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Perfil de Zeinal Bava

Portugal

Visão, publicado em 27 de Março de 2008

PT, nova geração ao poder

Os históricos apontam-lhe o defeito de só confiar nos jovens de que se rodeou desde que, há nove anos, começou a subir na hierarquia da empresa. Aos 42 anos, Zeinal Bava chegou ao topo

Zeinal Bava não é um desconhecido dentro da Portugal Telecom (PT). Certeiro, passou cada dia dos últimos nove anos a traçar o caminho que o iria levar ao topo. Vai ser nomeado, aos 42 anos, presidente executivo (CEO) do grupo, substituindo no cargo Henrique Granadeiro, que permanecerá na empresa com funções mais resguardadas de chairman. Mas se Zeinal Bava conhece bem a PT, será que a PT também conhece bem Zeinal Bava? A resposta é negativa. Afinal, é ele o primeiro de uma nova geração que começa amanhã, sexta-feira, 28, a segurar as rédeas do poder no maior grupo nacional de telecomunicações.

Competente, inteligente, metódico, organizado, mas também maquiavélico e dono de uma enorme ambição, é um dos administradores mais acessíveis e afáveis no trato dentro da PT, onde ocupa, desde 2006, o cargo de vice-presidente. Pratica a cultura do mérito e segue uma lógica anglo-saxónica, que lhe ficou dos tempos em que estudou na University College of London, onde se formou em Engenharia Electrónica. Mas tem fama de ser implacável com quem falha ou com quem não fez o trabalho de casa antes de uma reunião importante. Diz-se que é muito duro no trato - mesmo intratável.

Protege os seus mas coloca-lhes a fasquia cada vez mais alta. Resta conhecer o estilo com que vai afirmar-se na PT, se pelo terror ou se pela simpatia duas qualidades que parece saber utilizar como poucos.

Zeinal Bava chegou à PT em 1999, pela mão de Eduardo Martins, um dos históricos que, em 2001, saiu da empresa de candeias às avessas com o antigo protegido.

"Faltava-nos alguém que tivesse aquele know how, que conhecesse os mercados internacionais", conta Eduardo Martins à VISÃO. "Nós vínhamos do sector público", remata. No final dos anos 90, a PT estava a preparar-se para mais uma das suas cinco fases de privatização, ao mesmo tempo que a PT Multimédia (PTM) estudava a admissão à bolsa. Como director executivo da Merrill Lynch e, antes, da Deutsche Morgan Grenfell (1996/98) e da Warburg Dillon Read (1989/96), Zeinal Bava tinha, entre as suas tarefas, o papel de conselheiro da telecom portuguesa. Por isso, quando chegou ao edifício-sede da empresa, nas Picoas, era já um profundo conhecedor da casa que o recebeu.

Com tais credenciais, o seu nome acabou por ser bem acolhido pelo ex-presidente da PT, Murteira Nabo, que o convidou. A favor da transferência de Londres para Lisboa, foi decisiva a vontade da mulher, Fátima, de instalar na capital portuguesa a base familiar do casal, na altura com filhos pequenos hoje têm três, com 14, 10 e 8 anos.

"Isso ajudou-nos a convencê-lo", conta ainda Eduardo Martins. Estavam criadas as condições para a mudança do consultor.

O AVANÇO DA GUARDA PRETORIANA

Com Zeinal, veio Manuel Rosa da Silva, 40 anos, também ele um "estrangeirado", um "expatriado". A dupla causou estranheza numa empresa tradicionalista como a PT.

Muito fluentes em inglês, costumavam entender-se na língua de Shakespeare. Rosa da Silva é, ainda hoje, o braço-direito de Bava e o primeiro nome que todos apontam quando solicitados a nomear os homens de confiança do novo presidente. Seguiu sempre o líder nas diferentes empresas do grupo: PTM, TMN e, mais recentemente, PT Comunicações, ficando ambos na posse de um conhecimento transversal dos negócios da PT. E Rosa da Silva já conquistou um dos três lugares da futura PT Portugal, empresa-chapéu que reúne os negócios domésticos do grupo, partilhados entre a PTC e a TMN.

Zeinal Abedin Mohamed Bava nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, Moçambique, onde viveu no seio de uma família de comerciantes até ao início da adolescência. Após o 25 de Abril, faz uma curta passagem por Lisboa mas, cedo, aos 14 anos, foi estudar para Inglaterra. Hesitou entre Medicina e Engenharia, mas acabou por seguir a segunda vocação, completando, posteriormente, a sua formação com um curso de Gestão na Universidade Nova de Lisboa.

