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"Os partidos de esquerda sempre tiveram mais medo dos partidos de esquerda do que dos partidos de direita"

Portugal

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O sociólogo Boaventura Sousa Santos é um dos promotores do encontro de dia 30 de maio na Aula Magna, "Libertar Portugal da austeridade", que junta PS, PCP e BE. À VISÃO explica o que espera, e o que deseja, desta iniciativa

Depois de várias tentativas, mais ou menos frustradas, este é o primeiro encontro "oficial" dos principais partidos da esquerda. Este encontro vale pelo simbolismo, ou vê nele o início de um caminho de convergência?

BSS: Não se trata de um encontro de partidos de esquerda. Trata-se de um encontro de cidadãos e cidadãs, a esmagadora maioria sem filiação partidária, como é o meu caso, a que se juntam os partidos de esquerda e de centro-esquerda. Une-os a todos a convicção de que estamos já a viver numa ditadura do capital financeiro de que é agente ativo o atual governo, apesar de ter sido democraticamente eleito. Desde o 25 de Abril nunca um governo violou tão grosseiramente os direitos dos cidadãos e o fez com tanto brutalismo político. Ou seja, com a arrogância própria de um governo que não depende de quem o elegeu e sim dos "mercados" que lhe dão ordens e que ele aceita com indisfarçável gosto. Esta convergência tem alguma semelhança com a convergência anti-fascista e marca o início de um tempo de democracia participativa, feita nas ruas e nas praças, com o objetivo de forçar os partidos de esquerda e centro-esquerda a assumirem riscos e atuarem no pressuposto de que a alternância chegou ao fim. Agora há que lutar pela alternativa.

O que devem os eleitores de esquerda esperar?

BSS: Exatamente que os partidos de esquerda, sobretudo o PS, concluam que: o neoliberalismo de rosto humano nunca existiu; o pacto que no pós-guerra permitiu alguma compatibilidade entre democracia e "mercados" terminou precisamente com o advento do neoliberalismo; atualmente a lógica dos "mercados" financeiros e lógica da democracia são inconciliáveis; os resgates financeiros não resgatam o país, resgatam os bancos afundando o país; perante isto, a única opção digna desses partidos é a opção pela democracia; todos os riscos que essa opção envolve são menos graves que o risco de empobrecer o país por décadas para enriquecer banqueiros nacionais e estrangeiros. 

De que forma é que esta iniciativa se conjuga com outras, como o Congresso Democrático das Alternativas?

BSS: O Congresso tem sido um notável laboratório de ideias e de políticas sectoriais pautadas pela prevalência da lógica da democracia sobre a lógica do capital financeiro. Para que essas ideias e políticas se transformem em programas de governo é preciso que haja actores políticos capazes de lutar por elas e as levar à prática. A iniciativa da Aula Magna e outras que se seguirão visam construir essa capacidade de acção política.

Na sua opinião, o que deveria cada um dos partidos ceder numa tentativa de aproximação?

BSS: Não se trata de ceder. Trata-se de assumir que estamos a entrar num novo ciclo político e que situações novas têm de ser enfrentadas com soluções novas. O paradoxo da democracia representativa é ser o regime político muito dúctil e assentar em estruturas políticas que tendem para a rigidez e, por vezes, para a corrupção. Por isso, as realidades democráticas ficam sempre muito aquém das possibilidades democráticas. A aproximação entre os partidos de esquerda nunca resultará de cedências mas antes de exames e conflitos internos que permitam assumir erros passados e mudar de rumo. Os desafios são distintos para os diferentes partidos. O PS tem de concluir que a política de alternância terminou. Se insistir nela, em breve saberá que não há qualquer distinção entre ter maioria absoluta e coligar-se com um partido de direita. Serão ambas soluções suicidas. O PCP e o BE têm de assumir que foram ignorantes ao não distinguir entre diferentes graus de submissão financeira e sectários, ao assumirem que o que o PS, por miopia e degradação da liderança, era levado a fazer tinha a mesma qualidade política do que o que a direita ideológica há muito queria fazer e apenas espreitava a oportunidade para o concretizar. Mas o mesmo esforço de reexame deve ser pedido às organizações sociais. Nas actuais circunstâncias, quando o ataque aos direitos dos trabalhadores deixou de respeitar os mínimos de civilidade, há alguma razão para termos duas centrais sindicais?

Os nomes escolhidos pelos partidos para discursar (Cecília Honório, BE; João Ferreira, PCP e Ramos Preto, PS) não são dirigentes de "primeira linha". Isto representa uma desvalorização do encontro?

BSS: Em certa medida, sim. Mostra que estão atrasados no enfrentamento dos desafios que identifiquei acima. A democracia portuguesa que saiu da Revolução dos Cravos tem uma tripla marca genética: não há democracia sem Estado social; uma grande desconfiança em relação à participação política activa dos cidadãos para além dos partidos, nomeadamente através de mecanismos de democracia participativa (referendos, conselhos de controle cidadão, intervenção política de independentes, orçamentos participativos); os partidos de esquerda sempre tiveram mais medo dos partidos de esquerda do que dos partidos de direita. A primeira marca levá-los-ia a afoitarem-se nesta iniciativa; as outras duas marcas leva-os a retraírem-se.