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Emigrantes portugueses vêm à boleia passar o Natal e a passagem de ano

Sociedade

As viagens partilhadas desde Paris e Madrid para diversos pontos do País são cada vez mais procuradas. Na plataforma online BlaBlaCar, os utilizadores começam como passageiros e rapidamente passam a condutores

D.R.

Telmo Casimiro mudou-se para Paris há três anos e meio, atrás de uma oportunidade. Barman de profissão, só costuma vir a Ourém no verão porque são 17 horas de viagem, mais 300 euros de gastos com combustível e portagens, para cada lado. Inscreveu-se, por isso, como passageiro na plataforma de viagens partilhadas BlaBlaCar, para ir de Ourém a Paris. Mas, agora, resolveu passar para o lado dos condutores.

Como está desempregado, pensou encher o seu Alfa Romeo 159 e, assim, vir passar o Natal com a família a custo zero. Além de dois amigos (que vinham para Fátima e Leiria), já trouxe Ibrahim, um jovem muçulmano da Guiné Equatorial a estudar na Universidade de Reims, que ficou em Cantanhede para passar a quadra com a namorada.

Os quatro partiram da Porte d'Italie às 8 da noite de sexta-feira, 18, e chegaram a Portugal para o almoço de sábado. "Foi a maneira que arranjei de vir passar o Natal a casa", conta Telmo. O regresso, marcado para domingo, 27, já está anunciado na BlaBlaCar, mas, mesmo que Telmo não tenha companhia, terá de voltar pois arranjou trabalho para o Réveillon.

Os franceses Frédéric Mazzella, Francis Nappez e Nicolas Brusson fundaram, em 2009, a plataforma online de viagens partilhadas BlaBlaCar

Os franceses Frédéric Mazzella, Francis Nappez e Nicolas Brusson fundaram, em 2009, a plataforma online de viagens partilhadas BlaBlaCar

Como tudo começou

Foi também no Natal que Frédéric Mazzella, um dos três fundadores da BlaBlaCar, teve a ideia de formar esta rede de boleias de carro partilhadas. Em 2008, ainda estudante, não conseguiu comprar bilhete de comboio ou de autocarro para ir ao encontro dos familiares. Precisava de boleia para os 450 quilómetros que separam Paris de Fontenay-le-Comte. A única solução encontrada foi a sua irmã desviar-se de Rouen, na Normandia, e ir buscá-lo à capital.

Durante a viagem, Frédéric reparou na quantidade de lugares vazios nos carros com que se cruzavam e pensou que, se cada um alugasse esses lugares, resolveriam o problema de muitas pessoas. Juntaram-se à iniciativa Francis Nappez e Nicolas Brusson, e, no ano seguinte, nascia a plataforma de partilha de viagens.

Atualmente, com 20 milhões de utilizadores e presente em 20 países, a BlaBlaCar está avaliada em mais de mil milhões de dólares, depois de recentemente ter recebido um financiamento de capital de risco no valor de 200 milhões de dólares.

Por cá, só neste mês de dezembro houve um aumento de 40% de viagens de Espanha para Lisboa e três vezes mais de França para Lisboa, face ao mesmo período do ano passado. Entre 18 e 27 de dezembro, foram publicados 25 mil lugares em Portugal.

Passageiro ou condutor?

Na BlaBlaCar (blablacar.pt), as pessoas inscrevem-se como condutores, passageiros ou ambos. A busca faz-se pelas localidades da partida e da chegada. Para percursos superiores a 75 quilómetros, a reserva é feita através do site, com pagamento por cartão de crédito, MBNet ou PayPal. Nas viagens mais pequenas, o contacto é direto entre o condutor e o passageiro.

O preço é definido pelo dono do carro, dentro de um intervalo estabelecido pela BlaBlaCar que fica com uma comissão de cerca de 11 por cento. "Não queremos que os condutores tenham lucro, apenas que partilhem custos", explica Adriana Braz, responsável pela comunicação da plataforma em Portugal.

A viagem mais comum feita pelos portugueses é entre Lisboa e o Porto, com um custo médio de 15 euros por pessoa. Já Paris-Lisboa oscila entre 75 e 110 euros e Madrid-Lisboa fica-se nos 25 euros.