Sem ter nascido em berço de oiro, soube penetrar, com relativa facilidade, no círculo restrito de apelidos de onde sai parte dos gestores da PT. Os históricos apontam-lhe o defeito de só confiar nos novos, sem procurar equilíbrios. Rodeia-se de quadros muito jovens e muito fiéis, especialmente na área financeira. Trata-se de uma espécie de guarda pretoriana formada por "jovens turcos", como são conhecidos na empresa. Além de Manuel Rosa da Silva, surge no rol Luís Pacheco de Melo, 41 anos, administrador financeiro (CFO) da PT, que Bava foi buscar à PTM (onde chegou pela mão de Manuel Lencastre, após fazer carreira no BES) para lhe suceder no cargo quando foi nomeado vice-presidente do grupo. Também Nuno Prego (ex-BCP), responsável pelas relações com investidores, está prestes a subir uns degraus na hierarquia da empresa, ao ser indicado como futuro chefe de gabinete do CEO. Outros nomes: Miguel Moreira e Francisco Nunes, na PT Pro (serviços partilhados), e José Carlos Baldino, na PTC.

Numa PT mais leve e mais ágil, após a separação da PTM, Bava bater-se-á por uma nova cultura. Irá certamente substituir, até ao final do ano, a primeira linha de quadros da PT por homens da sua confiança, mais novos, mais ambiciosos e também menos acomodados.

"Serão sacrificados bons quadros a favor de uma nova geração, só porque Zeinal Bava não quer quem faça a ligação com o que ficou para trás", disse à VISÃO um antigo gestor da PT. No próximo mandato, que começa a 1 de Janeiro de 2009, provavelmente já terá os seus homens posicionados para ascenderem na hierarquia da empresa.

ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO

Austero nos gastos e muito cioso do controlo dos custos, a coabitação com o anterior CEO da PT, Miguel Horta e Costa, nem sempre foi fácil, em matéria de despesas.

Mas o ódio de estimação estava reservado para Carlos Vasconcellos Cruz, ex-presidente da PT Comunicações com ambições de liderança que se revelaram fatais. Também não lhe souberam resistir Iriarte Esteves (ex-presidente da TMN), Graça Bau (ex-presidente da TV Cabo) e António Soares (ex-vice-presidente da TMN), gestores que ficaram conhecidos como o "grupo da Adega da Tia Matilde", onde se juntavam, frequentemente, para almoçar. Sem apoio dos accionistas, este grupo de gestores acabou por sair, aproveitando o último ano do decreto que lhes permitiu levar para casa uma reforma dourada e deixando o caminho livre a Zeinal Bava, nas três maiores participadas do grupo em Portugal.

É aqui que os seus apoiantes ressalvam o facto de ter passado a gerir cada uma dessas empresas, mantendo os administradores já em funções em suma, afastou os generais mas não desdenhou dos soldados.

Um exemplo: na PTC, mantêm-se Alfredo Baptista e Carlos Duarte.

FAMÍLIA & CARREIRA

Trabalhador incansável, capaz de passar 14 horas por dia no gabinete, só se lhe conhecem duas paixões: a carreira e a família. Por regra, não aceita convites para festas ou reuniões sociais. Mas o trabalho também lhe ocupa parte do tempo livre: ao fim-de-semana, ainda arranja tempo para ir à Fnac e ver com os próprios olhos se os produtos das empresas da PT estão ou não bem visíveis nas prateleiras. Para os encontros da empresa, veste um pólo e calça ténis. Durante a semana, os filhos contam com a ajuda do pai nos trabalhos de casa, mesmo que, para isso, tenham de se deslocar ao gabinete do edifício Marconi (sede da TMN) ou ao da sede, nas Picoas. Os colaboradores já sabem que só aceita encurtar uma reunião para ir à escola dos filhos encontrar-se com os professores. Os três filhos frequentam o colégio dos Salesianos, um sítio improvável para acolher a prole de um muçulmano.

Na escolha, terá prevalecido a vontade da mulher, católica praticante. Intrigante é, aliás, a relação de Zeinal Bava com a religião muçulmana, cuja prática adopta, de forma discreta. Sobre isso não fala; e os colaboradores nada lhe perguntam.

Poucos acreditaram que Zeinal Bava pudesse chegar a número um da PT, mas hoje não hesitam em explicar que chegou onde chegou porque é "um valor seguro para os accionistas". A comprová-lo, está o programa de remuneração, no valor máximo de 6,2 mil milhões de euros, com que os accionistas da PT têm estado a ser recompensados desde a derrota da OPA lançada pela Sonaecom.

