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'Tenho mais medo de andar na auto-estrada do que no trilho dos leões'

Sociedade

No ano em que se completa uma década desde o início da restauração da fauna no mítico Parque da Gorongosa, no coração de Moçambique, pela iniciativa do milionário americano Greg Carr, inventor do voice mail, a VISÃO entrevista Paola Bouley, a investigadora responsável pelo mais emblemático animal do parque: o leão

Nos anos 60, o parque de 8.200 quilómetros quadrados foi classificado como um dos locais de maior biodiversidade do planeta. A vida selvagem (incluindo muitos animais endémicos), proliferava e o acampamento do Chitengo era lugar de culto para safaris e férias coloniais. Depois da independência, contagens indicavam a existência de 6 mil elefantes e 500 leões (a maior concentração destes grandes felinos por toda a África). A guerra, a violência, dentro e nos arredores no parque, os bombardeamentos aéreos destruíram tudo: sob o controle da Renamo, os beligerantes dizimaram elefantes para lhes retirar o marfim e financiar armamento, soldados famintos aniquilaram a fauna em 90 por cento. Os leões praticamente desapareceram.

Dez milhões de dólares da Carr Foudation, e um esforço conjunto do governo de Moçambique, abriram novo capítulo no parque, confinado a mais de quatro mil quilómetros quadrados, a partir do início do século XXI, sempre numa perspetiva de desenvolvimento socioeconómico da população local e de ecoturismo sustentável.

Regressaram os animais, e os turistas também: mil em 2006 e cerca de 2.300 em 2015 (entre 2013 e 2014, o parque voltou a sofrer os reveses da vaga de violência e o número de visitantes internacionais caiu drasticamente)

A investigadora sul-africana Paola Bouley, formada na Universidade estadual de São Francisco e na Universidade da Califórnia em Santa Cruz, lidera a equipa que protege e estuda os emblemáticos leões da savana.

Os leões da Gorongosa já foram símbolo da região, hoje estão em vias de extinção. O que tem feito no terreno e nas suas funções de investigadora para que eles possam regressar?

Há alguns meses o Leão Africano foi adicionado à lista de espécies em perigo e sabemos que as populações por toda a África caíram de 450.000 para 32.000, nos últimos 100 anos. Esta queda, registada ao longo de todo o território africano, foi muito rápida e, cada vez mais, observamos a destruição de habitats e o crescimento da população humana. Temos de resistir em todos os sítios onde o possamos fazer e o Projeto de Reconstrução da Gorongosa é uma oportunidade crucial para recuperar e assegurar a vida dos leões na Gorongosa.

Disse numa entrevista que a próxima década será crucial para o futuro dos leões. Porquê?

O nosso programa é ao mesmo tempo de conservação e investigação. O trabalho inicial era basicamente o de tentar saber quantos leões existiam no parque, onde estão, e quais as alterações de ano para ano. A investigação é essencial porque não podemos conservar aquilo que não sabemos que existe. Cada leão é identificado e seguido ao longo do tempo. Uma coleira de GPS é colocada num leão de cada grupo para sabermos sempre onde é que eles estão, a todas as horas do dia. Agora, que estamos tão conectados com a população de leões do parque, somos também capazes de responder rapidamente a qualquer emergência, armadilhas ou caçadores-furtivos. A nossa unidade veterinária dá resposta rápida e a guarda do parque desarmadilha as áreas mais importantes do habitat leonino. Foram já destruídas centenas de armadilhas em zonas onde habitavam leões e crias. Estamos a fazer a diferença, a salvar vidas. Com uma maior colaboração com os guardas e equipas de comunicação do parque, continuaremos a procurar fazer da Gorongosa um porto seguro para os leões.

O que tem a Gorongosa de especial, em particular para os felinos?

Uma população viável de leões requer áreas de grande dimensão para as sustentar. Este é o local ideal para se restabelecer uma população viável. Tendo em conta que o Projeto de Restauração da Gorongosa dedicou 25 anos à reconstrução e proteção destas populações, temos a oportunidade de garantir resultados no futuro e manter programas de conservação a longo-prazo, e que vão, esperemos, durar mais tempo do que nós. Os programas de conservação não funcionam em cinco ou dez anos; eles requerem um foco continuado. Somos felizardos por termos aqui todas as fundações para construir, na prática, algo significativo e a longo-prazo.

A sua atividade envolve alguns riscos? Como é o seu dia a dia no mato?

Sinto-me em casa no mato e geralmente não em sinto ameaçada. A maior preocupação são os mosquitos (por causa da Malária). Claro que no dia-a-dia andamos por terrenos bastante difíceis e encontramos leões e elefantes, o que envolve sempre um certo grau de perigo. Mas procuramos seguir boas práticas de segurança. Sinto-me mais segura aqui do que quando circulo nas autoestradas. Trabalhamos arduamente e os horários são imprevisíveis. É preciso não esquecer que lidamos com animais selvagens e há sempre novas situações a surgir diariamente, às quais temos de responder com a maior brevidade... Ser altamente flexível e disponível para responder a todas as situações é absolutamente necessário. Adoro o meu trabalho e sinto-me extremamente privilegiada por trabalhar com estes animais e na Gorongosa, mas o meu trabalho acarreta também uma enorme responsabilidade. É muito mais do que um 'trabalho'... É tudo para mim e não me consigo imaginar a fazer outra coisa para o resto da minha vida.

O que sente, enquanto cientista e pessoalmente, quando se assiste a casos mediáticos de pessoas que exibem e se orgulham de terem abatido um leão?

Pessoalmente, fico chocada com a caça de troféus, especialmente animais como leões e elefantes que estão cada vez mais ameaçados. Mas torna-se complicado, enquanto cientista e conservacionista... É preciso ter em conta que há vastas áreas de terreno protegidas com a finalidade de servirem para concessões de caça. Se abolirmos a caça de troféus o que é que acontece depois? Quem vai financiar esse território, protegê-lo, preparar guardas?

Honestamente, temo que essas áreas possam, provavelmente, ser perdidas para desenvolvimento urbanístico. É um grande desafio que enfrentamos neste momento. Espero viver para ver o dia em que seremos capazes de acabar com a caça de troféus e sustentar as vastas áreas de habitat, garantido a sua proteção. O que nós realmente precisamos neste mundo é de pessoas com coração e cabeça, como o Greg Carr, para que possamos dar o passo em frente e apoiar estas áreas e fazer aquilo que está a ser feito na Gorongosa: criar uma economia forte em redor da conservação da vida selvagem e ecoturismo.