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Paulo Pedroso: 'Fechei a porta à política'

Portugal

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O antigo ministro do PS e número dois de Ferro Rodrigues divide o seu tempo entre Portugal e Timor-Leste, onde é consultor do Governo. O "dano permanente" causado pelo processo Casa Pia levou-o a colocar um ponto final na carreira política

 

Encontramos Paulo Pedroso, 49 anos, nas instalações do ISCTE, em Lisboa. É ali que dá aulas, atividade que acumula com a de consultor em políticas públicas. É esta última, aliás, que o tem desafiado para fora de Portugal - viveu na Roménia, na Bulgária e na Turquia, trabalhando na gestão dos fundos europeus, e passa agora metade do ano em Timor, onde desenvolve, de raiz, o sistema de Segurança Social daquele país. Casado, pai de três filhos (uma filha do primeiro casamento e dois do segundo, com Ana Catarina Mendes, deputada do PS), está afastado da política desde que, em 2009, se candidatou à Câmara Municipal de Almada. No terreno, durante a campanha eleitoral, ainda se sentiam os efeitos do processo da Casa Pia, em que Paulo Pedroso esteve acusado, chegou a ser preso e foi, posteriormente, ilibado. Ficou o "prejuízo à reputação", como diz. Uma queda abrupta para quem tinha sido uma estrela de rápida ascensão no PS. "Não tinha nenhuma ambição e tinha as ambições todas ao mesmo tempo", reconhece nesta entrevista.

Desde a candidatura à Câmara Municipal de Almada, em 2009, tem estado afastado da política ativa. Essa candidatura foi uma tentativa de regresso depois do processo Casa Pia? 

Não, foi parte de uma reflexão pessoal sobre as condições em que fazia sentido estar na política. Tinha consciência que as possibilidades de ganhar eram reduzidas e sabia que ou seria o início de um novo desafio - que teria gostado de abraçar, na política local - ou o fim do ciclo como político profissional, o que acabou por acontecer.

Fechou a porta à política? 

Fechei a porta. As pessoas habituaram-se a ver-me como político profissional mas, na minha vida, o período de político profissional foi bastante circunscrito. Mas teve uma ascensão muito rápida... E uma queda mais rápida ainda. 

Afastou-se da política porque sentiu, durante a campanha eleitoral, que havia um estigma contra si?

Eu sabia que havia. Não sinto que hoje a minha participação na vida política, como político profissional a tempo inteiro, seja uma mais-valia para o Partido Socialista. Independente de achar que o que aconteceu foi um misto de procurar alguém que coubesse num retrato-robô - e saiu-me a lotaria negra a mim - e de termos um Ministério Público que tem uma cultura inquisitória pré-democrática e que não se preocupa com garantias básicas... independentemente de achar que a situação criada era de uma profunda injustiça, os factos são os factos. O prejuízo à reputação foi dado.  

Foi ilibado no caso Casa Pia e passaram 11 anos desde a sua prisão. Ainda vive com esse estigma no dia a dia? 

O que eu sinto no dia a dia é que não há ninguém que fale comigo que não saiba que esse caso existiu e que não tenha uma opinião sobre ele. Infelizmente para mim, essa imagem ficou. Do ponto de vista político, o que resulta é um dano objetivo e permanente, que faz com que eu pense que não sou uma mais-valia. 

As pessoas abordam-no, na rua, para falar do assunto? 

Com intervenções negativas diretamente não, só em situações de campanha, aí sim. Mas hoje em dia há outras situações. Como a minha cara se tornou conhecida e depois desapareci, as pessoas ficam com a impressão que me conhecem. 'Eu conheço-o, como se chama?', perguntam-me. Uma vez perguntaram-me se não fui eu que fiz umas obras na casa de não sei quem...

Que ambições políticas tinha que foram travadas? 

Não vou fazer aquela figura de dizer que não tinha ambições nenhumas. No fundo, não tinha nenhuma ambição e tinha as ambições todas ao mesmo tempo. Objetivamente, o projeto de construção de um PS mais centrado à esquerda, com a vocação de poder e de projeto alternativo, em que eu podia ter sido uma peça importante na direção de Ferro Rodrigues e tudo o que daí resultasse, foi travado. Essa foi a ambição que foi travada. O resto seriam decorrências, que ninguém sabe quais seriam. O PS que teria sido possível construir a partir da liderança de Ferro Rodrigues não é o Partido Socialista que temos hoje - é um facto indiscutível que o posicionamento que a liderança de Ferro Rodrigues procurava para o PS na sociedade portuguesa não teve continuidade. O posicionamento que o engenheiro José Sócrates deu ao partido não foi o mesmo e, seguramente, o posicionamento que António José Seguro procura para o partido não é o mesmo. Sou socialista, sem estados de alma, mas tenho consciência de que o projeto de PS que podia motivar o meu trabalho a tempo inteiro foi abandonado. 

Tem um novo emprego (assessor técnico internacional do Governo de Timor-Leste). O que faz exatamente?

Foi um contacto que partiu do próprio Governo de Timor-Leste e, basicamente, consiste na criação de um regime de Segurança Social. Estou a ajudar a desenvolver a futura lei da Segurança Social contributiva. Hoje, em Timor-Leste, só existe um regime transitório para os funcionários públicos e, portanto, a restante população não está coberta. Integro a equipa que, no Ministério da Solidariedade Social de Timor-Leste, está a fazer esse trabalho. É um desafio único porque cada país só constrói o seu sistema de Segurança Social uma vez.  