E, em tempos de crise, nada melhor que um financeiro para salvaguardar os interesses do capital investido. A Bava, parece faltar a dimensão marketeira, importante no negócio das telecomunicações nada que uma boa equipa não consiga sanar.

E também a arte de tomar decisões nos negócios.

No seu curriculum, sobressaem duas manchas: a compra do portal brasileiro Zip.

net e o elevado valor pago pelo grupo Lusomundo antes do rebentar da bolha especulativa da Internet. Esses dois insucessos fizeram com que Murteira Nabo o tirasse dos negócios operacionais e canalizasse o seu talento para o cargo de CFO do grupo afinal, aquilo que sabe fazer melhor.

Essa sua faceta, "totalmente virada para as questões financeiras", preocupa o líder do Sindicato dos Trabalhadores da PT, Jorge Félix, que vê em Bava alguém vocacionado para "satisfazer as exigências dos grandes accionistas". Essa postura é já visível na negociação, em curso, do acordo de empresa para 2008 e no congelamento dos salários superiores a 2 mil euros brutos.

Para Luís Reis, administrador da Sonaecom e presidente da Apritel, a associação dos operadores de telecomunicações, "Bava é talvez o mais competente dos presidentes executivos que a PT conheceu nos últimos 15 anos". Sem, contudo, considerar que tenha sido o salvador da PT na OPA, define-o como "simpático, afável, inteligente e rápido no raciocínio, muito focado e orientado para a criação de valor". Mas não lhe antevê vida fácil, nos próximos anos. Na PT, terá de saber "encontrar forma de crescer fora de Portugal, e não só no Brasil. A PT nunca geriu negócios fora do país, apenas tem colocado umas bandeiras no mapa". Uma tarefa difícil, numa altura em que o dinheiro gerado pela empresa tem ido direitinho para o bolso dos accionistas.

Pedro Norton de Matos, outro dos ex-concorrentes da PT enquanto líder da Oni, tem-no em boa conta: "Bom profissional, muito dedicado às causas que defende.

Competente, exigente e inteligente." Nos road shows, "fala a linguagem dos investidores financeiros. É essa a área onde é reconhecido ".

LIGAÇÕES POLÍTICAS

Zeinal Bava chegou à PT sem ligações políticas, mas também neste ponto soube construir uma teia que lhe granjeou apoios no Governo e na oposição. Deu emprego aos filhos de António Guterres, Teixeira dos Santos, Marcelo Rebelo de Sousa e Esteves de Carvalho. O filho de Jorge Sampaio também esteve no grupo, na área internacional.

Na OPA, desempenhou um papel muito importante, ao desenhar o pacote de remuneração accionista, e conseguiu convencer um grande fundo internacional a abster-se na assembleia convocada para desbloquear os estatutos da empresa. Mas sem os bons ofícios de Henrique Granadeiro e Ricardo Salgado junto do Governo, da banca, dos media e de alguns accionistas de referência, não é certo que a OPA da Sonaecom tivesse caído por terra.

Decisiva, nesta sua ascensão dentro da PT, terá sido a boa relação com Ricardo Salgado, presidente do BES, o accionista mais influente do grupo de telecomunicações.

Especialmente durante o spin-off da PTM, que conduziu a uma verdadeira guerra aberta entre Zeinal Bava e Rodrigo Costa, pela disputa dos melhores quadros entre as duas empresas.

Zeinal Bava sempre ganhou muito bem, no grupo PT, tendo posto em prática os planos de stock options para premiar o mérito.

O primeiro a ser criado foi o da PTM. O gestor poderia ter ganho muito mais dinheiro, quando a empresa chegou a cotar-se acima dos 125 euros em bolsa, caso tivesse vendido as acções nessa altura. Mas não o fez. No final de 2006, segundo o relatório e contas da PTM, Zeinal Bava era titular de 89 196 acções da empresa. Na PT, possuía, no final de 2007, 63 161 títulos, que à cotação da passada terça-feira, valiam mais de 450 mil euros. O próximo presidente da PT será, ao mesmo tempo, um accionista atento ao seu próprio desempenho.

Os 5 desafios de Zeinal Bava

As tarefas a que o gestor tem de dar atenção

1 Minicidade PT - Uma das preocupações do novo CEO será a escolha de um local, em Lisboa ou arredores, para instalar os 3 mil funcionários da TMN e da PT Pro que procuram uma nova sede. As ofertas de terrenos chegam de todo o lado Oeiras, Cascais, Amadora., mas a PT ainda não decidiu. Terá, no entanto, de o fazer nos próximos três anos. O grupo vendeu o edifício-sede da TMN, em Entrecampos, uma obra do arquitecto Raul Martins, encomendado pela extinta Companhia Portuguesa Rádio Marconi.

