Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

As lisboas de Costa e Santana

ARTIGOS DE FUNDO

  • 333

Nuno Fox

António Costa e Pedro Santana Lopes são os protagonistas de um dos duelos mais quentes destas eleições autárquicas. O primeiro governa a autarquia há pouco mais de dois anos e joga a sua manutenção num cargo de visibilidade política. O segundo quer regressar a um lugar que deixou, em 2004

Alexandra Correia com Filipe Luís e Tiago Fernandes

António Costa e Pedro Santana Lopes são os protagonistas de um dos duelos mais quentes destas eleições autárquicas. O primeiro governa a autarquia há pouco mais de dois anos e joga a sua manutenção num cargo de visibilidade política. O segundo quer regressar a um lugar que deixou, em 2004, para substituir Durão Barroso como primeiro-ministro, algo de que se arrepende, como revela neste inquérito. Ambos têm ambições políticas, nos seus partidos, que ultrapassam, em muito, o exercício de um cargo autárquico, ainda que à frente da principal câmara do País. Em 25 respostas, ficam patentes as diferenças e semelhanças entre os dois principais candidatos à Câmara de Lisboa. Costa, criado nas zonas do Príncipe Real e do Bairro Alto, quer ver um segundo pulmão verde nos terrenos do aeroporto da Portela; Santana, que cresceu em Benfica e nos Olivais, defende a manutenção do aeroporto naquele local. Mas ambos já foram multados pela EMEL e ambos confessam ter saudades da Feira Popular.

 

 

 

 

 

 

 

 

1 - Um amigo seu decide vir viver para Lisboa. Qual a zona que recomenda e porquê?

António Costa:
Há tantas zonas boas para viver em Lisboa que não me atrevo a sugerir uma. Acho que ele não teria dificuldade em decidir por si próprio.

Pedro Santana Lopes:
Dou-lhe 53 freguesias à escolha. Onde ele se sentir melhor. Isso é o fundamental, e Lisboa tem, felizmente, muitas opções.

2 - Qual o seu programa de eleição para um fim-de-semana na capital?

AC:
Outra pergunta difícil. Não tenho um programa de eleição, tenho muitos programas de eleição. Felizmente, Lisboa tem hoje, a nível turístico e cultural, uma oferta muito larga, heterogénea, dirigida a todos os públicos, que permite muitos bons fins-de-semana na cidade. Diria mesmo mais, muito boas semanas também.

PSL: Ler os jornais e revistas,  ler um bom livro e escolher uma esplanada ou restaurante para o almoço, uma exposição ou jardim para a tarde e um jantar com amigos ou um espectáculo para a noite.

3 - Qual o  local  de Lisboa que lhe traz melhores recordações de  infância ou  juventude?  

AC: As zonas do Príncipe Real e do Bairro Alto. Foi nessas zonas que vivi durante 40 anos, o que obviamente me marcou para toda a vida.

PSL: Benfica bem cedo, os Olivais mais tarde.

4 - Qual o local da cidade mais agradável para:

  • Andar de bicicleta
AC: Hoje, com as pistas cicláveis que fizemos e estamos a fazer, há muitos locais agradáveis. A pista ribeirinha, entre a Torre de Belém e, para já, o Cais do Sodré, por exemplo.

PSL: Monsanto e ao pé do rio.

  • Correr

AC: A zona ribeirinha, o Estádio Universitário, Monsanto (agora com o corredor verde já a funcionar, permitindo a ligação do Parque Eduardo VII com o parque de Monsanto).

PSL:
Para mim, é mais andar a bom passo, ao pé do rio ou num jardim como o do Campo Grande, que infelizmente está tão maltratado.

  • Passear
AC: Toda a cidade.

PSL:
O Chiado
  • Namorar
AC: Os nossos jardins e parques, que têm vindo a ser reabilitados.

PSL: Isso é cá comigo.

  • Fazer compras
AC: A Baixa e o Chiado, o comércio de rua como em Benfica, Campo de Ourique, Avenidas Novas ou Alvalade.

PSL: Depende do que se procura. Alvalade, Campo de Ourique, Baixa e Almirante Reis são bons exemplos de bairros com bons mercados e um comércio tradicional vivo.

  • Diversão
AC: O Bairro Alto ou a zona ribeirinha.

PSL: Em minha casa. Se não for aí, em casa de amigo.

  • Trabalhar
AC: A Baixa.

