Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Miguel Portas na primeira pessoa

Portugal

  • 333

Numa entrevista publicada na VISÃO, em Julho de 2008, Miguel Portas falava de política. Mas também se expunha, falando de si e do que lhe ia na alma. Leia a VERSÃO INTEGRAL da entrevista e VEJA O VÍDEO COM FOTOS E EXCERTOS

"O comunismo é uma grande religião"

 

"Gente que não soube fazer outra coisa se não da política uma carreira, é gente que jamais perceberá porque é que a política é necessária a outros e não apenas a eles próprios". Foram palavras de Miguel Portas, numa entrevista, marcada para uma tarde de sexta de maio de 2008 e que terminou já com a sala, virada a sul, a receber os últimos raios de sol do dia. Portas comemorara, dias antes, o seu 50.º aniversário, celebrado no primeiro dia daquele mês. Uma data que, aliás, lhe assentou como uma luva.O jornalista emprestado à política para uma comissão de serviço falou de política, oposição renhida que, em Bruxelas, fazia a uma Europa fortaleza que transformou o Mediterrâneo, o seu Mediterrâneo num muro intransponível e num imenso cemitério. Contou a história da boleia que apanhou para França e refletiu sobre religião, sobre o marxismo e sobre a vida em geral. Eis o registo de uma conversa que deixou saudades. 

A "Directiva do Retorno", relativa a imigrantes ilegais, é uma vergonha para a Europa do século XXI, como diz Gaspar Llamazares, da Esquerda Unida espanhola?

Sem dúvida. Que outra classificação é possível, quando ela permite a detenção de pessoas, maiores ou menores de idade, até 18 meses, sem que tenham cometido qualquer crime, que não o de lutarem pela vida?



Vem aí a Europa-fortaleza?

Ela tem sido isso. Essa uma das razões porque há tantos indocumentados. O mediterrâneo foi transformado num imenso muro e num cemitério. Esta directiva prevê o reforço dos 197 centros de detenção que já existem. Classificam-nos de "especializados". Conheço alguns e posso afirmar que são melhores as prisões. Na ilha de Lampedusa, nem água potável tem. Não é século XXI, é século XIX...  

Prometer fronteiras abertas a toda a gente, como acusa o líder do CDS-PP, seria uma alternativa de esquerda?

Antes de agitar fantasmas, a direita deveria saber que o direito à mobilidade está na Declaração Universal dos Direitos do Homem, subscrita por todos os Estados. Também não lhe ficaria mal reconhecer que esta é a posição das igrejas cristãs. Porque há de ser livre a circulação de capital e mercadorias e não a das pessoas? De qualquer modo, a acusação não tem sentido. A Europa precisa de muitos mais imigrantes e sabe-o. O que faz é seleção. És árabe, preto e de África, não queremos. És alto, louro e licenciado, vem daí. O movimento de entradas e saídas pode e deve ser regulado, mas na base do reconhecimento do direito à mobilidade. Se, em vez de uma política de seleção e expulsão, tivéssemos uma que gerisse fluxos nas duas direções, assente em fortes políticas de cooperação e desenvolvimento, estaríamos bem melhor. E os imigrantes, também. Muitos poderiam, até, ficar nas suas terras, que ninguém parte se não precisa.    

O Bloco está preparado para governar?

O Bloco está preparado para se afirmar como alternativa de governo aos governos que temos tido e em particular a este último. Parafraseando Honório Novo, como as coisas estão, temos mesmo que nos preparar para um dia governarmos. As pessoas já conhecem os resultados daqueles que pensam estarem "preparados para governar". Venham, portanto, os que não estão, que nada se perde e algo se ganha...  

E a relação do Bloco com o PCP. Pode haver convergência à esquerda?

