Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

"No final do século XV, qualquer aventureiro quereria ir para Lisboa, por ser a cidade onde tudo estava a acontecer"

Sociedade

Durante quatro anos o britânico Roger Crowley, 64 anos, investigou os Descobrimentos portugueses. Uma entrevista imperdível com o historiador

Emília Caetano

Emília Caetano

Entrevista publicada na VISÃO 1205 de 7 de abril

Filho de um oficial da Marinha, cedo começou a interessar-se por impérios marítimos. Um interesse que transportou quer para o seu trabalho como editor quer como autor. "Historiador independente", como se define, tem participado em programas de televisão e publicou vários livros que o colocaram diversas vezes lugares mais altos dos tops de vendas. Neste sábado, 9, em Óbidos, vai conversar com leitores sobre a versão portuguesa do seu livro mais recente: Os Conquistadores, Como os Portugueses Construíram o Primeiro Império Global (Presença). Na próxima terça-feira, 12, o lançamento, com apresentação de Guilherme d'Oliveira Martins vai acontecer no inspirador cenário do Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa.

Tem escrito sobre impérios marítimos. O que individualizava o português?

A grande diferença era não ser propriamente um império de terras.

Os espanhóis iam conquistando território, que povoavam. É certo que os portugueses fizeram isso, depois, no Brasil, mas cedo perceberam que eram muito poucos para controlarem território. Assim, criaram uma nova espécie de império, mais flexível, que assentava sobretudo em navios e no controlo de portos e de fortes.

Porque chama aos Descobrimentos portugueses o "primeiro império global"?

Vasco da Gama conseguiu ligar o Atlântico ao Índico. E os portugueses foram construindo um império que se estendia da Europa à China, ao Japão, ao Brasil... Passou a poder fazer-se comércio entre todas essas paragens. Foi mesmo o início de um mundo global.

Que atualidade ainda pode ter este tema?

Hoje estamos obcecados com a globalização. Ora, foi precisamente na altura dos Descobrimentos que pessoas das várias partes do mundo puderam ver-se umas às outras e passar a trocar mercadorias entre si. A viagem de Vasco da Gama foi o início desse processo.

Como vê o Portugal dessa altura?

Era extremamente pobre. Em contrapartida, tinha fronteiras bem claras o que, creio, representava um caso único na Europa. E era um país muito aberto ao mar, dada a sua posição geográfica.

Apesar disso, não tinha acesso à riqueza que circulava na região do Mediterrâneo.

Precisava de a procurar noutras paragens, se quisesse ganhar alguma relevância.

Que fontes usou para as suas descrições tão detalhadas?

Li livros em inglês há-os muito bons de História moderna sobre esse período.

Mas no fim tive de ler os relatos feitos pelos próprios portugueses da época: Fernão Lopes de Castanheda, Zurara, as cartas de Afonso de Albuquerque... Foi um trabalho duro, embora muito desse material estivesse traduzido para inglês há 100 anos. Li o diário da primeira viagem de Vasco da Gama, as descrições de Duarte Pacheco Pereira, Tomé Pires, Duarte Barbosa. Adorei a obra de Gaspar Correia, muito viva. Aprendi português de propósito para isso. O resultado é um livro com um olhar diferente, exterior, já que sou estrangeiro.

De todos os personagens dessa altura algum o interessou particularmente?

Afonso de Albuquerque, um homem extraordinário. Acreditava que podia fazer tudo, até pilotar ele mesmo o navio. Tinha uma grande opinião sobre si próprio. Era incrivelmente inteligente e corria riscos enormes, com relativamente poucos homens, como aconteceu em Goa ou Malaca. Também era bom a assustar pessoas, embaixadores ou outros, com a sua longa barba preta e o seu temperamento mas sempre com preocupações de justiça. E tinha uma visão estratégica. Queria desalojar o Islão do Índico, mas depressa viu que não conseguiria. E quando percebeu que Goa era ideal para capital do estado da Índia, capturou-a, mesmo sem permissão do rei. Acho que adorava a Índia e nem sequer quando D. Manuel o mandou regressar, ele quis fazê-lo. Morreu em Goa.

