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Só o PIB não faz milagres

Portugal na Europa

Francisco Galope

Trinta anos depois da adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia, como se situa o nosso país face aos parceiros da UE? Com o apoio da Pordata, a VISÃO online apresenta ao longo desta semana um retrato da situação do País, comparando-o com o dos seus parceiros. Depois da população, centramo-nos na economia: apesar de engasgada, Portugal foi dos países que mais reduziu as desigualdades

Durante décadas utilizou-se o PIB per capita como bitola para medir o desenvolvimento económico de um país e como o padrão para aferir e comparar o nível de vida da população entre diferentes territórios. Mas entre os economistas é crescente a opinião que, sendo importante, esse indicador não chega para analisar o grau de bem estar de uma sociedade.

Assim, olhando para a evolução de algumas estatísticas europeias ao longo de uma ou duas décadas, constatamos que, por exemplo, os “campeões” do PIB per capita não são necessariamente aqueles onde as desigualdades e a pobreza mais diminuíram.

Sabia, por exemplo, que no Luxemburgo, Áustria, Suécia e Finlândia, a taxa de privação material (incapacidade de assegurar o pagamento de uma despesa inesperada) aumentou entre 2004 e 2014? Ou que o rácio de desigualdade na distribuição do rendimento subiu (em alguns casos fortemente), nos últimos 20 anos, na Alemanha, Áustria, Luxemburgo e Dinamarca, ao passo que diminuiu em países tidos “problemáticos” como Portugal ou a Irlanda?

Portugal apresentava, em 2014 (dados mais recentes), uma taxa de privação material da ordem dos 42,2%, mais do dobro do que em 2004 (19,5%). Ou seja, em 2014, quatro em cada dez portugueses não conseguia fazer frente a uma despesa inesperada num valor idêntico ao limiar de risco de pobreza (equivalente, em Portugal, a um rendimento anual de €5 061). Uma evolução brutal, tendo em conta que o PIB per capita aumentou, nesse período, 25,3% subindo de 17 085 paridades de poder de compra padrão (pps) para 21 401 pps.

O mais curioso é que em alguns dos países tidos como ricos, o número de pessoas aflitas em fazer chegar o salário ao fim do mês cresceu. Assim, por exemplo, no Luxemburgo, campeão incontestado do PIB per capita europeu, a taxa de privação material aumentou de 12,7% para 24,8 por cento.

O PIB per capita está relacionado com uma série de outras variáveis. E países com um PIB per capita mais elevado tendem a ter um melhor desempenho noutros indicadores que países com menos criação de riqueza por habitante. Contudo, os indicadores sociais não melhoram na mesma proporção do crescimento do PIB.

Mais PIB per capita não significa necessariamente uma sociedade mais justa e equilibrada. Menos dias de férias e mais dias de trabalho aumentam o PIB, mas não a qualidade de vida de quem produz. Nem um PIB elevado significa que a riqueza gerada na sociedade seja distribuída de forma equitativa.

Olhemos para o caso de Portugal. Apesar de um PIB per capita 23% inferior à média europeia, o País evoluiu positivamente em termos do rácio que mede a desigualdade na distribuição do rendimento: diminuiu de 7 para 6, entre 2005 e 2015. Quer isso dizer que, há uma década, os 20% mais ricos da população ganhavam sete vezes mais do que os 20% mais pobres, sendo essa diferença agora de seis vezes.

Ao mesmo tempo, constatamos uma evolução inversa nos “países ricos” como a Alemanha, a Áustria, a Dinamarca, a Espanha, a França, a Itália e a Suécia, cujos níveis de desigualdade, ainda que inferiores ao português, estão a crescer há 20 anos.

Muitas vezes usado como sinónimo de desenvolvimento económico e social, o PIB pode ser definido na ótica da produção, do rendimento ou da despesa. Em qualquer uma delas, no cálculo só entra o que vale dinheiro. E é essa a sua grande debilidade quando se quer aferir o bem estar de uma população. Daí que ao nível dos economistas de organismos como a União Europeia e da OCDE se discuta presentemente a possibilidade de se associarem ao PIB outros indicadores para medir o desenvolvimento. Entre eles, os níveis de poluição, o usufruto de tempos livres, indicadores de saúde, o desemprego e, claro, os níveis de desigualdade e pobreza.

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