O Bloco e PC convergem nas críticas à política que existe, mas têm mais dificuldade em convergir sobre as políticas que respondem à crise. Por exemplo, continuam a existir opiniões muito diferentes sobre a forma de Portugal estar na Europa, sobre a própria Europa e diferenças de prática que não sendo inultrapassáveis, são substantivas. Isso levará o seu tempo e não se resolve com passos de mágica. Espero que se resolva, um dia. Não se trata de operar cozeduras artificiais que depois não têm consistência.  

Saiu há 17 anos do PCP [esta entrevista foi conduzida em Maio de 2008], quase tantos quantos militou nele, por causa de divergências...

Sempre fui do Partido Comunista Português, apesar da União Soviética e não por causa da União Soviética. Era uma pessoa muito crítica do socialismo real e das experiências do socialismo de Leste. Sempre foram conhecidas as minhas opiniões sobre a invasão da Checoslováquia, por exemplo. No PC, como provavelmente no Bloco, nunca fui o que se pudesse chamar um militante ortodoxo, embora tivesse tido os meus períodos de ortodoxia. Dentro do PC, sempre defendi o que achei que devia defender e nunca ninguém me calou o bico por causa disso. Mas também, verdade seja dita, numa me ligaram mais por causa disso.  

O que aconteceu?

Quando começaram os movimentos críticos do PC, estive nesses movimentos, para tentar renovar ou refundar o comunismo. E houve um certo momento, que coincidiu com o golpe de Moscovo [1991], onde a posição tomada que a direção do PC toma estava para lá de tudo o que me parecia razoável. Depois, o comité central decidiu expulsar os quatro que estiveram na mesa [de uma assembleia de críticos, entre eles Barros Moura] e não os que estavam na plateia. Isso suou-me como um dobre de finados, não só por causa da lógica de irradiação subjacente, mas, principalmente, pela tentativa de separar os que estavam na mesa dos outros, como se estes tivessem ido ao engano. Com 18 anos de militância, achei que chegara o momento de escrever uma carta de adeus a dizer: "até à próxima curva". E cá estamos nas próximas curvas...  

Ainda é comunista?

Sou comunista no sentido de que continuo a pensar que é possível ao homem, construir uma sociedade de abundância em que o Estado seja dispensável e em que a sociedade seja capaz de se organizar e de se auto-administrar, distribuindo essa abundância de forma igualitária para que cada um possa seguir os seus caminhos ao longo da vida sem atropelar o próximo. É essa a ideia de que é possível um outro mundo assente, não na propriedade, na posse ou no que se tem, mas no que se pode ser, que preside ao comunismo e, também, ao anarquismo, bem como a todas as utopias passadas. Podemos ir a Thomas More, Campanela e boa parte do cristianismo primitivo. E muito antiga. Ela teve no século XIX e no século XX uma expressão e um nome. E terá, no futuro, outros nomes.  

Nos dias de hoje há, portanto, lugar para as utopias.

Preciso dessa dimensão utópica, para que as propostas que tenho para os nossos dias não sejam apenas propostas para melhorar o que tenho hoje. Mas que sejam propostas que possam mudar o sentido da política e levar as pessoas a participarem na construção de valores que possam ajudar a construir uma sociedade assente em valores diferentes dos atuais. O nome que damos a essa sociedade preocupa-me pouco. Não é nada que me tire o sono. Não penso é que as utopias justifiquem o que se fez em nome delas. Aprendi-o com a minha própria construção crítica no comunismo e no marxismo. Penso que o modo como atuamos hoje define muito mais o onde chegamos e o que somos do que o "amanhã que lá canta".  

Isso soa um bocado reformista...

A polémica sobre reforma e revolução está em larga medida ultrapassada. Não conheço, hoje, nenhum revolucionário que não lute por boas reformas. Estamos numa situação de tal regressão imposta pelo triunfo das políticas neo-liberais em que as reformas pelas quais a social-democracia se bateu no princípio do século XX - em matéria de trabalho, Estado social e direitos etc. - adquirem quase que uma dimensão revolucionária. Portanto, infletir o sentido da política é dizer que é possível um Estado capaz de redistribuir a riqueza e não a pobreza. É dizer que possível reinventar o valor do trabalho e dar-lhe dignidade. É sustentar que é possível uma sociedade onde a coesão da comunidade consegue coexistir com a liberdade de escolha individual.  

