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Retratos da manifestação

Portugal

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A manifestação do passado sábado, 29, em Lisboa, voltou a juntar a diversidade. Aos habitués dos protestos, juntaram-se muitos estreantes nestas lides. Têm em comum um desejo: que o rumo do País se inverta. Retratos de novos e velhos, empregados e desempregados sem mais furos no cinto. VEJA AS FOTOS

À CIVIL - Jorge Viegas, Teresa Silvestre e o filho, Bruno
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À CIVIL - Jorge Viegas, Teresa Silvestre e o filho, Bruno

'OS MEUS FILHOS PRECISAM DE AJUDA' - Victor Andrade
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'OS MEUS FILHOS PRECISAM DE AJUDA' - Victor Andrade

EMIGRAR? TALVEZ - Duarte Fonseca e Angela Zanic
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EMIGRAR? TALVEZ - Duarte Fonseca e Angela Zanic

A SOBREVIVER - David Vicente e Vanda Mata
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A SOBREVIVER - David Vicente e Vanda Mata

A PRAZO - Hugo Marquês
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A PRAZO - Hugo Marquês

ZANGADO - Sérgio Marques
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ZANGADO - Sérgio Marques

ATRIZ INTERMITENTE- Sandra Celas
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ATRIZ INTERMITENTE- Sandra Celas

A PRIMEIRA VEZ - Leonor, João e Mara Ferreirinho
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A PRIMEIRA VEZ - Leonor, João e Mara Ferreirinho

DE PEQUENINO... - Luis Vaz, António Lira, Catarina Dinis, Luis Pinheiro
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DE PEQUENINO... - Luis Vaz, António Lira, Catarina Dinis, Luis Pinheiro

MEMÓRIAS DE UM RACIONAMENTO - Vitória Paulo
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MEMÓRIAS DE UM RACIONAMENTO - Vitória Paulo

A LUTA CONTINUA... - Nélson Mendes
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A LUTA CONTINUA... - Nélson Mendes

Jorge Viegas, Teresa Silvestre e o filho, Bruno

À civil

Jorge Viegas despiu a farda da PSP e juntou-se à manifestação. É a primeira vez que se une à voz da rua como civil. "No 15 de setembro estava de serviço, não podia". Além de que, frisa, na sua profissão não lhe é permitido "fazer greve".

O agente do Comando de Lisboa, de 36 anos, trouxe a família com ele. O filho, Bruno, de 8 anos, não para de soprar na corneta e no apito que tem ao pescoço. Os pais, em casa, já lhe explicaram que agora não lhe podem comprar "tantas coisas".

O polícia sente-se "prejudicado" com a atual situação, que só "está boa para o Governo e para os bancos". Teme deixar de ser da chamada classe média e passe, "rapidamente", para a baixa. "Querem dar cabo de nós".

 Não vê na "queda" do Executivo a melhor opção, devido à perda de tempo e despesas com novas eleições, mas sim "uma mudança de políticas". A mulher, Teresa Silvestre, 37 anos, corrobora, até porque, diz, "não sinto que haja alternativas à esquerda" neste momento. 

Victor Andrade

'Os meus filhos precisam de ajuda'

"Capitães de Abril onde estais? Este Governo não pode roubar mais". A frase que Victor Andrade, 58 anos, escreveu no cartaz que segura não é, exatamente, um chamamento aos militares, mas vinca a "necessidade de se fazer uma revolução pacífica". Não poupa nas palavras: "estão a levar-nos à desgraça". Este especialista em terapêuticas não convencionais até nem se queixa do ordenado que leva para casa, mas as ajudas monetárias que agora tem de dar aos três filhos, de 22, 25 e 28 anos, todos licenciados - dois são nutricionistas e o outro é fisioterapeuta -, têm debelado o orçamento mensal. "Os três têm empregos precários e eu e a minha mulher é que somos o suporte económico deles", nota, um pouco emocionado. Os filhos também vieram à manifestação, mas estão noutra zona do Terreiro do Paço. Victor é um habitué de manifestações desde 1979. "Participo sempre que há perigo para as pessoas, como é o caso", diz, enquanto no palco da CGTP, a intensa gritaria dos Homens da Luta torna quase impossível a conversa. Mas ainda acrescenta, "estou aqui por solidariedade com os outros". 

