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José Gomes Ferreira, o jornalista que nos explica a crise

Portugal

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É um dos comentadores que os portugueses mais ouvem, nestes tempos troikianos: traduz "economês", sem papas na língua. LEIA O PERFIL e conheça melhor o homem que muitos já querem para primeiro-ministro

"Acordai/ homens que dormis/a embalar a dor..." Enquanto, na sexta-feira, 21 de setembro, grupos corais cantavam os versos de José Gomes Ferreira, em frente do palácio de Belém, o homónimo mais famoso do poeta entrava em direto, na SIC, para "acordar" os portugueses de outra forma. Os velhos mestres da imprensa defendem que "sem bom jornalismo não há democracia" e o subdiretor de Informação da estação de Carnaxide fez dessa premissa a sua missão de vida. Sim, porque a sua vida é trabalho, trabalho, trabalho. É um workaholic assumido, reconhecendo que, mesmo ao fim de semana, transporta dentro do saco do Expresso vários livros técnicos ou relatórios do Tribunal de Contas.

Já nem se recorda do último romance que teve entre mãos. "Há muitos anos que não leio nada sem ser de trabalho, desconheço grande parte dos autores modernos", reconhece. Mas é o estudo constante que lhe dá segurança para confrontar os entrevistados que tentam escapar às suas questões. Prepara-se também falando com economistas, gestores ou fiscalistas. "Maturar depois essa informação permite-me ter a bagagem para perceber rapidamente as implicações de uma decisão política", diz, sem falsas modéstias. "Por exemplo: a comunicação de Passos Coelho, a 7 de setembro, foi feita às 19 e 18. Terminou às 19 e 38. Tive 22 minutos até entrar em direto, às 20 horas, e acho que consegui antever os pontos polémicos da medida anunciada", recorda. "Só o consegui porque tinha em arquivo mental muita coisa relacionada com esta matéria. Temos de estar permanentemente atualizados, é esse o meu princípio."

A família reclama, claro. Mas a mulher e as duas filhas gémeas, de 16 anos, nunca o conheceram de outra forma.

Uma questão de estilo

Aos 48 anos, já tem cabelos grisalhos mas a inquietação é a mesma que tinha há 20 anos, como confirma Jorge Wemans, diretor da RTP2. Em 1991, era diretor-adjunto do Público e chefiou Gomes Ferreira que então escrevia na secção de Economia do jornal. Apesar de não terem mantido um contacto próximo desde a saída dele para a SIC, em 1992, o diretor do canal estatal continuou a seguir o seu trabalho, que respeita. "É um jornalista muito organizado e consistente, que não se coíbe de exprimir o seu ponto de vista, quando entende que essa é a melhor forma de questionar os seus entrevistados", diz. "Ele já era assim, no Público", confirma Wemans, notando que tal não é muito usual em Portugal. "Mas isso dá-lhe uma capacidade enorme de se aproximar das pessoas e de obter respostas que, de outra forma, não conseguiria."

Gomes Ferreira editorializa o jornalismo que faz e o facto de partilhar as suas opiniões é elogiado por uns, criticado por outros. "Cada um tem o seu estilo", defende. "Antes de ser jornalista, sou cidadão. Tenho sentimentos e não os escondo. Indigno-me. Acho que estaria a faltar a um dever de verdade e transparência com os espetadores se assim não procedesse."Essa transparência é, talvez, o segredo da sua popularidade crescente, admite o crítico de televisão Eduardo Cintra Torres. "Ele tem opiniões fortes e não receia apresentá-las. Além disso, é claro na linguagem e isso é fundamental para granjear o interesse do público." O também professor universitário na área da Comunicação não entende que devesse existir menos opinião no seu trabalho. "Muito pelo contrário. Se ele fosse apresentador do noticiário, seria diferente. Mas ele é, sobretudo, um comentador, é assim que as pessoas o veem."

