é o primeiro impacto do leite materno".

Já se sabia que a composição do leite materno varia com o tempo. Um mês depois, quando o bebé começa a desenvolver um sistema imunitário próprio, a composição do leite materno muda e os níveis de anticorpos presentes caem mais de 90 por cento. Na mesma altura, verifica-se uma queda na diversidade dos açúcares, enquanto aumentam outros nutrientes.

Entre as vantagens do aleitamento materno exclusivo até aos seis meses de idade apontadas pela Organização Mundial de Saúde conta-se a redução da mortalidade infantil e do risco de infeções gastrointestinais e respiratórias. A incidência de otites, infeções urinárias também se reduz com este "cocktail", a par da menor probabilidade, a longo prazo, de alergias e diabetes.

E os benefícios não se ficam por aqui: para a mulher, diminui o risco de cancro da mama e do ovário, de diabetes e de depressão pós-parto.

"O leite materno é um produto natural de milhões de ano de evolução que possuiu certamente os nutrientes ótimos para um recém-nascido e as suas etapas seguintes", considera Lubor Borsig, um dos investigadores.

Então, amamentação "obrigatória"? E até quando? "São as famílias que devem tomar a decisão em cada caso, não os cientistas", conclui.