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O novo senhor Bilderberg

Portugal

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Durão Barroso vai ocupar o lugar de Francisco Pinto Balsemão no comité de diretores de um dos clubes mais influentes e secretos do mundo: o Bilderberg. Mas o ex-líder da Comissão Europeia é um homem da casa

No dia 11 de junho, quando entrar na sala do Hotel Interalpen, nos Alpes austríacos, para participar na 63.ª reunião do Clube Bilderberg, José Manuel Durão Barroso não será um desconhecido nem para os convidados, que seguiram o seu percurso na presidência da Comissão Europeia, nem para o conselho de diretores (steering committee) do grupo, que chegaram a escolhê-lo para orador. Na verdade, esta será a quinta ou sexta presença (há informações dúbias sobre o ano de 2007) do antigo primeiro-ministro naquele fórum, lado a lado com alguns dos homens e mulheres mais influentes do mundo. A primeira de todas foi em 1994, ainda como ministro dos Negócios Estrangeiros. Tinha 38 anos.

Francisco Pinto Balsemão tomou a decisão de abandonar a direção do clube aos 77 anos, 33 reuniões e mais de 30 anos depois de ter iniciado funções, e escolheu Durão Barroso, de 59, para seu sucessor. "Achei que era altura de dar lugar a outro português", disse, sem mais explicações, o militante número 1 do PSD, que cumpriu oito mandatos de quatro anos, tornando-se um dos membros mais antigos do comité.

A passagem de testemunho era fácil de prever. "Eles têm uma relação próxima, fruto de admiração mútua. Por isso, para mim, faz todo o sentido. Não haveria outro português melhor para ser escolhido", reflete Nuno Morais Sarmento, ex-ministro da Presidência e ele próprio um 'bilderberger'. Acresce que de acordo com listas oficiosas de participantes, nenhum outro 'bilderberger' português, à exceção do próprio patrão da Impresa, participou em tantas reuniões como Durão.

Vítor Constâncio foi três vezes convidado (duas delas antes do consulado Balsemão, 1978 e 1979). E só outros sete portugueses é que repetiram a proeza, entre eles Medeiros Ferreira (1977, 1980 e 1981), António Guterres (1990 e 2005) e Ricardo Salgado (1997 e 1999).

No livro O Último Banqueiro lê-se que o fundador destes encontros, Bernardo da Holanda, era "visita assídua em casa de Manuel Espírito Santo, o tio-avô de Ricardo Salgado, que liderou o BES até 1973". Manuel foi, aliás, um dos únicos três portugueses que, antes de 1974, participou nestas reuniões.

A origem do grupo

As cimeiras deste clube de poderosos a quem já chamaram um "governo-sombra mundial" começaram na Holanda, em 1954, no Hotel Bilderberg (é daí que vem o nome). Na página oficial do grupo na internet lê-se que "Bilderberg é uma conferência anual de três dias que fomenta o diálogo entre a América do Norte e a Europa".

Ano após ano, uma média entre 120 ou 150 chefes de Estado, governantes, militares, empresários, banqueiros, jornalistas e até ambientalistas juntam-se neste fórum para discutirem temas atuais, "de dimensão internacional", como diz Morais Sarmento. Sempre com um grau de interesse superior. "O nível de informação de cada um dos presentes é a garantia de que qualquer tema ali discutido vai ter interesse, dimensão e novidade."

As reuniões são restritas, não implicam votações ou quaisquer resoluções políticas e o seu conteúdo é secreto. A regra de sigilo que se aplica a Bilderberg chama-se ?Clatham House Rule e diz que "os participantes são livres para usar a informação recebida, sem revelar a identidade do orador ou de qualquer outro participante".

Em fevereiro de 2010, foram divulgadas as listas, ano a ano, com os nomes de todos os participantes nos encontros, desde sempre, e respetivos locais das reuniões. A recolha da informação foi feita por investigadores de um site chamado Public Intelligence. Os nomes são imponentes: Christinne Lagarde, Jean Claude-Trichet, Mario Draghi, Bill Clinton, Tony Blair, Paul Wolfowitz, Bill Gates, Margaret Thatcher, David Cameron, Gerard, Schröeder, John Kerry, Angela Merkel, entre muitos outros. E alguns são repetentes.

Durante muitos anos, as reuniões de Bilderberg eram secretas, mas atualmente já são divulgados os pontos de ordem dos encontros.

A reunião portuguesa

Foi só a meio dos seus mandatos que Francisco Pinto Balsemão conseguiu trazer os 'bilderbergers' a Portugal. O encontro realizou-se de 3 a 6 de junho de 1999, no Hotel Penha Longa (Sintra). Ao todo, foram dez os portugueses a participar na cimeira. Como sempre, o autor dos convites [Balsemão], esforçou-se por ter personalidades do arco da governação e dos setores mais proeminentes da sociedade, em equilíbrio.

Daniel Estulin, um jornalista espanhol que editou um livro com as suas teorias da conspiração sobre o clube, diz que o militante número um do PSD é "o mais importante 'bilderberger' português" e um "membro-chave do comité de decisão" do clube. "Presidentes e primeiros-ministros vão e vêm, mas Balsemão permanece", disse Estulin em entrevista ao jornal Semanário, em 2006.

Morais Sarmento conta que Durão Barroso costumava dizer, ainda antes de chegar à Comissão Europeia, que havia alguns portugueses importantes na cena internacional por circunstâncias políticas, outros económicas, mas que nenhum existia, lá fora, como Balsemão.

