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Os três "pecados" de Dias Loureiro

Portugal

Foto: José Caria

É associado a "buracos" de largas dezenas de milhões de euros no BPN. Em vez de lucros, as firmas a que se ligou apresentam prejuízos. Agora, para se manter à tona, trabalha para um enteado de Eduardo dos Santos. Afinal, onde vê Passos Coelho o "empresário bem-sucedido"?

O seu currículo político era de luxo: governador civil de Coimbra, secretário-geral do PSD, destacado ministro (primeiro dos Assuntos Parlamentares, depois da Administração Interna) em governos de Cavaco Silva. Até tudo acabar em desgraça para Dias Loureiro, a ponto de, em maio de 2009, sair pela porta pequena do Conselho de Estado, para o qual fora nomeado membro em 2006. Em fundo, um negócio obscuro em que interveio como administrador do grupo SLN/BPN, que resultou num "buraco" superior a €38 milhões, e, após a nacionalização daquele banco, em novembro de 2008, em mais um prejuízo para os contribuintes pagarem. Estávamos, assim, já algo esquecidos da figura, quando, no último Dia do Trabalhador, Passos Coelho atirou Dias Loureiro, 63 anos, de volta para a ribalta. Em Aguiar da Beira, na inauguração de uma queijaria de que é dono um amigo de infância do ex-político, Passos observou Dias Loureiro na plateia e resolveu enaltecê-lo, de "uma forma muito amiga e pessoal". Disse o primeiro-ministro: "Conheceu mundo, é um empresário bem-sucedido, viu muitas coisas por este mundo fora e sabe, como algumas pessoas em Portugal sabem também, que se nós queremos vencer na vida, se queremos ter uma economia desenvolvida, pujante, temos de ser exigentes, metódicos." Ninguém encontra uma justificação objetiva para tamanho elogio. Só se descortina o contrário, em pecados e pecadilhos, como a seguir se relata.

O amigo libanês e os milhões desaparecidos

Como acionista e administrador da SLN/BPN, Dias Loureiro pôs à consideração dos seus pares, em 2001, um negócio milionário. Tratava-se da venda da Redal, que ele mesmo geria em nome do grupo, e que fornecia, em regime de concessão, água e eletricidade à capital marroquina, Rabat. Em campo, a fazer o necessário trabalho de lóbi, estava Abdul El-Assir, um intermediário libanês (de reputação no mínimo duvidosa, ver-se-ia depois) e amigo de Dias Loureiro. Havia pressa e um comprador interessado - a francesa Vivendi. Já após o colapso do BPN, o ex-presidente do banco, Oliveira e Costa, relacionaria, na comissão parlamentar de inquérito, dois negócios. Disse que, com a entrada em cena de El-Assir, houve pressão para que o grupo adquirisse uma tecnológica em Porto Rico, a Biometrics (sem qualquer atividade). Ou essa compra se concretizava, afirmou o ex-banqueiro, ou o amigo libanês de Dias Loureiro deixava de diligenciar em Marrocos para a venda da Redal.

A Redal seria mesmo vendida e a Biometrics comprada, para alegadamente produzir uma nova máquina concorrente das atuais ATM. A SLN adquiriu a tecnológica, depois vendeu-a por um dólar a um fundo do BPN, o Excellence Assets Fund (transação supostamente validada por escrito por Dias Loureiro), para, de seguida, a Biometrics e o fundo serem comprados por uma offshore panamiana de El-Assir chamada La Granjilla.

No fim das contas, desapareceram €38,7 milhões. Aparentemente, sem deixar rasto - e com o Estado a cobrir o "buraco".

Arguido posto em sossego

Em 1 de julho de 2009, Dias Loureiro foi constituído arguido, no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), do Ministério Público (MP). Interrogado pelo procurador Rosário Teixeira, sairia do DCIAP com Termo de Identidade e Residência, optando o MP por não o levar ao juiz de instrução Carlos Alexandre - embora estejam em causa suspeitas da alegada prática dos crimes de burla e falsificação de documentos, no negócio Redal/Biometrics. Logo naquele dia, Dias Loureiro, defendido pelo advogado Daniel Proença de Carvalho, afirmou não ter cometido as ilicitudes que lhe apontam. Agora, quase seis anos depois, a VISÃO tentou saber junto da Procuradoria-Geral da República qual o ponto da situação do inquérito-crime em questão, mas não obteve resposta até à hora de fecho desta edição.

Já a Parvalorem (empresa-veículo criada pelo Ministério das Finanças para gerir os ativos tóxicos do BPN) diz estar em campo com uma "estratégia agressiva" para recuperar o que for possível dos €35,4 milhões (com juros de mora) de empréstimos do banco a três sociedades de El-Assir (La Granjilla, Miraflores e Gransoto), nunca pagos pelo amigo libanês de Dias Loureiro. A atuação incide em operações de resgate por execução hipotecária de imóveis em Espanha (dois em Madrid e um em Cádis), através das quais a Parvalorem espera recuperar 59% do valor dos créditos concedidos pelo BPN em novembro de 2002 às sociedades detidas ou controladas por El-Assir, e que o libanês se esqueceu de pagar. Saldam-nos os contribuintes portugueses.

Sabe-se que investigadores tentaram penhorar Dias Loureiro. Mas, analisando o seu património, terão encontrado imóveis registados em nome de familiares ou de empresas sediadas em offshores. Mesmo as contas bancárias do ex-conselheiro de Estado não ultrapassariam, em saldos médios, os cinco mil euros.

'SOS' a Eduardo dos Santos

"Empresário bem-sucedido"? Vamos ao concreto - e os prejuízos acumulam-se. A DL-Gestão e Consultadoria, a holding pessoal de Dias Loureiro (de que é administrador único e não tem registo de funcionários), declarou vendas, em 2013, de €124 mil, 97% das quais realizadas no exterior. O prejuízo, porém, ascendeu a €253 mil, superando duas vezes o valor das vendas. E o passivo atingiu €2,2 milhões. A DL é acionista minoritária, com 27%, da Cartrack Capital, SGPS, e da Cartrack Europe, SGPS, ambas com sede no Estoril (Cascais) e vocacionadas para o rastreio e recuperação de carros roubados. ?A primeira, criada em 2009, não teve atividade comercial em 2013, ano em que declarou prejuízos de €317 mil.

Aliás, em 2013, Dias Loureiro está em Luanda, sendo recebido pelo Presidente Eduardo dos Santos, à semelhança dos outros membros da denominada Iniciativa de Cooperação para a Bacia do Atlântico. A seu lado encontrava-se Tito Mendonça, enteado de Eduardo dos Santos e filho de uma relação anterior da terceira mulher do líder angolano, Maria Luísa Abrantes, atual presidente da crucial Agência Nacional para o Investimento Privado (ANIP). Da relação Eduardo dos Santos/Maria Luísa Abrantes nasceriam Paulino dos Santos (ou Coréon Dú, na sua faceta artística de cantor) e Welwitschea dos Santos (Tchizé).

Em março de 2014, Dias Loureiro tornou-se administrador da Lagoon, SGPS, SA, presidida por Tito Mendonça (irmão de Paulino dos Santos e Tchizé, todos com negócios em conjunto). Ou seja, o ex-conselheiro de Estado move-se agora no inner circle de Eduardo dos Santos, e tem o trunfo da proximidade à influente presidente da ANIP. No início desta semana, Dias Loureiro confessava, ao Expresso Diário, que atualmente passa "a maior parte do tempo" em Luanda. Pudera!