PSL: Em qualquer sítio da cidade onde seja preciso, faço tenção de estar uma semana por ano sediado em cada freguesia.

  • Observar o panorama

AC: Os nossos miradouros, que têm estado a ser integralmente remodelados, São Pedro de Alcântara, a Graça, tantos...

PSL: Castelo de S. Jorge, Santa Catarina, Cerca Moura, Rua da Lapa.



5 - Quanto paga de IMI?

AC: Em Lisboa, sou inquilino.

PSL: Não sou proprietário, o meu senhorio é que pagará.

6 - Tem medo de passear em Lisboa à noite?

AC: Não, é mesmo algo que faço quase todas as noites e é um magnífico exercício para um presidente de Câmara, não só pelo exercício físico, mas pelo que se vai vendo e as notas que permite tirar.

PSL: Não, mas acho que em alguns pontos há que ter cuidado e tenciono dedicar especial atenção a esta questão quando for presidente da Câmara.

7 - Como se desloca dentro da cidade?

AC:
Sempre que posso, de metropolitano.

PSL: A maior parte das vezes de carro, muito frequentemente a pé, quando as distâncias permitem - e eu gosto de andar a pé depressa -, algumas vezes de metro, quando o percurso é possível.

8 - Já foi multado pela EMEL (Empresa Municipal do Estacionamento)?

AC: Já.

PSL: Quem não foi?

9 - Os bares do Bairro Alto devem fechar às 2 da manhã?

AC: Gerir uma cidade é gerir as diversas vontades. No Bairro, a vontade e o direito dos moradores ao descanso e a vontade de quem se quer divertir. Há que encontrar um "ponto de embraiagem" entre estas duas vontades, sem a veleidade de agradar a todos.

PSL:
Em qualquer lugar da cidade, os locais de diversão não devem incomodar os moradores. Mesmo que me custe votos, é mesmo o que penso. Não é por acaso que, ao contrário de António Costa, não andei no Bairro Alto a fazer campanha - mas fui eu quem fechou as ruas ao trânsito, para permitir melhores condições a quem se quer divertir, dentro de horários razoáveis, e para melhorar a qualidade de vida no Bairro Alto.

10 - Tem saudades da Feira Popular?

AC: Tenho e acho que Lisboa deve ter um moderno parque de diversões. Há bons locais, que aguardam os investidores.

PSL: Qualquer cidade precisa de um local assim. Eu gostava de lá ir, quando era miúdo, e gostava de lá ir com os meus filhos, quando eles eram miúdos. E sinto que muitas pessoas querem ter um espaço assim.

11 - O que fará se um dos clubes lisboetas for campeão europeu?

AC: Naturalmente, a cidade deve fazer-lhe uma grande homenagem.

PSL: Uma grande recepção popular, na Praça do Município - será uma grande alegria para mim, qualquer que seja o clube que o conseguir - acima de paixões clubísticas eu gosto mesmo de futebol. E de futebol lisboeta, se é que me entendem...



12 - Falar no Parque Mayer dá mesmo votos ou é uma espécie de fétiche? AC: Não sei. No caso do meu executivo, temos feito tudo para fazer bem e desembrulhar a confusão, até de recorte judicial, que encontrámos. Abrimos um concurso de ideias e fizemos o plano de pormenor que envolve o Parque, o Jardim Botânico e os museus da Politécnica. Está feito e em condições de avançar. Entretanto, as obras do Capitólio começarão certamente em breve. Vamos vencer esse anátema que se abateu sobre o Parque Mayer.

PSL: Em matéria de votos, se calhar tenho perdido mais do que tenho ganho com o Parque Mayer. Mas a minha convicção profunda é a de que aquele é um local único para desenvolver o teatro e as artes cénicas e performativas, em Lisboa - por isso me encanta e fascina. Todas as cidades têm um local assim, Lisboa    tinha-o, no antigo Parque Mayer, e, se depender de mim, há-de voltar a ter.



13 - O que é que ficava mesmo bem nos terrenos do aeroporto da Portela? AC: Um segundo grande pulmão verde da cidade de Lisboa.

PSL: Exactamente o mesmíssimo aeroporto da Portela, melhorado, modernizado, a funcionar em pleno.



14 - Vai autorizar a instalação de mais centros comerciais?

AC: Não. A nossa aposta é no comércio de rua, que cria emprego, dá vida aos bairros e reforça a segurança.

PSL: Lisboa precisa que o pequeno comércio possa viver, precisa de proximidade entre residentes e comerciantes. Já temos centros comerciais que cheguem.