'O senhor Bilderberg' português não costuma falar sobre o assunto. Mas em 2013, no programa da SIC Quem Diria, explicou os critérios subjacentes à escolha dos convidados. "Cada membro do comité diretor tem os critérios. Procuramos convidar pessoas que ou já têm influência ou que nós entendemos que poderão vir a ter relevância política, social, cultural", justificou.

A verdade é que todos os que, em Portugal, foram, são ou têm perspetivas para virem a ser alguém relevante passaram por uma reunião do Clube Bilderberg. É preciso muito faro para escolher os convidados. "Estou certo de que Durão Barroso também vai ter a sensibilidade para saber fazer essa leitura", antecipa Nuno Morais Sarmento.

Ausências notadas

Ainda na SIC, Balsemão confidenciou que o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho já foi convidado para uma reunião, mas "não pôde ir". O mesmo confirma o ex-líder da JSD na sua mais recente biografia consentida 'Somos o que escolhemos ser', da autoria de Sofia Aureliano.

Desde 1983, altura em que o patrão da Impresa entrou para o clube, só outros dois primeiros-ministros (além de Passos) não foram a Bilderberg: Mário Soares e ?Cavaco Silva. O que não deixa de ser estranho, já que vários ministros dos seus governos passaram por lá.

Carlos Pimenta, ex-eurodeputado e antigo secretário de Estado do Ambiente, foi um dos governantes cavaquistas a ir a uma reunião, em 1991, em Baden Baden, na Alemanha. "Participei numa reunião há 25 anos. O mundo mudou tanto (ainda existia União Soviética nessa altura) que as minhas memórias já são só isso mesmo, memórias", disse à VISÃO, que lhe pediu um testemunho sobre o novo senhor Bilderberg.

Sobre Balsemão, Carlos Pimenta ainda acrescentou que é "das figuras públicas" que mais admira em Portugal, como tem dito em várias ocasiões. E escusou-se a qualquer outro comentário. "Mais não gostaria de dizer, pois entraríamos num campo meramente subjetivo."

Considerações sobre o clube

Outro português 'bilderberger', Marcelo Rebelo de Sousa, falou sobre o clube em 2011, respondendo a questões dos telespetadores do canal TVI24. "Fui convidado, tal como dois gestores portugueses, quando era presidente do PSD. Sei que antes de mim tinha sido convidado António Guterres e sei que líderes da oposição, primeiros-ministros e figuras da vida económica e empresarial também têm sido convidadas".

Sobre os objetivos das reuniões, Marcelo disse apenas que a ideia é conhecer melhor quem tem protagonismo em cada país e permitir-lhe participar em debates interessantes sobre a atualidade. "Perguntam: há qualquer coisa de especial, de patológico, que se passe? Eu não notei. Fica algum vínculo de rede americana? Também não notei."

A contrariar a ideia de que há uma rede viva a ligar os 'bilderbergers', António Nogueira Leite, que participou no encontro de 2011, assume à VISÃO que ainda "não fazia ideia da saída do dr. Balsemão". Sobre o sucessor, não tem reservas. "De qualquer modo, a indicação do dr. Barroso parece-me particularmente acertada, em função do seu vasto curriculum na cena internacional."

O novo 'senhor bilderberg' português toma posse na próxima reunião do clube, de 11 a 14 de junho, nos Alpes.

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Lista de todos os portugueses que participaram nas reuniões do clube desde 1983: Só Balsemão esteve em todas. A informação, oficiosa, é do site Public Intelligence

1983: Bernardino Gomes, Rogério Martins e José Luiz Gomes 1984: André Gonçalves Pereira e Rui Vilar 1985: Torres Couto e Ernâni Lopes 1986: Leonardo Mathias e Artur S. Silva 1987: José Eduardo Moniz e Faria de Oliveira 1988: Vítor Constâncio e Lucas Pires 1989: Rui Machete e Jorge Sampaio 1990: João de Deus Pinheiro e António Guterres 1991: Carlos Monjardino e Carlos Pimenta 1992: António Barreto e Roberto Carneiro 1993: Nuno Brederode Santos e Faria de Oliveira 1994: Durão Barroso e Miguel Veiga 1995: Mira Amaral e Maria Carrilho 1996: Margarida Marante e António Vitorino 1997: António Borges e Galvão Teles 1998: Vasco Pereira Coutinho, Marcelo Rebelo de Sousa e Miguel Horta e Costa 1999: Ferreira do Amaral, João Cravinho, Marçal Grilo, Vasco de Mello, Murteira Nabo, Ricardo Salgado, Jorge Sampaio, Artur S. Silva e Nicolau Santos 2000: Teresa Patrício Gouveia 2001: Guilherme d'Oliveira Martins e Vasco Graça Moura 2002: António Borges e Elisa Ferreira 2003: Durão Barroso e Ferro Rodrigues 2004: P. Santana Lopes e José Sócrates 2005: Nuno Morais Sarmento, António Guterres e Durão Barroso 2006: Aguiar Branco e Augusto Santos Silva 2007: Leonor Beleza e Durão Barroso (não confirmado) 2008: Rui Rio e António Costa 2009: Manuela Ferreira Leite e Manuel Pinho 2010: Paulo Rangel e Teixeira dos Santos 2011: António Nogueira Leite e Clara Ferreira Alves 2012: Luís Amado e Jorge Moreira da Silva 2013: Paulo Portas e António José Seguro 2014: Paulo Macedo e Inês de Medeiros