Duarte Fonseca e Angela Zanic

Emigrar? Talvez

O ar descontraído dos dois estudantes não passou despercebido. Com as bicicletas paradas à sua frente, perto das barraquinhas de bebes que a CGTP montou, e a rama da cebola nova acabada de comprar a romper o saco acomodado na cestinha de um dos guiadores, contemplam o ambiente da praça. Ambos têm 25 anos e estudam na área das telecomunicações. Duarte Fonseca está prestes a terminar a tese mestrado e Angela Zanic, de origem Croata, está no primeiro de quatro anos de doutoramento. Duarte vive num quarto, em Lisboa, e, não fossem os legumes e frutas que os pais plantam no quintal, as "coisas não seriam mais complicadas". Recentemente começou a enviar currículos para empresas, mas a esperança de arranjar trabalho está a esmorecer. "Já pensei em emigrar e a Holanda é uma das hipóteses." Mas quer, um dia, voltar a Portugal, e ter o seu "próprio negócio".

Olha para a classe política como outros jovens da sua geração: "Parece que vão para lá para amealhar". É a sua segunda manifestação, a primeira foi a 12 de março de 2011, no protesto da Geração à Rasca.

A namorada, Angela, diz, num português muito correto, que não sabia "o estado do país" quando, há um ano, desembarcou em Lisboa. "Fiquei surpreendida. Acho que o Governo não sabe gerir o dinheiro dos contribuintes e não tem uma imagem real da vida das pessoas." Sabe que a sua área, a da investigação, tem sofrido cortes orçamentais e vê nisso um forte desinvestimento no futuro. "Há muita gente que está contra a investigação porque acham que não cria valor. Esse pensamento está errado." 

David Vicente e Vanda Mata

A sobreviver

Ambos têm um olhar perdido e desalentado. David Vicente, 39 anos, e Vanda Mata, 28, vieram de Alcobaça e do Cartaxo, respetivamente, para se juntarem à manifestação. Apesar do motivo inicial, o Terreiro do Paço também serviu para estarem algum tempo juntos, já que namorar tem sido difícil. Viverem juntos? Nem pensar. Não há dinheiro. Mesmo. David recebe ¤290 de subsídio de desemprego, a que se soma a reforma mínima (¤254) do pai, com quem vive. Esse dinheiro tem de servir para pagarem as contas e alimentarem-se. Aos poucos, David foi cortando no que podia. Primeiro nas viagens de carro, depois na roupa, seguiram-se os cuidados de saúde - "precisava de ir ao dentista" - e, finalmente, na comida. "Agora é mais à base de sopa."

Trabalhou durante anos na construção civil, mas a contração económica do setor ditou-lhe outra profissão. Durante quatro meses esteve como segurança numa empresa, mas essa época não lhe traz boas recordações. "Não pagavam o ordenado de forma certa. Recebia aos poucos."

Está desempregado há ano e meio e tem 11 meses de subsídio de desemprego pela frente. Não se cansa de procurar o sustento, mas até do Centro de Emprego só chegou uma única oferta: "era a 70 km da minha casa. Teria de pagar para trabalhar".

A situação de Vanda não é melhor. Não tem emprego há mais de um ano, nem qualquer subsídio. Entregou agora os papéis para o Rendimento Social de Inserção. Trabalhava no campo, "mas deixou de haver contratos". Vive com a mãe, que recebe ¤300 de reforma, e com o padrasto, um bombeiro que ganha o ordenado mínimo. As filhas, de 4 e 7 anos, estão entregues ao ex-marido, por falta de condições económicas para as criar. Ambos estão decididos: "vamos continuar a manifestar-nos".

À troika e ao Governo, David, manda um recado, que escreveu no cartaz que empunha: "Venham viver com o meu vencimento. Assim aprendiam a cortar nas despesas". 

