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Portugueses esfaqueados na Alemanha prejudicados com regresso a Portugal?

Portugal

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O regresso precipitado a Portugal pode ter prejudicado os direitos a indemnização dos emigrantes esfaqueados, recentemente, em Berlim

Helga Seyb nem quis acreditar quando soube que cinco dos sete operários portugueses agredidos na sexta-feira, 8, regressaram a Portugal, quatro dias após o ataque sofrido em Berlim.

A responsável da ReachOut, uma instituição de apoio a vítimas de violência xenófoba, financiada pelo senado de Berlim, afirma que "foi o pior que podiam ter feito". "O risco de perderem muitos direitos é enorme. Duvido que tenham sido devidamente informados".

O caso dos portugueses não é um caso isolado. Em declarações à VISÃO, Seyb diz que isso é típico e acontece frequentemente na Alemanha. "Se os trabalhadores portugueses nos tivessem procurado, aconselharíamos o seguinte: ficar na Alemanha até terem assegurada a recolha de todos os dados (entre eles, relatórios médicos e fotografias dos ferimentos) para poderem constituir-se com exigir indemnizações relativas a danos corporais quando os criminosos forem apanhados".

Violência extrema 

Um grupo de oito operários portugueses, que não estava sequer há 48 horas na Alemanha, regressava, após o primeiro dia de trabalho, à sua residência em Adlershof (no bairro berlinense de Treptow-Köpenick), quando foi atacado por um grupo de 10 a 17 indivíduos munidos de armas brancas.

Tratou-se de um raide de surpresa, rapidíssimo e em que foi empregue uma violência extrema. Dos oito homens, um conseguiu fugir, ileso; os outros sete foram brutalmente esfaqueados - destes, dois ficaram em estado grave. Um foi o luso-ucraniano Volodomir Vygosvskiy, que levou várias facadas, uma das quais deixou-lhe um rasgão de 4 centímetros no fígado. Outro, Francisco Soares, teve de ser operado aos intestinos. Ambos regressaram a Portugal, respetivamente na sexta-feira, 22, e no sábado 23, de avião.

Mas os restantes cinco, entraram na quinta-feira, 14, poucas horas depois de terem recebido alta hospitalar, num autocarro. E ainda debilitados fizeram os 2 600 quilómetros até ao Porto. De acordo com António Lima, porta-voz da GonstuGomes, a empresa para a qual trabalhavam através de subempreiteiros, foram os operários que optaram por vir convalescer para Portugal. Segundo este responsável, a viagem teve de ser feita de autocarro porque nos aeroportos alemães reinava, por aqueles dias, o caos, devido a intensos nevões.

Independentemente do sucesso da polícia na captura dos agressores, as vítimas do ataque podiam ter reclamado ao governo alemão uma indemnização. "É possível responsabilizar o Estado alemão. As vítimas deveriam ter sido informadas sobre isso", afirma Seyb à Visão. "Não deviam tê-los deixado partir sem preencherem o pedido especial de indemnizações ao Estado alemão", acrescentou.

Em conversa com a VISÃO, Volodomir Vygosvskiy diz que nos dias que passou numa clínica berlinense e em que foi ouvido várias vezes pela polícia ninguém o informou sobre essa possibilidade. Agora anda a juntar a papelada e pensa contratar um advogado - um serviço que a ReachOut lhe podia ter proporcionado gratuitamente.

Xenofobia?

Quanto ao móbil do crime, ainda não se apurou nada. Hega Seyb diz-se perplexa com as declarações das autoridades alemães, que ainda antes da conclusão da investigação, excluem a possibilidade de se ter tratado de um crime xenófobo. Uma posição, aliás, secundada pela embaixada portuguesa em Berlim. "Todos sabem não pode ser excluída essa hipóteses no bairro de Treptow-Köpenick, conhecido pelo seu submundo neonazi".

Com efeito, alguns guias turísticos aconselham cautelas naquela zona da capital germânica, onde no ano passado foram registados 220 incidentes violentos envolvendo extremistas de direita. É ali que se localizam a sede nacional do partido neonazi NPD e o bar Zum Henker (O Carrasco), um conhecido ponto de encontro de extremistas de direita.

Toda a gente sabe que não é de excluir um 'background' neonazi, pois o bairro de Treptow-Köpenick é bem conhecido por albergar uma cena bem visível de neonazis. É naquela zona que se encontra a sede do partido NPD, de extrema direita e é alí também que se encontra a famigerada taverna "Zum Henker" ("O Executor"),  um dos pontos de encontro dos neonazis de Berlim.