Isto é um programa socialista! E como se luta por um programa socialista?

Com todos os instrumentos que temos ao dispor num contexto concreto e preciso. As manifestações, por exemplo. Queremos liberdades, exercemo-las; queremos organização comunitária, procuramos organizar comunidades (sejam de trabalhadores, de estudantes, de habitantes); queremos mudar a política, batemo-nos nas eleições para fazer crescer essas ideias. O que é que não tem sentido é pegar em armas. Mas nem sempre foi comunista. Já foi católico.  

Aos 12 anos fugiu de casa para ir à missa...

Não fugi de casa. Digamos que decidi ficar em casa porque queria ir à missa. Era um miúdo bastante católico e gostava particularmente das missas da Igreja de Santa Isabel, que, na altura, tinham música e canto. E, portanto, resolvi ir à missa sem autorização da minha mãe que me tinha deixado em casa. Bastante mais sensata que eu, achava que se eu quisesse ir à missa, iria depois de ela voltar da praia.  

E deixou um recado à mãe... Deixei um bilhetinho. Não será dos bilhetes que mais me orgulho ao longo da vida. Mas lá que lho deixei, deixei.  

E o que dizia? Que entre a minha mãe e Deus, escolhia Deus. Enfim, muitas vezes os filhos dizem às mães coisas que não devem e essa foi seguramente uma delas [Risos].  

E, pouco depois, quando desperta para a política, decide sair do colégio São João de Brito, dos jesuítas?

Sim. Essa saída prende-se já com o nível de politização em que eu estava.

E isso foi com que idade?

Foi na passagem do ensino preparatório para o liceu. Teria uns 12 anos. Disse à minha mãe, que era com quem eu vivia na altura, que queria ir para o Passos Manuel, um liceu público e um dos poucos que não era de meninos ricos. As pessoas hoje já não se lembram, mas, na altura, o ensino secundário ainda bastante elitista. A esmagadora maioria dos miúdos com a minha idade não passava da primária ou do preparatório. 

E, depois, foi expulso do Passos Manuel...

Fui suspenso primeiro, porque tinha de ser. A professora não podia fazer outra coisa. Não havia alternativa.  

Como é que isso aconteceu?

A professora de Português achou por bem que a turma podia ter o seu jornal de parede. E esses jornais de parede, tinham coisas interessantes e coisas menos interessantes. Dependia do que os alunos queriam escrever. E eu terei escrito uma redação sobre o 1º. de Maio, que a professora não podia ter deixado passar. E eu fui indelicado com ela - e, agora, estou a ser parcimonioso com o que lhe terei dito. Portanto, ela teve de fazer a participação e apanhei uma suspensão de dois dias. Muitos anos depois, já no Bloco de Esquerda, vim a encontrá-la numa sessão, em Oeiras, em que ela me quis dar um abraço. Nem do meu lado nem do dela ficou qualquer sentimento de injustiça. À custa de dois dias de suspensão, comprovei que o fascismo não permitia a liberdade de expressão. Fui, de facto, aconselhado a mudar de liceu no ano seguinte.  

Para onde foi a seguir?

Para o Pedro Nunes, que apesar de ser perto de casa, era um liceu de estatuto social mais elevado. Aí apanhei um mau a comportamento e mais uma suspensão. O mau veio na sequência de uma greve de silêncio que eu e outro colega tínhamos dinamizado na turma contra dois professores. Ambos apanhámos mau. Ele foi imediatamente expulso.  

E o Miguel não foi? 

Não. A minha mãe resolveu exercer alguma influência sobre o reitor. Coisa, que aliás, deu alguma irritação minha. Tive uma dificuldade enorme em aceitar essa atitude da minha mãe. Depois apanhei mais uma suspensão, mas essa sem qualquer tipo de justificação. E acabei por voltar ao Passos Manuel, onde sou apanhado no 25 de Abril. Nunca tive chumbos mas tive de andar a mudar de Liceu em Liceu.  

