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Treinar o cérebro para travar a doença de Alzheimer

Sociedade

Marcos Borga

Exercícios de computador, criados por uma equipa de portugueses, permitem melhorar a memória e a atenção afetadas por demência ou AVC

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

Todos temos de estar preparados para ir perdendo a memória, à medida que envelhecemos. Os primeiros sinais começam por volta dos 50 anos, mas tornam-se mais acentuados a partir dos 65. Um processo normal e inevitável. Mas há perdas cognitivas patológicas, causadas pela doença de Alzheimer, Parkinson, esclerose múltipla ou acidente vascular cerebral, por exemplo. E estas podem ser travadas, com treino mental, como quem se prepara para uma maratona.

Há várias formas de o fazer. O neurologista Vítor Tedim Cruz, do Centro Hospitalar Entre o Douro e Vouga, criou um programa de exercícios de treino cognitivo, online, que pode ser adaptado a cada doente (rede COGWEB). Funciona como uma espécie de jogo de computador, desenhado para treinar a memória, a linguagem e a atenção. “O terapeuta adequa os exercícios ao déficit”, explica o médico, reforçando que o programa tem de ser seguido e monitorizado por um membro da rede, normalmente um psicólogo. O sistema - que acabou de vencer um prémio atribuído pela Federação Europeia da Indústria Farmacêutica - está em funcionamento em centros de saúde e hospitais de todo o país e já está a ser preparada a sua adapatação para o inglês e o espanhol.

Para que todos os que precisam tenham acesso ao sistema, a rede COGWEB tem estebelecido parcerias com autarquias e instituições de caráter social, que instalam o programa nos seus sistemas informáticos, para uso da população mais idosa, sem computador em casa. “Há muitas soluções. O doente, que tem de fazer os exercícios uma vez por dia, ou três vezes por semana, pode ir a casa de um filho, receber a visita de um familiar que leva um computador portátil, por exemplo”, diz o neurologista.

Desta forma, ataca-se o problema em duas frentes: com o treino cognitivo específico e fomentando a vida social, um elemento essencial na guerra contra a demência.

“Em Portugal, a partir dos 40/45 anos, as pessoas tendem a levar uma vida muito monótona, não se relacionam, têm poucas atividades. Isto é muito diferente em países como a Holanda, por exemplo.” Este enclausuramento leva a que os primeiros sinais de demência passem despercebidos (se não há exposição, ninguém a quem ‘prestar contas’, não se notam as falhas) e quando há um diagnóstico já é mais difícil recuperar as capacidades perdidas.

Além do treino cognitivo, sabe-se que o exercício físico aeróbico e a medicação combatem os efeitos da doença de Alzheimer. E todos os anos há novos medicamentos a entrar em testes. Mas mesmo assim, o efeito do treino é ainda superior ao dos fármacos.

Um alerta que Vítor Cruz não se cansa de fazer é que estes testes (pode consultar os exercícios de demonstração em COGWEB.pt) não se destinam a pessoas ditas normais, que queiram melhorar as suas capacidades ou retardar o envelhecimento cerebral. A estas, o médico recomenda que se mantenham ativos. A receita é: “aprender uma língua, começar a tocar um instrumento musical, envolver-se socialmente. ”