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O homem que trouxe o afeto à prática clínica

Sociedade

António Coimbra de Matos foi homenageado no passado fim de semana, em Lisboa. A Visão explica porquê e reproduz a entrevista realizada, poucos anos antes, com o pai da psicanálise em Portugal

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista

No passado sábado foram muitos ex-alunos, pacientes, colegas, familiares e amigos que encheram o auditório da Fundação Calouste Gulbenkian para homenagear António Coimbra de Matos, uma figura incontornável da Saúde Mental Infantil e da psicoterapia analítica em Portugal e a quem já chamaram um rebelde com causas.

"Ele é um dos primeiros psicanalistas vivos a lançar uma ponte para a prática clínica moderna e se os seus trabalhos tivessem sido escritos em ingês, o seu lugar na História seria o de alguém mundialmente conhecido". A afirmação é de João Pedro Dias, um dos membros do Fórum Internacional para a Educação em Psicanálise, que premiou, há três anos, o médico como Distinto Educador.

A marca distintiva e inovadora do trabalho do médico assenta "na capacidade e humildade do analista para se transformar a ele próprio ao longo da relação com o paciente". Como? João Pedro Dias esclarece: "Ao condiderar que a observação altera tanto o observador como o observado, o paciente muda, mas não muda sozinho." E isso faz toda a diferença.

"Digo Verdades Inconvenientes"

De manhã cedo, aguarda-nos no seu consultório lisboeta uma sala espaçosa, com vista para o Tejo, estante e secretária, com livros e documentos vários. Além da poltrona e do clássico divã, destacamse ali quadros e esculturas. Algumas das peças foram-lhe oferecidas por analisandos seus. Para lá das consultas, "de manhã à noite", Coimbra de Matos dedica-se à direção da AP - Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica (www.apppp.pt). Continua a leccionar e a escrever livros, faz supervisões, participa em congressos. Ateu convicto, cultiva um ritmo de trabalho invejável e preserva a atitude destemida da sua infância e adolescência. Nascido na Lixa, em Felgueiras, a Psiquiatria foi-lhe um ponto de partida para um voo maior: a Psicanálise, de que é hoje uma referência incontornável.

Desde o 25 de Abril de 1974, o seu nome esteve ligado à fundação e direcção de serviços nos meios clínico e académico, entre os quais o Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, o Centro de Saúde Mental Infantil e Juvenil de Lisboa e as Sociedades de Psicanálise e de Psicossomática. Casado com uma médica, tem três filhos e quatro netos. Aos 85 anos não se rende às pantufas. O seu lema: "A vida é luta."

Foi dos primeiros médicos a fazer análise em Portugal. Quando descobriu a sua vocação?

Não foi uma descoberta imediata. Os amigos achavam que eu devia seguir Engenharia, por ser bom em Matemática e Física [acende um cigarro, o seu «companheiro de conversas»]. Optei pela Medicina, talvez por influência familiar [havia médicos da parte da mãe e do pai]. Ainda passei pela Cirurgia Cardíaca, mas foi a Psiquiatria que me entusiasmou.

E desiludiu-o, logo a seguir.

Sim, a Psiquiatria clássica. Quando acabei a especialidade, vim do Porto para o Júlio de Matos, em Lisboa, com a ideia de que ia ser melhor. Mas continuava a ser monótono. Hoje, ainda sou psiquiatra, mas praticamente só faço Psicanálise.

Entre quatro irmãos, era o mais aventureiro e destemido...

Tinha a meu favor ser o mais velho, mas era também o mais responsabilizado. Na aldeia [Galafura, em Trás-os-Montes], era o menos obediente.

O mais avesso à disciplina?

Não me vejo como indisciplinado. Gosto é de questionar as coisas, não acredito no que me dizem à primeira, sem ver ou investigar com os meus olhos.

É ateu, à semelhança de Freud. O assunto gerou polémica, em casa?

Com o meu pai [negociante de vinhos] foi uma questão pacífica. Ele era católico não praticante e só ia à Missa do Galo. Era, aliás, fortemente anticlerical. Não gostava de padres nem de militares. Quando comecei a pensar no curso a tirar, ele dizia: "Tira o que quiseres, mas, se fores para padre, ponho-te fora de casa. E se fores para o Exército, deixo de te subsidiar."

E a sua mãe, como reagiu?

Era muito católica, beata, mesmo. E, embora fosse livre de pensamento, era também um bocado histérica: falava de religião ao mesmo tempo que de sexo e isso aliviava-me um bocado [risos]. Numas férias da Páscoa, tinha eu 14 anos, insistia em que eu fosse à missa. Fiquei tão irritado que disse uns disparates. E fui ao meu quarto, peguei nos dois quadros religiosos que estavam na parede e queimei-os.

