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Objetos com História no café Vá-Vá

Portugal

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O movimento cívico Não Apaguem a Memória promove, no dia 16 de março, às 16 horas, no histórico café Vá Vá, mais uma tertúlia, desta feita objetos que sirvam de mote para a partilha de recordações sobre os anos de chumbo do antigo regime

Os ativistas do movimento Cívico Não Apaguem a Memória são convidados a apresentar, no próximo sábado, dia 16 de março, a partir das 16 horas, em mais uma tertúlia mensal, no histórico café Vá Vá, objetos que sirvam de mote para a partilha de recordações sobre os anos de chumbo do antigo regime.

O encontro, marcado para um local que já na década de 60 juntava intelectuais e artistas contestatários do salazarismo, promete transformar-se num desfiar de memórias em torno dos objetos em exposição cujos detentores consideram terem tido um significado especial na sua vida de combatentes antifascistas.

O Movimento Cívico Não Apaguem a Memória visa recordar e homenagear os defensores da liberdade democrática e da justiça social, durante a ditadura. Todos os meses são organizadas tertúlias (geralmente no primeiro sábado de cada mês), nas quais se revivem episódios relacionados com esse período.

"Notícias sem censura" 

Manuel Alegre foi um dos oradores no encontro de Fevereiro

Manuel Alegre foi um dos oradores no encontro de Fevereiro

Depois da conversa sobre "Exílios", em janeiro, realizou-se no dia 2 de fevereiro, um debate subordinado ao tema "Notícias sem Censura", também no Café Vá-Vá, durante o qual os intervenientes contaram histórias acerca de vários órgãos de informação clandestinos. Muitos portugueses iam tomando conhecimento dos acontecimentos ligados à luta contra o regime salazarista e à guerra colonial através destes meios de comunicação perseguidos pela polícia política.

Manuel Alegre, locutor, entre 1964 e 1974, de outra rádio clandestina, a Voz da Liberdade, sedeada em Argel, onde se encontrava exilado, contou que recebia cartas das comunidades portuguesas de todo o mundo, de pessoas "sedentas de informação sobre o que se passava em Portugal. E recordou, com uma mal disfarçada emoção, as entrevistas que então fez, aos líderes dos movimentos africanos de libertação, Amílcar Cabral, da Guiné e Cabo Verde, Agostinho Neto, de Angola, e Samora Machel, de Moçambique, entre outros.

A atuação de Alegre naquele período foi objeto, aquando da candidatura do antigo deputado do PS à Presidência da República, de denúncias segundo as quais, a rádio A Voz da Liberdade, teria alegadamente emitido informações sobre as operações das forças armadas portuguesas nos territórios ultramarinos, pondo assim em perigo a vida dos respetivos soldados. No entanto, conforme afirmou o poeta na tertúlia, foi por ele próprio, recentemente, instaurado um processo por difamação contra os militares Paula Vicente e José Brandão Ferreira e o jornal O Diabo, autores das acusações. O julgamento está marcado para janeiro de 2014.

Já Margarida Tengarrinha recordou como, nos anos 60, os clientes de uma loja de material radiofónico, em Beja, diziam ao proprietário o que pretendiam comprar : "Quero uma telefonia onde se oiça a voz da menina.". Tratava-se de um aparelho em que fosse possível sintonizar a Rádio Portugal Livre, um posto emissor clandestino, ligado ao PCP, que transmitia para Portugal, a partir de Bucareste, Roménia, e cuja locutora, a jovem Veríssima Rodrigues, "tinha uma linda voz cristalina".

Margarida Tengarrinha, que colaborou no Avante!, ainda hoje órgão oficial do PCP, após 43 anos de clandestinidade, também revelou que a Rádio Portugal Livre divulgava as matrículas dos carros da PIDE, para proteção dos opositores ao regime.

Mais tarde, havia de passar das rádios para a imprensa proibida: "Sabem porque é que o Avante! saía sempre, mesmo quando a PIDE apreendia uma tipografia?" perguntou aquela antiga dirigente do PCP às cerca de 70 pessoas que participaram na sessão. E respondeu: "Porque cada edição do jornal era produzida simultaneamente, no Sul e no Norte do País." E acrescentou: "É claro que se uma das tipografias era saqueada pela polícia política, a outra tinha que trabalhar a dobrar."  

Outro jornal clandestino, surgido em 1970, de linha política maoista, foi o Luta Popular, do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP), de que Sebastião Lima Rego era, segundo contou, o único redator. "Éramos poucos e eu cheguei a escrever sozinho números inteiros. Um dia, Arnaldo Matos, o principal dirigente do movimento, disse-me.'Parabéns! Foram muitos os camaradas que elogiaram a coerência dos textos da última edição do nosso jornal. Um deles disse que até parecia feito por uma única pessoa' Pudera!."