Diz que D. João II foi talvez o rei europeu mais notável do início da Idade Moderna. Porquê?

Era, de facto, notável. Tinha um plano muito claro para chegar à Índia. Enviou Diogo Cão e Bartolomeu Dias em expedições bem organizadas. E era muito hábil a trazer tecnologia para Portugal, como artilharia para navios. Convidou geógrafos e astrónomos judeus, como Abraão Zacuto, e criou um grupo seleto para organizar a ida à Índia. No final do século XV, Portugal era o local onde estavam a desenvolver-se as novas ideias, onde se faziam novos mapas com o que se ia sabendo do mundo. Não foi por acaso que Colombo gastou tanto tempo a tentar convencer D. João II de que o caminho para a Índia era por oeste.

O alemão Martin Behaim fez o protótipo de um globo terrestre com informação que recolhera em Portugal. Lisboa era uma cidade interessantíssima, onde se descarregavam especiarias, animais exóticos, onde chegavam muitos escravos negros... No final do século XV qualquer aventureiro quereria ir para Lisboa, por ser a cidade onde tudo estava a acontecer.

Falou nos escravos. E diz no livro que 15% da população da Lisboa de então eram negros vindos da Guiné. Para onde iam?

Creio que eram revendidos por Portugal na região do Mediterrâneo; em Génova, por exemplo, que tinha muitos escravos.

Outros ficavam em Lisboa. Não há muitas imagens dessa altura, devido ao terramoto que as destruiria. Mas as poucas que há mostram escravos a ir buscar água à fonte ou a carregar mercadorias. Ter um negro em casa era uma questão de estatuto social.

A primeira vez que se avistou a Índia, diz, foi "um dos momentos mais significativos da História mundial".

Porquê? Por duas razões. Uma foi a viagem de Gama ter comprovado a ideia de Bartolomeu Dias de que África era um continente com uma extremidade que se podia contornar. Depois, a chegada à Índia ligou o Atlântico e o Índico. Não foi propriamente um descobrimento no sentido em que não se soubesse que aquela parte do mundo existia. Mas o feito dele foi acabar com o isolamento da Europa, que estava cortada do Oriente.

Foi o momento em que o mundo ficou finalmente ligado.

Como vê o papel da Igreja e do Papa naquele período?

Era muito importante. O Papa tinha poder para decidir a quem pertencia o mundo fora da Europa.

Refere-se ao Tratado de Tordesilhas?

Sim, e já antes houvera outro tratado.

O Papa traçou uma linha ao longo do Atlântico e disse "Vocês podem ficar com isto, vocês com aquilo". Mas os portugueses, como os espanhóis, tinham muito a ideia de conversão, da guerra de Cruzados contra o Islão. A Europa devia sentir claustrofobia, porque o Mediterrâneo estava fechado num dos extremos pelo Islão. Então, para D. Manuel a ideia de cruzada era muito forte. Quer ele, quer D. João II, mandaram ao Papa embaixadas para mostrarem como estavam a cristianizar o mundo. O exemplo mais famoso foi a ida de Tristão da Cunha, em 1514, ao Papa Leão X com um elefante. Deus e o ouro eram as duas grandes ideias orientadoras das expedições.

Os conflitos religiosos mudaram assim tanto?

Do ponto de vista europeu, sim, sem dúvida. O Renascimento e a evolução da Ciência mudaram a visão da Europa sobre religião. O aspeto agressivo das conversões no tempo das expedições portuguesas e espanholas acabou.

A ideia de "guerra santa" desapareceu do cristianismo. Do ponto de vista islâmico, é outra história... Mas creio que o islamismo radical está a combater não contra esse espírito de cruzada do cristianismo, mas contra o materialismo europeu. Os portugueses iniciaram um processo que permitiu ao Ocidente dominar o mundo durante 500 anos.