Não tinha medo de ser castigado?

Tinha, mas o meu pai era pouco de castigos. A minha mãe [dona de casa] é que era mais: umas palmadas e tal, mas, a partir dos 12 anos, deixou de me fazer isso.

Psicologicamente, o que herdou da família?

O meu pai marcou-me muito, na questão da autonomia. Uma vez, ele estava no Porto, em trabalho, e adoeceu. Chamou-me ao hotel nessa altura, eu andava no Colégio João de Deus e disse-me que eu tinha de ir à Régua receber dinheiro e entregar uma pasta por ele. Isto mostra como o meu pai era: dava-me dinheiro para o trimestre e eu que o gerisse. A minha noção de responsabilidade foi adquirida cedo.

Trocou o Porto pela capital. Sente-se um homem do Norte, ainda assim?

Sim, mas nunca apreciei o Porto. Estou mais ligado ao Douro, à Régua. Um amigo meu da zona de Vila Real, o prof. Eurico de Figueiredo, brincava acerca disso: "Ó Coimbra, o Porto é uma aldeia grande! Vila Real é mais civilizado [gargalhadas]."

O apelo de Lisboa foi grande?

A primeira vez que cá vim, gostei muito.

Frequentei o 2.° ano na Faculdade de Medicina, mas foi o período em que estudei menos, de maneira que regressei ao Porto. Para não me perder.

Era muito estímulo?

Era. Depois, voltei. Conheci, então, a Teresa, também médica, e casámos. Já tinha o meu filho mais velho quando me transferi de vez.

Foi mobilizado para Moçambique, em plena Guerra Colonial. Como define esse período?

Tinha 40 anos, quando fui mobilizado. Ainda pensei em fugir, mas já tinha três filhos e era complicado. Passava a vida a protestar, porque era contra aquilo. A minha mulher dizia que eu tinha dois inimigos lá: os militares e os colonos.

Nunca teve medo de ser morto?

Estava protegido. Falava-se com uma certa liberdade, sabia-se que a guerra estava perdida. Em Nampula [no Norte de Moçambique], no Hospital Militar, não havia propriamente situações de perigo, só umas sabotagens dos miúdos, que metiam açúcar no depósito da gasolina e os jipes gripavam. Mas houve momentos em que as deslocações já não eram seguras.

É um homem de convicções e liderança. Qual é o perfil de um bom líder?

Ser capaz de ouvir os outros, assumir a opinião do grupo e, se necessário, ficar na sombra. E saber delegar funções, porque, se quiser ter tudo na mão, fica sobrecarregado e perde a confiança da equipa.

Nunca ambicionou ter um cargo político?

Sou republicano e de esquerda. Mas nunca militei em partidos nem tive intervenção a esse nível, até por falta de paciência [risos]. Nisso, sou um bocado rebelde. Ainda cheguei a ser convidado para dirigir os serviços da Droga, quando Menéres Pimentel era ministro da Justiça. Mas não tomei posse na data marcada, porque ele me fez esperar quatro horas. Aprecio a liberdade e não tolero trabalhar com uma pessoa com quem não posso contar. Disse-lhe isto, o que o deixou furioso.

Que imagem acha que tem, no seu meio profissional?

De um modo geral, vêem-me como um optimista e gostam de trabalhar comigo, embora também tenha inimigos.

Colecciona alguns, até...

Todos nós temos. E não fujo ao confronto. Com frequência, digo verdades inconvenientes. Na Psicanálise, há a tendência para se ficar prisioneiro de modelos e um certo espírito conservador.

Fala-se mesmo do elitismo, da perda de terreno para outras terapias.

A Psicanálise mais clássica não soube adaptar-se. Agora, há uma outra parte mais aberta e comunicante com diferentes ciências.

A regra de três ou quatro horas semanais de terapia ainda faz sentido?

Os psicanalistas ortodoxos mantêm esta exigência. No essencial, depende do paciente e do grau de produtividade das sessões. Tive um analisando a quem fiz sempre cinco sessões por semana. E foi uma análise longa. Já noutro caso, bastou uma vez por semana.

Qual é o segredo do divã? Há quem não goste deste método.

Na modalidade do divã, perdemos a informação não verbal [olhar, gestos], e isso é uma desvantagem. Por outro lado, o facto de se estar no divã sem ver a cara de cada um, potencia mais a fantasia e a liberdade de pensar, o que é uma vantagem.

Há maus terapeutas?