Uma vez por mês, Diogo Cabral faz viagem entre Madrid e Lisboa, sempre acompanhado de novos passageiros

Uma vez por mês, Diogo Cabral faz viagem entre Madrid e Lisboa, sempre acompanhado de novos passageiros

Planear sem antecedência

Diogo Cabral mora em Madrid desde 2009, ano em que foi trabalhar como financeiro numa empresa de energias renováveis. Vem uma vez por mês a Lisboa, visitar a família. Na capital espanhola, começou por ser passageiro da BlaBlaCar e pagava cerca de 30 euros por trajeto.

De início, tentou vir de autocarro, mas são oito horas maçadoras com muitas paragens, tal como o comboio que faz a viagem de noite, parando em todos os apeadeiros e deixando os passageiros com uma noite mal dormida. "Como não consigo planear as minhas viagens com muita antecedência, nunca dá para comprar bilhetes de avião a preços low cost”, explica.

Depois de ter comprado carro, Diogo inscreveu-se há um ano como condutor e hoje tem uma classificação de 4,8 no máximo de 5 atribuída pelos outros utilizadores da plataforma. Prefere conduzir para ter maior mobilidade em Lisboa.

Como não sabe à partida quantas pessoas vai transportar, Diogo, por vezes, põe o preço mais elevado, de modo a compensar se ficar algum lugar vazio. Terminada a viagem, demora cerca de três dias úteis para receber o seu dinheiro por transferência bancária.

Na semana passada, partiu de Chamartín para fazer seis horas ao volante até Entrecampos, acompanhado por um casal venezuelano que veio visitar um amigo em Lisboa. Ainda não publicou o seu regresso agendado para os primeiros dias de janeiro, mas em breve estará à procura de companheiros de viagem para Madrid.

Luís Ferreira está habituado a dar boleia entre Madrid-Aveiro e Madrid-Oviedo

Luís Ferreira está habituado a dar boleia entre Madrid-Aveiro e Madrid-Oviedo

Os primeiros dois minutos são estranhos

Entrar num carro com desconhecidos foi algo com que Luís Ferreira não se sentiu muito confortável na primeira vez que pediu boleia na BlaBlaCar. Juntou-se a um casal de portugueses e a uma alemã para fazer a viagem entre Madrid e Aveiro. "Os primeiros dois minutos são estranhos", diz, "mas depois passa."

Em Espanha desde 2013, este técnico de exportação vem todos os meses a Aveiro, e também costuma fazer o percurso Madrid-Oviedo, para visitar a namorada.

Antes de experimentar a BlaBlaCar, Luís apanhava o avião para o Porto e gastava entre 120 e 150 euros, mais duas horas de comboio ou 20 euros de táxi. Na plataforma online, prefere ser condutor para não depender dos horários dos outros.

Já fez mais de 40 viagens e, além de europeus, deu boleia a pessoas do Bangladesh, Índia, Argentina e Austrália, sem nunca ter tido más experiências. A maior parte dos passageiros fica na estação de comboios de Aveiro e, depois, ruma ao Porto.

Luís lembra-se do francês que veio desde Salamanca a contar-lhe as aventuras de um mês e meio passado na Gronelândia, dos argentinos que perderam o avião por terem ido para os copos na véspera do voo e da sueca que deu a volta à Europa de mochila às costas.

No domingo, 20, no seu Ford Focus deu boleia a um casal, ela portuguesa e ele espanhol, que ficou em Aveiro, e a uma rapariga de Estarreja. Saíram da Avenida de América, uma das estações de metro mais movimentadas da capital espanhola, só descansando na fronteira de Vilar Formoso. "Se trouxer três passageiros, a minha viagem fica de borla", garante. Mas, para Luís, a grande vantagem é conhecer pessoas diferentes e vir a conversar, o que torna a viagem muito menos monótona.

BlaBlaCar em números

20 milhões de utilizadores

presente em 20 países

350 colaboradores em 13 escritórios no mundo

redução de cerca de 700 mil toneladas de dióxido de carbono

2,8 pessoas: ocupação média do automóvel

49,2%: utilizadores com mais de 30 anos

32,6 anos: idade média dos utilizadores em Portugal

274 kms: distância média das viagens em Portugal publicadas na plataforma