E leituras nessa época? Lia o que os outros miúdos liam, aventuras e essas coisas?

Suspeito que me pus a ler Marx, quando devia andar a ler a Enid Blyton [Risos]. Desde muito cedo me meti em leituras - que, para ser inteiramente franco, não estaria em idade de poder compreender plenamente. Essas leituras começam à volta dos temas da fé.Lembro-me perfeitamente de ter lido, com uns 12 anos, o Porque não sou Cristão do Bertrand Russel, por exemplo. Depois faço um conjunto bastante alargado de leituras marxistas. Isso tinha a ver com a necessidade que eu sentia de tentar perceber o mundo, a mim mesmo e a mutação pela qual estava a passar: do catolicismo para o cristianismo e deste para o marxismo.  

E essa transição foi natural?

Foi uma transição regrada pela dupla vontade de perceber as coisas e uma busca de verdade e de coerência pela qual passaram muitas pessoas. Muitos vieram ao marxismo a partir de crises de fé ou convicção de natureza religiosa. Tive uma relação com o comunismo que foi, durante muitos anos, marcada por aquilo a que se poderia chamar a fé.  

Aos 15 anos começou a militar na União de Estudantes Comunistas (UEC) e esse activismo levou-o a ser preso pela Pide.

Foi uma detenção - não gosto de aplicar a palavra prisão. Em dezembro de 1973, estávamos 150 estudantes do ensino secundário reunidos numa assembleia de estudantes na Faculdade de Medicina, no Hospital de Santa Maria, na sala 7 de Maio. O hospital foi cercado pela polícia e fomos todos dentro. Primeiro para a António Maria Cardoso, depois para o governo civil. Os mais velhos, que já tinham idade, ainda foram dar com os costados uma ou duas semanas a Caxias. Essa detenção teve, apesar de tudo, vários significados.  

Quais?

No dia seguinte, por exemplo, os estudantes do padre António Vieira fizeram a sua primeira manifestação de rua, em solidariedade com os detidos. Ao mesmo tempo, a detenção irritou franjas e setores do próprio regime. Alguns dos detidos eram oriundos de boas famílias e essas famílias não gostaram de ver os filhos detidos e, principalmente, de os verem chegar a casa de cabelo rapado [a polícia rapou o cabelo aos rapazes]. Tal como não gostaram de ver as filhas metidas em celas com detidas de delito comum. E, portanto, equiparadas a prostitutas ou ladras. Na altura, isso foi complicado para o próprio regime. Mas era o regime já no seu estertor.  

Depois foi viver com o pai. A dada altura, diz que ele lhe pagou, mais do que os estudos, a militância - uma espécie de "imposto revolucionário".

Foi outra graça com uma parte substantiva de verdade. Pertenço a uma geração que, estando ainda nos liceus, dividia o seu tempo entre o que tinha de ser - o estudo (estava obrigado a passar de ano) - e o que era uma vida de ativista associativo e estudantil bastante intensa. Frequentei a universidade ao mesmo tempo que trabalhava, pelo menos parte do tempo (a outra parte foi a fazer a tropa). Mas a verdade é que o meu pai acabou por financiar, de uma maneira ou de outra, alguma da minha atividade militante. E, quando perdi um ano, ele aí disse que eu estava a exagerar. E tinha toda a razão. Entretanto, meteu-se a tropa e demorei "dois planos quinquenais" a tirar o curso de economia [que terminou em 1986], entre estudos, trabalho e, também, vida de dirigente associativo.

O interesse precoce pela política teve a ver com as tais missas?