De vez em quando, há um deslize por parte do terapeuta. Há uma relação de grande proximidade, é mais fácil acontecerem abusos. Um estudo americano revela que os psiquiatras e os dentistas são os terapeutas que mais abusam dos pacientes.

A questão da orientação sexual é bem aceite na comunidade de analistas?

Oficialmente não é discriminada mas, na prática, há ainda quem o faça.

O que pensa sobre a adopção de crianças por casais homossexuais?

Há estudos que referem que as crianças educadas por homossexuais têm um desenvolvimento idêntico ao das outras. As fantasias inconscientes dos pais [hetero ou homossexuais] é que podem ser transmitidas, de algum modo, à criança.

Como o facto de os pais quererem uma menina ou um menino, por exemplo [durante a gravidez]?

Não chega a ser uma ideia consciente. Lembro-me da mãe de um transexual, filho único, que acompanhei no Santa Maria. Ela contou-me que, desde que o filho nascera, tinha um pesadelo frequente, em que via o rapaz como uma menina. Havia um desejo inconsciente de que ele fosse rapariga, que era contrariado constantemente. Fenómenos como este ocorrem noutros contextos: a mãe querer que o filho seja pianista, acabando por induzir nele, até sem querer, este desejo, reconhecido pela criança.

Que retrato psicológico faz do País?

A figura materna tem uma importância muito grande. Na minha aldeia, os homens tratavam a mulher por patroa. E subsiste um traço depressivo, associado a ficar longe da Pátria, da Mãe, porque nunca fomos de nos fixar ao território, o solo era pobre. Evoluiu-se muito após a revolução de 1974, mas a nossa cultura ainda é muito contida e com algum atraso na expressão de ideias.

Na obra biográfica Percursos (Climepsi Editores, 2007), destaco uma citação sua: "O homem livre é aquele que aprende a estar só, a ser capaz de metabolizar perdas." Porque continua a dizer-se que, em Portugal, prevalece uma mentalidade dependente, pouco adulta?

Porque não se elaboram essas perdas. Se se comparar os jovens dos EUA e os de Portugal, os primeiros saem muito cedo de casa e os de cá saem tarde.

Não foi assim, no seu caso. Valoriza muito as suas raízes, a terra e os vinhos. Como explica isso?

Sinto-me ligado ao meu pai, nesse campo, mas o meu irmão mais novo é que se dedica aos vinhos. Em termos identitários tenho, de facto, uma paixão pelo Douro, pelo ambiente agreste que marcou a minha forma de ser. Costumávamos brincar a esse respeito, dizendo que ali eram nove meses de Inverno e três de inferno [risos]. O terreno inclinado, os trabalhos pesados tudo isso obriga a uma certa rudeza e confere força às pessoas.

Tem a fama de ser um trabalhador incansável. Sem contar com a investigação e a escrita, qual é a sua carga horária?

Dou bastantes consultas por dia. Começo às oito e acabo às 21 horas. Mas há um dia na semana em que termino depois das 22 horas.

Como compensa tantas horas de trabalho?

Tenho um mês e meio de férias. Paro uma semana, na Páscoa, e outra, no Natal, e, no resto do ano, faço muitos intervalos. Os congressos no estrangeiro também são uma forma de desintoxicar e descansar, bem como as supervisões.

Os problemas mentais, hoje, são diferentes dos que se diagnosticavam antigamente?

Quando comecei, tratava-se mais as neuroses. Agora, são as depressões e psicoses. Antes, predominava a patologia da culpa; hoje, são punidos aqueles que não têm sucesso. Passou-se da sociedade da culpa para a do êxito, que promove o traço depressivo. Veja-se os suicídios na France Télécom.

Refere-se ao sentimento de desespero [título de um livro de Coimbra de Matos]?

Sim. Há menos intimidade e profundidade, as pessoas quase não se conhecem.E sentem-se inseguras quanto ao futuro, com o desemprego e a crise económica.

Como vê os serviços de saúde mental que temos?

Já estiveram pior. Travei muitas lutas com os poderes instituídos por causa das más condições de trabalho, da pressão para fazer mais consultas. O problema de base continua o mesmo: o tratamento não é barato, os doentes não reivindicam, não sabem fazê-lo. Por outro lado, quem está em cargos de decisão tem difi culdade em perceber que, para resultados efi cazes, uma pessoa precisa de, por exemplo, quatro anos de Psicoterapia, três vezes por semana.

Já disse que os cem anos são a sua meta [a mãe morreu com 101 anos]. O que gostaria de concretizar até lá?

Quero ver a nova associação, a AP, a andar pelo seu próprio pé. É um prazer muito grande ver as pessoas que trabalharam comigo a irem além do trabalho que fiz.