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Eduardo Gageiro: O fotógrafo do povo e da revolução

Portugal

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José Carlos Carvalho

Eduardo Gageiro é um decano do fotojornalismo português. Fotógrafo do povo e das suas revoluções. Aos 78 anos não faltou, este sábado, à chamada

Com o peso da máquina a moer-lhe as cervicais, está, sorridente, onde seria expectável encontrá-lo: no meio de um acontecimento. No meio do povo, a fazer aquilo que mais gosta de fazer: fotografar. O acontecimento esteve, neste sábado, no Terreiro do Paço.

No mesmo Terreiro do Paço, onde às primeiras horas da manhã de 25 de abril de 1974 encontrara o capitão Salgueiro Maia.

Foi o dia mais feliz da sua vida, recorda. É dele a foto do soldado imberbe com duas chaimites e a estátua de D. José ao fundo. É dele a imagem, captada no mesmo local, de Salgueiro Maia a morder o lábio, ao perceber que a revolução triunfara; a seu lado, um militar a faz o V da vitória, atrás outro ergue a G3 em triunfo, e há tropas em explosão de alegria em cima dos carros de combate.

Foi o dia mais feliz da sua vida, mas não necessariamente por ter desencadeado os acontecimentos que o consagraram como um dos maiores fotógrafos portugueses do século XX e fizeram dele uma lenda do ofício. É desse ano uma imagem do general Spínola, que ganhou o segundo prémio do World Press Photo na categoria de retrato.

E se aquele foi dia mais feliz da sua vida, como contou esta tarde no Terreiro do Paço, foi por ter acendido a centelha de esperança de uma vida melhor para o povo do País mais pobre da europa ocidental. Um povo drenado pela emigração e sangrado por uma guerra absurda. O soldado que ele fotografou, nesse dia, a retirar o retrato de Salazar de uma parede, é um símbolo da mudança ocorrida.

Gageiro voltou este sábado ao Terreiro do Paço, onde, com a vista para o Cais das Colunas obstruída por uma multidão compacta, não escondeu a sua tristeza. "A esperança daquele dia não se concretizou. Muitas pessoas continuam a viver pessimamente e são obrigadas a emigrar, enquanto outras enriquecem com esquemas como o BPN e não são presas. Quem diria que, trinta e nove anos depois, estaríamos assim."

Mas Gageiro também sorriu neste sábado. "Nunca vi este povo tão unido", confessou. Unido como no cacho de gente que, naquele dia de primavera de há quase quarenta anos, num momento que não escapou à sua objetiva, se empoleirou alegremente numa chaimite para festejar a queda da ditadura e o emergir de novos sonhos.