Indiretamente. Era miúdo e sempre gostei muito de História. Tinha uma família que, para todos os efeitos, era uma família de oposição. Dentro de casa falava-se e criticava-se abertamente o regime e falava-se dos assuntos da vida de uma maneira mais aberta do que, seguramente, na maioria das casas. E também porque, muito novo, comecei a ter atividades do tipo associativo... amigo puxa amigo, amigos puxam ideias e ideias puxam ideias...  

Como é que o avô paterno, que foi chefe da União Nacional [UN, partido único salazarista] em Évora, viu isso?

Creio que o problema dele não era com os netos [Risos]. O meu avô sabia perfeitamente que os filhos eram da oposição. Todos eles, aliás. Não me lembro de ter tido choques com o meu avô a propósito disso, mesmo nos períodos mais quentes.  

Nos últimos tempos tem aflorado a questões religiosas com alguma regularidade. Isso tem a ver com as idas frequentes à Terra Santa? Há aí alguma redescoberta da religiosidade?

Quando faço a rutura com a religião, deixo de me preocupar com ela. Era um materialista, e ainda hoje o sou. E tinha arquivado, digamos assim, a religião nas gavetas do esquecimento. É, muito mais tarde, quando começo a fazer documentários para televisão, em particular quando vou parar ao Iémen e à Etiópia, em finais dos anos 90, que me confronto com a força do fenómeno religioso na vida das pessoas, numa escala completamente diferente da que pode existir num meio conservador no interior de Portugal. Nessa altura tive de começar a ler não tanto sobre o cristianismo, mas sobre o Islão - um mundo que me era completamente estranho. A religião entrou nesta vontade de conhecer o mundo islâmico. E, desde então, nunca mais deixei de ler e de refletir sobre o fenómeno religioso. Acho que é a mais espantosa invenção humana.  

E porquê?

Porque podemos discutir até ao fim da vida se Deus criou o Homem à sua imagem e semelhança. E creio que nunca encontraremos outra resposta que não a que decorre da fé íntima de cada um. Agora há uma coisa em que um religioso e um não religioso se podem pôr inteiramente de acordo.  

É ateu?

Sou ateu, mas não me ocorre fazer campanha para retirar a fé às pessoas. Sou-o no sentido de não precisar da figura de Deus para procurar ser reto ou acertado na vida que levo. Se precisasse, provavelmente, teria uma fé. As pessoas com religião relacionam-se com Deus das mais variadas formas. No fundo, sentem que precisam dessa transcendência - ou desse além - para se compreenderam a si e na sua relação com os outros.  

Quando transita do cristianismo para o comunismo, sente que houve a substituição de uma coisa por outra?

Há uma certa dimensão de substituição. E ainda hoje estou convencido que o comunismo é uma grande religião laica.  

Como assim?

O comunismo é uma realidade social e cultural muito marcante do século XX, em muitos países, porque não é só um fenómeno político. Há uma dimensão de crença que se mistura com esperança. Mas o que é crença nuns, é esperança noutros e mistura-se com o que a religião foi, ao longo do tempo: uma estrutura hierárquica com um conjunto de ritos e práticas que consagram a própria doutrinas. Olhe para a festa do Avante. Tem características de encontro entre o mundo rural e o mundo urbano que não têm apenas a ver com a tradição do comunismo, mas com tradições agrárias muito mais antigas e com ritos de encontro que não se explicam pela política. Explicam-se por fatores de natureza antropológica que cavam muito fundo nas sociedades humanas. Não foi só o cristianismo que transformou os deuses pagãos em Santos. O comunismo também tem os seus padres, os seus papas. Até os seus Santos. O Marx, o Lenine, o Engels que são se não santos? Do que é que o comunismo é filho se não das grandes tradições do monoteísmo, das mundividências e das grandes esperanças. O comunismo é um produto moderno de uma história muito antiga, da história da luta contra as injustiças.  

Pega-se com o seu irmão Paulo nos encontros de família, por exemplo? Discutem política?

