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O drama das igrejas fechadas de Lisboa

Sociedade

José Caria

Por falta de dinheiro para pagar a segurança, a luz e a limpeza, a maioria abre para a missa e pouco mais. Os lisboetas queixam-se e os turistas ainda mais. A solução, ficámos a saber, não passa por cobrar entrada

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

“As igrejas são o último reduto aberto para os pobres.” Há cinco anos como pároco em doze igrejas em Alfama, Castelo e Mouraria, três dos bairros lisboetas com a população mais envelhecida, Edgar Clara prefere ver as portas fechadas a cobrar bilhetes.

Não é que não lhe custe ver quase todas as suas igrejas abrirem apenas uma, duas ou, no máximo, três horas por semana, o tempo de dar a missa e pouco mais. “Recebemos inúmeros pedidos de guias que querem mostrá-las e dizem-nos que é um crime mantê-las fechadas o resto do dia, mas crime”, acredita o padre, “seria abri-las.”

Os ladrões são a sua principal preocupação, e com razão, nota Sandra Saldanha, diretora do Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja. “Trata-se de uma questão de segurança porque as igrejas conservam peças muito cobiçadas. Por falta de recursos, a solução que se tem encontrado, infelizmente, é fechá-las.” Para não acontecer como aconteceu à igreja de S. Lourenço, que há dez anos foi saqueada ao ponto de não se poder lá entrar (até levaram os azulejos das paredes).

A falta de recursos é uma constante. Cada igreja depende de si própria e a respetiva diocese depende de todas elas, o que não seria um problema se o dinheiro entrasse na caixa com frequência. Não é o caso naquelas em que Edgar Clara é pároco, que não têm orçamento para a iluminação e a limpeza, e acumulam dívidas de milhares de euros de obras básicas de conservação. “Como podia haver dinheiro se na Igreja do Coleginho só tenho 24 pessoas a assistir à missa ou em S. Miguel 17? Para as nove missas que celebro devo ter umas cem a cento e cinquenta. Quando vai mais gente sinto-me o Papa na Basílica de S. Pedro!”

A exemplo de São Cristóvão

Mesmo em São Cristóvão são umas trinta. Mas esta igreja, situada por detrás da Rua da Madalena, é uma exceção. Está aberta todo o dia graças a meia dúzia de paroquianas que aguentam estoicamente o vaivém de gente. Os turistas são os maiores interessados em ver uma igreja que sobreviveu ao terramoto, e os mais sensíveis à necessidade de ajudar a preservar um património único. Nos últimos tempos, na caixinha colocada à entrada juntam-se cerca de mil euros por mês.

Tanta generosidade explica-se pelo trabalho de valorização – e de criatividade na angariação de fundos, escreva-se – que Edgar Clara tem levado a cabo. Sob o tema Arte em São Cristóvão, restauraram-se ao vivo telas setecentistas, organizaram-se visitas, lançou-se uma campanha de crowdfunding e até se vendem bolachinhas (as Bolachas de São Cristóvão, feitas na Cozinha Popular da Mouraria) e as telhas do telhado que estava quase a deixar entrar água.

“A 'febre das telhas' é tal que já tenho 10% do telhado pago em três meses”, orgulha-se o padre. E a ideia nem foi sua, ou melhor, inspirou-se numa iniciativa semelhante numa igreja do norte do país que teve de substituir os tacos de madeira do chão e vendeu-os depois de personalizados com uma imagem.

Ideias precisam-se, admite este padre-empreendedor. Por isso está a organizar um seminário sobre a conservação e a valorização do património religioso, para o dia 18 de novembro, na Clínica de São Cristóvão. A partilha de algumas experiências, de projetos pontuais noutras dioceses, irá ajudar a abrir mais igrejas em Lisboa sem ser necessário pedir dinheiro à entrada.