Penso que a atitude do Islão radical é um protesto contra uma Europa secular e não contra a Europa religiosa.

O próprio Daesh diz que quer combater os cruzados.

A Europa teve uma evolução tecnológica.

Inicialmente, o Islão também tivera, mas depois ficou para trás. De certa forma, creio que é um protesto por terem ficado esquecidos do resto mundo.

Curiosamente, na altura de Gama não havia uma jihad islâmica no Índico. Os muçulmanos estavam só empenhados no comércio. Muitos hindus tornavamse muçulmanos, mas porque isso era melhor do que pertencerem a uma casta inferior no hinduísmo. Já os portugueses nunca entrariam na Índia sem combater.

Uns 50 anos antes de Gama, chegara a Cochim um grupo de chineses, que foi massacrado pelos muçulmanos. Para meterem um pé nesse comércio os portugueses teriam sempre de lutar. Mas basta ver o que os holandeses fizeram nas Ilhas das Especiarias, para os portugueses não ficarem tão mal no retrato.

O fim último dessas viagens era reconquistar Jerusalém, o que nunca aconteceu.

A recuperação de Jerusalém era um projeto de D. Manuel que ele só deu a conhecer a um pequeno número de pessoas. Tratava-se, aliás, de um plano muito ambicioso: ganhar o controlo do Índico e recuperar Jerusalém. Não podemos acusar os portugueses de não terem pensado em grande. Foi uma desilusão constatar que Preste João era um rei cristão, mas não tinha poder.

Um momento crítico foi quando não conseguiram tomar Áden, a "chave" do Mar Vermelho, por as escadas que levavam serem demasiado curtas... Depois disso creio que a missão mudou e se tornou mais realista. Viram que não havia portugueses suficientes para controlar todo o comércio do Índico. Mesmo assim tinham criado um império fascinante, que demorava ano e meio a percorrer. Só mantê-lo em funcionamento já era um feito extraordinário.

O que correu mal para que Portugal perdesse a posição que ocupava na Europa?

Ao longo de 100 anos foi o local mais fascinante da Europa. Mas nalguns aspetos, em termos de estruturas, manteve-se medieval. Havia a nobreza, mas nunca se desenvolveu uma classe de comerciantes que beneficiasse de toda a riqueza que vinha para Lisboa, embora chegassem à cidade pessoas da toda a Europa Itália, Holanda, Bélgica... a tentarem prosperar. A riqueza acabou por partir mais para norte. A morte de D. Sebastião, em 1578, e a ocupação espanhola foram muito prejudiciais, claro. Mas, no fundamental, penso que aquilo que aconteceu a Portugal e, de certa forma, também a Espanha, que tinha o ouro da América, é que no século XVI a energia se moveu para norte, para a Holanda e, depois, para Inglaterra.

Talvez tenha também algo a ver com as diferenças entre protestantismo e catolicismo.

Em que sentido?

Não digo que uma religião fosse melhor do que a outra, mas ler a Bíblia na própria língua apressava a literacia.

Talvez por isso se tenha desenvolvido uma classe de mercadores alfabetizados, que se situava entre os agricultores e a nobreza. Essa classe média dinâmica, como diríamos hoje, é que deu a energia aos impérios. Faltou isso a Portugal e também a Espanha. Mas os portugueses deram um contributo para a História mundial que tem sido, muitas vezes, esquecido. E não me refiro só à chegada à Índia, mas a todo o comércio de longa distância. Pela primeira vez podiam circular, da Ásia ao Brasil, alimentos, ideias, tecnologias. Creio que um dado importante para o esquecimento em que caiu esse contributo foi a ida de muitos italianos para os Estados Unidos.

Passou a valorizar-se muito a viagem de Colombo, em 1492. Começou a falar-se numa era Colombo da História. Mas creio que devia antes falar-se na era Vasco da Gama. E os portugueses devem orgulhar-se disso.