Falamos de política quando nos encontramos, o que não acontece assim, tantas vezes. Apesar de tudo, isto é uma família menos "anormal" do que parece. Quando nos encontramos falamos de várias coisas, podemos falar ocasionalmente de política. Evidentemente não procuramos convencer um ao outro. Não faço proselitismo com o meu irmão. E ele também não faz comigo. Não o procuro convencer do erro das suas ideias [Risos], como ele não faz o mesmo comigo. Não vale a pena. 

Os seus filhos são de esquerda ou de direita se é que já descobriram?

Um dia descobrirão o que são. Desde que não queiram ter sucesso à custa do vizinho ou saltando por cima dele ou esmagando-o, serão o que muito bem entenderem. Essa é a última das minhas preocupações. Nessa matéria não estou nada preocupado com eles. Com o serem tipos decentes estou, mas nisso as coisas estão bem encaminhadas. [Risos] 

Isso apesar de não se considerar a si próprio um grande pai...

Nunca fui. Com este tipo de vida como é que se pode ser um grande pai? Não é fácil. O Bloco tem 10 anos. E os meus filhos têm 12 e 14. Para os seus principais dirigentes, o Bloco tem representado inevitavelmente um enorme consumo do tempo útil de vida. Hoje representamos uma garantia de esperança que temos a obrigação de não hipotecar. É evidente que isto teve sempre algum preço familiar. Mas eles gostam muito de mim, o que apesar de tudo é gratificante [Risos]. 

Prometeu-lhes que iria deixar de fumar...

Chegará o dia. Chegará o dia... mas não o anuncio. Só os primeiros-ministros é que parecem gostar de anunciar essas coisas [Risos] Havia promessas mais importantes para cumprir. Já deixei de fumar duas vezes. Há terceira será de vez... Mas o seu maior vício é viajar.  

Quando é que começou?

Muito novo. Creio que tinha uns 16 ou 17 anos quando fiz a minha primeira viagem para França. À boleia. Aliás, num carro funerário. [Risos]  

Conte lá.

[Risos] Lembro-me perfeitamente: naquele tempo andava-se à boleia. Tinha ficado em Coimbra e daí fui para Vilar Formoso. E aí tinha de tentar apanhar uma boleia que me permitisse chegar diretamente a França, porque, em Espanha, sempre foi muito difícil apanhar boleias. Cheguei a Vilar Formoso, já relativamente atrasado - aí pelas duas da tarde. E só com muita sorte conseguira arranjar boleia até França. Já estava desesperado, porque em Vilar Formoso não havia nada a não ser a fronteira. Teria de voltar para trás para começar no dia seguinte. Eis que me aparece um carro funerário de uma empresa que, por causa dos trabalhadores portugueses que morriam na construção civil em França, fazia um vai-vem Norte de Portugal-Paris, três vezes por semana. Portanto, fui com um gato pingado. Lembro-me de ter feito Vilar Formoso-Paris em 18 horas - o que para a altura era sempre com o pé no acelerador e com um caixão vazio, porque a viagem era de cá para lá, o que mesmo assim não me tranquilizava muito. Mas, enfim, lá se fez a viagem. De resto viajei sempre bastante, ou à boleia ou de Interrail. Depois disso nunca mais parei.  

Diz ser um jornalista em comissão de serviço na política?

Não tenciono estar na política a tempo inteiro toda a vida. Tenciono fazer outras coisas tão ou mais importantes do que estas, desde que igualmente úteis às pessoas. De facto, para mim, a política é uma comissão de serviço. Das coisas que mais me faz confusão é aparecerem-me pessoas a perguntar como é que podem fazer carreira política. É uma pergunta tão extraordinária que tenho dificuldade de encontrar uma resposta. Depois vemos de que massa são feitas a maioria dos políticos que aí temos - os que mandam dentro da alternância - e nunca fizeram outra coisa a não ser política. Isso é simplesmente pavoroso. Gente que não soube fazer outra coisa se não da política uma carreira, é gente que jamais perceberá porque é que a política é necessária a outros e não apenas a eles próprios. Isso faz-me espécie, como diria o outro.