Hugo Marquês

A prazo

Já foi camionista, estafeta, operador na Auto-Europa. Agora, Hugo Marquês, 35 anos, é motorista num centro de saúde. Transporta enfermeiros que prestam cuidados domiciliários a idosos. Mas não sabe por quanto tempo mais. "Sei que até ao final do ano, em princípio, estou garantido." O seu contrato a prazo acabou em junho, mas como ainda não são conhecidos os resultados do concurso público lançado, vai continuar com emprego e ordenado (¤485 mais o subsídio de refeição).

Não olha para o futuro de forma risonha e já pensou em emigrar - "eles [Governo] até já me mandaram embora" -, mas essa decisão está, para já, suspensa. "Vou ser pai em fevereiro." Hugo está convicto de que estamos "no fim de um ciclo" e que "as coisas" vão mudar. Porque, diz, este "Governo não tem maturidade, são uns fedelhos". Os cortes nos salários e subsídios e os já anunciados aumentos de impostos levaram-no a escrever no seu cartaz: "Passos, Portas, Relvas, Gaspar e companhia: vão empobrecer a vossa tia". 

Sérgio Marques

Zangado

Sentado no chão do Terreiro do Paço, emoldurado pelo Cais das Colunas, Sérgio Marques, 40 anos, produtor cultural, tem vestida uma camisola com a palavra "Indignado" escrita na zona dos ombros.

Revoltado com a situação política é duro nas palavras: "Este Governo não é sério. Não acredito, nem confio neles. Mas a esquerda é a mesma coisa. Hoje, é difícil acreditar que um cargo político é um lugar sério."

Sérgio não sair do País, sentiria isso como um abandono de navio. Se não conseguir trabalho no depauperado setor da Cultura terá de "pensar noutras áreas".

Tem estado nas últimas manifestações e nota que "as pessoas" estão "a vigiar" de forma mais firme a ação dos políticos.

Mas o desânimo abate-se de novo nas conversa. "Se eu tivesse um currículo falso seria julgado criminalmente. E o [Miguel] Relvas? Ele descredibiliza o mérito de quem estuda." Sérgio trabalha de forma intermitente, e a recibos verdes, há 12 anos. Tem esperança, mas está "zangado". S.R.

Sandra Celas

Atriz intermitente

Os dedos das duas mãos não chegam para contar as manifestações em que já esteve. No entanto, Sandra Celas, 37 anos, atriz, considera que a de 15 de setembro "foi esmagadora" pela adesão da sociedade civil. A mesma que, diz, "tem de mostrar que não aceita esta política". Acredita que "a paciência" dos portugueses acabou. Houve "uma gota" de água que fez "transbordar o copo" e fez aquele milhão de pessoas sair à rua.  

A atriz trabalha a recibos verdes, mas não se considera precária. "Sou intermitente", explica, "às vezes tenho trabalho, outras não." Aliás, considera que os atores, devido ao desgaste psíquico e emocional, não devem estar sempre a trabalhar. Por isso, "faz falta um "enquadramento fiscal para os artistas" que tenha em conta o tempo em que estão parados.

Veio ao Terreiro do Paço para protestar contra o Governo: "as medidas que estão a tomar são insustentáveis. A política é para que as pessoas vivam melhor, não pior". S.R.

Leonor, João e Mara Ferreirinho

A primeira vez

"Somos os dois filiados no PSD e é com muita tristeza que digo que me sinto enganada. Estamos aqui para mostrar o nosso desalento em relação à situação do país. Já não se resolve com manifestações, só através de uma revolução", desabafa Leonor Ferreirinho. Aos 43 anos veio juntamente com o marido João, de 46 anos, e a filha Mara, de 24 anos, ao Terreiro do Paço. É a estreia para todos. Leonor tinha apenas participado numa outra em 1974, mas tinha 5 anos e não guarda memórias dessa estreia. Ela trabalha como secretária da administração de uma empresa estatal, o marido era diretor comercial numa empresa privada mas perdeu o trabalho há dois anos. A filha, apesar de licenciada, engrossa as listas dos recibos verdes com um salário líquido de 650 euros e desta forma continua a ver adiada a saída de casa dos pais. Neste sábado deixaram a casa na Margem Sul e aqui se juntam à multidão, "para lutar pela dignidade e dar voz aqueles que não se podem manifestar. Temos de lutar para que todas propostas feitas durante as campanhas eleitorais sejam, cumpridas, caso contrário, os governos devem perder a legitimidade para governar", defende João. R.M.