A PT Pro planeia, igualmente, deixar as instalações alugadas que ocupa também na zona de Entrecampos, em Lisboa.

2 O arranque da PT Portugal - Zeinal Bava vai dar um empurrão na PT Portugal, uma nova sub-holding do grupo, que reúne os activos domésticos da TMN e da PTC. A gestão conjunta dos negócios deverá traduzir-se por um novo impulso na oferta de produtos convergentes como os telefones fixo e móvel, a Internet de banda larga e a televisão por ADSL.

O desafi o não vai ser fácil: o mercado do fixo continua em queda, o do móvel dá sinais de estagnação, ao passo que o impulso que parece faltar à Internet e, sobretudo à televisão, poderá não ser compatível com o estado da rede de cobre da PT. Aguarda-se, assim, o investimento numa rede de nova geração capaz de suportar um aumento da qualidade dos serviços.

3 As amarras da regulação - Henrique Granadeiro lançou à Anacom, o regulador sectorial presidido por Amado da Silva (na foto), um repto muito claro: a PT só investirá numa rede de nova geração se tiver a garantia de que não será forçada a abri-la aos concorrentes.

Com a cisão da PTM, tem exigido também um tratamento distinto por parte da Anacom, rejeitando uma regulação assimétrica e o abrandamento da pressão exercida pelo regulador. A saída de Abel Mateus da Autoridade da Concorrência e a sua substituição por Manuel Sebastião deverá bastar para melhorar a relação com o operador.

4 Internacionalizar em português - Henrique Granadeiro deixa os planos de criação de um grande operador de língua portuguesa no Brasil. A PT, apoiada pelo seu accionista mais influente, o BES, tem-se posicionado para tomar uma posição no operador em formação no Brasil, que resulta de um entendimento entre a Oi e a Brasil Telecom. Num impasse, continua a parceria com a telefónica na Vivo, empresa à qual a PT já vai buscar 40% da sua receita. Com o mercado nacional a dar sinais de estagnação, a dimensão terá de ser encontrada fora de portas. Quanto a África, não será de um dia para o outro que o continente começará a gerar receita.

5 Coabitação com Granadeiro - O modelo de governação merecerá também a atenção do gestor, que terá de encontrar uma forma de se articular com Henrique Granadeiro (na foto), futuro chairman da PT. Na apresentação das contas de 2007, Granadeiro confessou à VISÃO que, "em termos de gestão", gostou de ter sido CEO da PT, durante o período da OPA.

Quanto ao estilo que pretende imprimir ao cargo de chairman, respondeu: "Não vou mudar a minha natureza...".

Galeria de presidentes

Estilos de liderança muito distintos têm passado pela PT

Luís Todo-Bom >> Foi o homem da criação de um operador único de telecomunicações, juntando, por fusão, a Telecom Portugal, os TLP e a TDP. Deu início à privatização da empresa.

Foi visionário, quando apostou na instalação de uma rede de cabo, dando azo ao aparecimento da televisão por subscrição, em Portugal

Murteira Nabo >> Concluiu as cinco fases de privatização da PT e geriu com eficácia a influência do Estado e dos privados na empresa. Internacionalizou a PT, conquistando em leilão o controlo da Telesp Celular: Mas foi também quem acordou o controlo conjunto da Vivo com a Telefónica espanhola

Horta e Costa >> Inaugurou o discurso da criação de valor para os accionistas numa empresa até então fortemente dependente das vontades governamentais.

Num estilo muito próprio, foi um diplomata, a gerir equilíbrios. Mas foi também o homem que deixou o terreno livre para o aparecimento da OPA da Sonaecom

H. Granadeiro >> Foi o rosto da vitória na OPA da Sonaecom. Chegou pouco depois de a oferta ter sido lançada, Reuniu as tropas, geriu numa conjuntura de crise e ganhou a batalha, graças às boas influências junto do Governo, dos media e da banca. A seu lado, teve a figura tutelar de Ricardo Salgado e o génio financeiro de Zeinal Bava

Zeinal Bava >> Herda uma PT mais magra, amputada do seu negócio mais promissor, em termos de crescimento a PT Multimédia.

Mas conta com o peso-pesado da TMN, que pretende gerir de forma integrada com a PT Comunicações, debaixo do chapéu da PT Portugal. O maior desafio vai ser o Brasil e a presença internacional da PT