Crescer sem TV

Antes da passagem pelo Público, Gomes Ferreira trabalhou na TSF, onde iniciou a carreira, em 1988, depois de concluir o curso de Comunicação Social no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa. Tinha 18 anos quando chegou à capital, cheio de sonhos - e concretizou-os.

Nasceu na aldeia de Vale da Lage (Tomar), que nem tinha eletricidade. A sua família só comprou televisão já ele era adolescente. José cresceu ajudando os pais nas tarefas do campo e a devorar livros da biblioteca de Tomar, no tempo que lhe sobrava. Apaixonou-se pelas letras mas acabou por casar-se com os números. "Costumo dizer que as palavras são como um rio: a água passa, e está sempre a passar, e os números são como rochas, ficam e deixam uma referência. Podemos sustentar-nos neles para tentar perceber a realidade. São mais sólidos e constantes", defende.

Hoje, não é só quando surge na televisão que os portugueses param para o ouvir falar. Na rua, também sente que o abordam mais: "Perguntam-me como vai evoluir a situação, qual é a solução, se os políticos estão a exagerar, se ainda é pior do que dizem..."

"A economia é uma área difícil de descodificar e há poucos jornalistas com a capacidade dele", nota Alcides Vieira, diretor de Informação da SIC, lembrando que, nesta altura de crise, "as pessoas estão muito recetivas a ouvir opiniões independentes, que possam traduzir esta informação complexa". Nesse sentido, "é uma grande mais-valia ter um profissional como ele".

O jornalista Bento Rodrigues, que, muitas vezes, o acompanha em estúdio, reconhece-lhe a "capacidade de ver mais além e mais depressa, de perceber todas as consequências, de as explicar de forma clara e apontar alternativas, se existirem". O recente episódio da TSU, recorda, é exemplar. "Percebeu no primeiro instante que seria uma catástrofe e disse-o sem meias palavras. Foi dos primeiros a garantir que ou o Governo recuava ou caía. Aconteceu o que sabemos."

Também Clara de Sousa o considera "um excelente profissional, extremamente competente na sua área de especialização e genuinamente independente nas análises sobre o que é melhor para o País". Como colega "está sempre disponível para tirar dúvidas ou ajudar a preparar uma entrevista na área económica, independentemente do trabalho que tenha entre mãos", elogia.

A pivô da SIC entende que a sua popularidade se deve ao facto "de ter uma linguagem acessível ao cidadão comum, que se revê nas suas análises". Há "um processo de identificação, que se transforma em admiração". Sobretudo, acrescenta Bento Rodrigues, porque ele "não perdeu a capacidade de se indignar com a incompetência, a falta de verdade e a injustiça. É por isso que o País o vê e se revê." Alguns até reconhecem nele qualidades para ser primeiro-ministro, promovendo essa ideia nas redes sociais (ver caixa). "Não sei se terá algum tipo de ambição nessa matéria", ironiza Clara de Sousa. "Por mim, prefiro que ele continue a ser um bom jornalista, a explicar o que tem de ser explicado."

Facebook - Gosto dele!

Quando o informático Almeno Rocha criou a página de fãs de Gomes de Ferreira no Facebook, não esperava tanto sucesso. Aliás, entre abril de 2011 e o início deste mês, o grupo não reunira mais de 1 500 fãs. Foi com a entrevista a Vítor Gaspar que a popularidade de Gomes Ferreira disparou. Hoje, tem quase 30 mil seguidores - e há uma dezena de outros grupos com milhares de "Gosto!", alguns querendo até fazer do jornalista o próximo primeiro-ministro. A página do informático minhoto limita-se a reproduzir as intervenções na SIC. "Criei esta página porque aprecio a forma como ele fala, criticando tanto uns como outros, e achei que era importante a voz dele chegar a mais pessoas", explica. Há duas semanas, assustado com tantos fãs, contactou com a SIC, disponibilizando-se para encerrar a página. Recebeu de volta um e-mail do próprio Gomes Ferreira, que não conhece, dizendo que não via razões para que dissolvesse o grupo. Afinal, a opinião é livre.