Luis Vaz, António Lira, Catarina Dinis, Luis Pinheiro

De pequenino...

Ligeiramente afastados da confusão, um grupo de quatro amigos conversa enquanto um deles, António Lira, embala a filha bebé. Com seis meses de vida, já conta com três manifestações no seu percurso. Sabe-se lá quantas mais se seguirão. Os quatro amigos têm vindo juntos para a rua protestar contra a situação que se vive no país. "Os responsáveis acham que aguentamos tudo por isso é importante estarmos na rua para mostrar o nosso descontentamento, independentemente de quem convoca a manifestação", assegura Luis Vaz, 44 anos e professor de português desde 1998 mas ainda à espera de conseguir uma colocação. Luis confessa que antes das manifestações deste ano, há muito tempo que não marcava presença numa. Muitas vezes até porque sentia que as lutas nem sempre eram justas. Desta vez não tem dúvidas e defende que é demais e que chegou a altura de se insurgir. Até porque, no papel de professor a contrato, já sentiu bem na pele as mudanças introduzidas pelo atual Governo que determinam o fim dos contratos a 31 de Agosto em vez de ser no final de Setembro, acabando com o direito a salário neste mês ou sequer subsídio de férias. "Tenho cada vez menos dinheiro, nem sei se vou ter colocação em Outubro. Por isso estarei nas próximas manifestações até nos ouvirem", assegura. R.M.

Vitória Paulo

Memórias de um racionamento

"Nasci em 1945, numa altura em que tudo era racionado. Ao fim destes anos todos, parece que estamos a voltar a essa época", desabafa Vitória Paulo, reformada da Direcção Geral do Orçamento do Ministério das Finanças. Aos 66 anos, esta lisboeta garante que se manifesta para defender o futuro da filha e da neta. "Eu sou doente oncológica e diabética. Corro o risco de ter estes medicamentos racionados e vou perder a isenção nos medicamentos. Isto depois de já me terem roubado os meus bens. Tiraram-me os subsídios de férias e de natal. Este primeiro-ministro é pior do que o Salazar. Esse não dava mas também não tirava nada", desabafa. Carregando um cartaz onde sugere ao governo que privatize o Cristo rei. "Só não conseguiram vender este espaço nem salvar o país..", diz. Habituada a comparecer nas diversas manifestações que têm vindo a ser convocadas nos últimos anos, Vitória sente que no atual momento é ainda mais importante vir para a rua, mostrar que não tem medo. Vive com a filha, o genro e a neta e diz que é por eles que continua a lutar. "As grandes batalhas não se fazem com cravos. Temos de ir à luta até o governo cair e a troika sair de cá. Com ou sem sangue, isto tem de mudar", defende.

Nélson Mendes

A luta continua...

Nélson Mendes, 29 anos, é um dos quase 300 estivadores do Porto de Lisboa em luta e que aproveita a manifestação para dar voz ao seu descontentamento perante as novas regras laborais aprovadas pelo governo. Estiveram em greve na semana passada e dentro de duas semanas contam sair de novo à rua. "Este novo acordo de trabalho promove o despedimento de 60 a 70% dos trabalhadores efetivos para serem ser substituídos por contratos eventuais", diz, revoltado, este estivador. Chegou ao Terreiro do Paço juntamente com outros colegas e os responsáveis do sindicato. Trazem todos a mesma t-shirt preta onde se lê: "se defender o nosso posto de trabalho é crime, então prendam-nos a todos". Neste grupo, todos se mostram dispostos a manter a luta até ao fim, pelos seus postos de trabalho e pelas suas famílias. Ganham em média ¤800 mas chegam a contabilizar 60 horas de trabalho nos porões dos navios ancorados na barra de Lisboa. Queixam-se de inúmeros atropelos, dos efeitos das medidas sobre a sua vida. Enquanto falamos, cai um petardo ao nosso lado mas que por sorte não chega a rebentar. "Temos de fazer alguma coisa para mudar esta situação. Estou disposto a ir até às últimas consequências. Tenho família e filhos para criar", diz Nélson. R.M.