15 - Afinal, o que vai fazer no Terreiro do Paço?

AC: Uma grande praça, para que as pessoas possam fruir o espaço e o rio, que é uma grande riqueza da cidade de Lisboa. O Terreiro do Paço vai voltar a ser, em pleno, a grande sala de visitas da nossa cidade, com esplanadas, áreas culturais e comércio. Um orgulho dos e para os lisboetas.

PSL: O contrário do que António Costa fez: procurar que a autoridade sobre a zona ribeirinha volte à cidade, retirada ao Governo, e que o trânsito volte a ser como era anteriormente. O resto é para ser discutido e decidido com os comerciantes da Baixa e com os lisboetas.



16 - A Câmara tem 40 mil casas abandonadas. Tenciona dar-lhes algum uso?


AC: Reabilitação para atrair mais pessoas, sobretudo casais jovens, a viver na cidade.

PSL: Ver em que estado estão, recuperá-las e colocá-las ao serviço de uma estratégia activa de repovoamento da cidade, sobretudo pela população mais jovem.

17 - A Câmara tem empresas municipais a mais? Dispensaria alguma?

AC: Já extinguimos três e vamos integrar a última Sociedade de Reabilitação Urbana na EPUL [Empresa de Urbanização].

PSL: Dispensaria a Gebalis [empresa de Gestão dos Bairros] - tenho-o dito e não voltarei atrás. A EMEL tem que ser bem analisada, pelo menos quanto à forma como tem funcionado e que acho estranha. As outras, na generalidade, são necessárias, embora o funcionamento de várias possa ser bastante melhorado.

18 - Uma medida que contribua para trazer jovens para viver no centro... AC: A EPUL vai, em breve, colocar no mercado 400 casas, mas há que apostar em melhorar as escolas e outros equipamentos. Vamos ter mais 70 creches e 36 novas salas de ensino pré-escolar para que os jovens casais tenham mais estímulos para morar em Lisboa.

PSL: Reabilitar, reabilitar, reabilitar.



19 - Portagens para entrar na cidade: sim ou não?

AC: Não. Além do mais, praticamente todos os acessos a Lisboa já são portajados.

PSL: Se o Governo insistir em que haja terceira travessia do rio com opção automóvel, aí existirá de certeza portagem a partir do primeiro dia. O resto tem que ser avaliado face à evolução das coisas. Mais importante que as portagens é constituir uma Autoridade Metropolitana de Transportes que consiga coordenar e melhorar o sistema tal como ele está hoje em dia.



20 - Uma obra essencial que esteja por fazer.

AC: A reabilitação do eixo da Almirante Reis, uma prioridade para o próximo mandato.

PSL: Garantir uma melhor limpeza da cidade, garantir que ela seja mais agradável para quem cá vive.

21 - Que cidade internacional considera um modelo no que respeita à qualidade de vida?

AC:
Há várias a que podemos ir buscar boas práticas, mas não há modelos fechados.

PSL: Hoje em dia, exemplos ao acaso: Berlim, Copenhaga, Londres, Barcelona.

22 - Para ser uma cidade mais cosmopolita, Lisboa precisa de...

AC: Continuar a ser uma cidade aberta ao mundo, à diferença, uma cidade da tolerância, apostada na Cultura e na inteligência sem fronteiras. Uma grande cidade Erasmus, como propomos, será sempre um ponto de partida importante para desenvolvermos esse cosmopolitismo.

PSL: Um aeroporto onde ele existe hoje em dia, maior limpeza, maior segurança, oferta cultural e turística diversificada, ao longo do ano, jardins cuidados, a frente ribeirinha devolvida à cidade.



23 - Se pudesse voltar atrás, o que teria feito de diferente, durante a sua gestão camarária?

AC:
O que eu não quero mesmo é que Lisboa volte atrás e se perca todo o trabalho que tem estado a ser feito de credibilização política e financeira do seu Município.

PSL: Não teria saído da Câmara para o Governo.



24 - Quando pensa retirar os cartazes da sua campanha da paisagem urbana?


AC: Desejo que o mais rapidamente possível.

PSL: A partir do primeiro dia seguinte às eleições, o mais rapidamente que puder.

25 - Qual a vantagem política que mais teme no seu principal adversário?

AC:
Mas quais são as vantagens dele?

PSL:
A forma como usa a Câmara Municipal em proveito próprio, nesta campanha eleitoral.