Fixou-se em Timor?

Não, mas trabalho fora de Portugal cerca de metade do ano. Aliás, aqui no ISCTE [onde dá aulas] temos um programa de colaboração com a Universidade Nacional de Timor-Lorosae e também dou aulas lá. A minha vida - e a família - estão em Lisboa e eu vou e venho.  

Mas passa em Timor metade do ano. Como é a sua vida lá?

Timor tem uma comunidade portuguesa muito extensa e não é difícil construir-se uma rede de relações pessoais lá. Resido no Hotel Timor e, nos tempos livres, aproveito para conhecer o país. Em Timor sentem-se as marcas da ocupação e da necessidade de reconstruir. O que é notável é que a geração que lutou pela independência, nas condições mais terríveis, tem conseguido, de modo admirável, construir um país e um Estado. Vimos muitos movimentos de libertação soçobrar na fase da independência. Em Timor conseguiu-se construir um país estável, em que as instituições vão progredindo e vão-se desenvolvendo.  

 

Além desse cargo em Timor, que outras ocupações tem?

Sou professor convidado no ISCTE e consultor em políticas públicas [na PPLL Consult]. Enquanto faço os possíveis para tentar fechar o processo do doutoramento [sobre a construção do sistema de Segurança Social português]. Há um fio condutor - hoje trabalho essencialmente em dois campos: Segurança Social e alargamento da União Europeia.  

Daí os períodos longos em que viveu na Roménia e na Turquia...

Sim, dediquei-me ao processo de preparação da adesão à União Europeia, nomeadamente na gestão de fundos comunitários. 

Esteve quase quatro anos na Turquia. O que fazia exatamente? 

Foi um trabalho que se centrou na montagem da estrutura de gestão do futuro Fundo Social Europeu, ou seja, do fundo de pré-adesão que apoia o desenvolvimento de recursos humanos na Turquia.  

Integrou-se bem no país?

Sim, claro, fiz grandes amigos. Vivi em Ancara, num apartamento. Aprendi pouco da língua, falo turco como uma criança de quatro anos. É uma língua muito difícil, só consigo ter uma comunicação básica. 

Mas o romeno fala bem...

É uma língua latina, é mais fácil [risos]. Nos últimos trabalhos na Roménia, já entregava os relatórios em romeno. 

O seu futuro vai passar por outro país?

Sim, vou voltar à Turquia. Irei em breve trabalhar com a União das Municipalidades turcas - o equivalente à nossa Associação Nacional dos Municípios Portugueses - nos seus serviços de ação social.

Apoia António Costa ou António José Seguro?

António Costa. Há três razões que me levam a pensar que o PS precisa de mudar de liderança. A primeira é o diagnóstico da situação. António José Seguro fez um diagnóstico que assentou em desvalorizar a crise internacional e em valorizar a culpabilização do Governo Sócrates. Essa leitura errada condicionou a sua atuação. Em segundo lugar, Seguro esteve muito mais concentrado numa demarcação entre o novo e o velho PS do que entre a esquerda e a direita, quando o que era preciso era saber qual é a alternativa de esquerda para o desenvolvimento do País. A terceira razão, mais preocupante, prende-se com o facto de António José Seguro ter uma estratégia para o crescimento eleitoral do PS que assenta no populismo (nota-se na reação às eleições europeias, no discurso sobre a justiça, na proposta de redução do número de deputados...). Sob a liderança Seguro, o PS transformar-se-ia num partido populista do centro. É vital impedir que isso aconteça. 

E porquê Costa?

Porque está disponível. E porque, nestas três questões essenciais, António Costa tem uma posição oposta. Ou seja: temos de olhar para as nossas fragilidades estruturais; temos de nos demarcar de um Governo PSD/CDS e não de nós próprios; e temos de construir uma alternativa centrada na construção de um novo modelo de desenvolvimento, aquilo que ele chama a agenda para a década.

Quem gostaria de ver como candidato presidencial do PS?

Não tenho nenhuma dúvida de que, se o engenheiro António Guterres estiver disponível, é, neste momento, o melhor candidato natural da área do PS. Há poucas pessoas sobre as quais eu diria aquilo que digo: se o engenheiro António Guterres quiser ser candidato, eu estou disposto para tudo - até para nada - se ele me pedir.  

O que mais gostou de fazer enquanto ministro do Trabalho?

No fundo, o que eu mais gostei de fazer foi o que fiz antes de ser secretário de Estado ou ministro - criar, do nada, o Rendimento Mínimo Garantido (atual Rendimento Social de Inserção) no prazo de um ano [Paulo Pedroso foi presidente da comissão que lançou o RMG, em 1997]. Desenhámos, do nada, uma medida de política social complexa, cheia de adversários, que se manteve, no essencial, apesar de vários governos a terem tentado asfixiar administrativamente, como este Governo está a tentar fazer. Mas nenhum teve a coragem de a eliminar. Foi o que eu mais gostei de fazer na política. 

Entrevista publicada na Revista VISÃO de 28 de Agosto de 2014.