Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Diogo Vasconcelos, o evangelizador

Portugal

Marcos Borga

No início de 2007, a poucos dias da sua entrada em funções na multinacional Cisco, Diogo Vasconcelos conversou longamente com a VISÃO acerca do seu percurso, pessoal e profissional. O perfil traçado nessa troca de impressões viria a ser publicado na edição de 1 de fevereiro de 2007

É o primeiro português a ocupar um cargo de director internacional na Cisco, um dos gigantes mundiais da tecnologia. Aos 38 anos, sabe que deixa para trás obra feita no sector público.

Já foi deputado, presidente de uma unidade de missão do Governo e tem um lugar na Casa Civil do Presidente da República à sua espera. Aos 38 anos, vai trocar o Porto por Londres, e iniciar uma carreira internacional como director de consultoria para o Sector Público da multinacional Cisco Systems. Os responsáveis a quem vai reportar não estão à espera que faça negócios. Reservaram-lhe um papel mais abrangente, de evangelizador. A sua missão consiste em viajar pelo mundo a pregar as virtudes da sociedade da informação e do conhecimento - área que conhece bem, ou não tivesse deixado a sua marca em 5 planos de acção postos em marcha pela Unidade de Missão Inovação e Conhecimento (UMIC), em apenas dois anos e meio de desempenho. 

Antes de surgir o convite, Diogo Vasconcelos passou dois anos sob escrutínio, desde que se destacou numa conferência mundial sobre este tema, em 2005. "Fiquei sob observação, de forma mais implícita do que explícita", reconheceu. O desafio é muito claro: apoiar, quer a nível europeu, junto da Comissão Europeia e dos 27 países-membros, quer a nível mundial, junto de governos e de instituições financeiras multilaterais (FMI, Banco Mundial, BEI, BERD...), a estratégia da Cisco para a promoção da sociedade da informação. É uma área que não é paga. Até é oferecida, mas é estratégica para a multinacional de sistemas de informação. Permite-lhe intensificar o conhecimento sobre as realidades locais e desenvolver novos mercados. "Estou proibido de vender - se for caso disso, haverá concursos internacionais aos quais podem candidatar-se outras empresas, além da Cisco", explicou. 

Diogo Vasconcelos escolheu residir em Londres, para estar perto do centro da Europa e do resto do mundo, evitando assim escalas aéreas aborrecidas e demoradas. Os últimos dias foram passados a procurar um apartamento na capital inglesa, para onde pretende mudar-se com a mulher. Mas serão poucas as vezes que terá de se deslocar à sede europeia da multinacional, na City londrina. "Só irei lá para as reuniões. Posso fazer o resto por e-mail e por videoconferência. No resto do tempo, vou andar a viajar". Algumas vezes, para regressar ao seu Porto natal, onde nasceu em Maio de 1968. 

Diogo foi o segundo de três irmãos. A mãe era bióloga e professora no secundário: o pai, engenheiro electrotécnico, teve na Efacec o primeiro e o último emprego. Ficou lá até se reformar. O jardim de infância e as escolas foram escolhidas a partir do Ameal, onde a família residia. O secundário leva-o para perto da mãe, professora na Escola António Nobre, em Paranhos, junto ao antigo estádio do Salgueiros. Bom aluno em quase todas as áreas, opta pela área D, de Humanísticas, que fará dele um homem de Letras. É para lá dos portões do António Nobre que Diogo ensaia a sua primeira experiência associativa. Mas desde miúdo que era dado a outras experiências, também elas participativas. Ainda na preparatória de Paranhos, faz um jornal com o amigo Carlos Sarmento. Chamava-se Passo a Passo e tirava 12 exemplares. "Mas era um projecto muito ambicioso. E com pretensões: tinha análise, opinião. E tinha um suplemento sobre a guerra das Malvinas", relata. O gosto pelo jornalismo ficou lá. 

Na Secundária António Nobre, candidata-se com outros colegas à associação de estudantes e ganha. Teve que se desfazer, com pena, do segundo projecto jornalístico onde se empenhou, o Vida de Estudante, um jornal nacional, para estudantes. Um dia, pegou nuns desenhos do Quino, retratando um ditador sul-americano, baixinho, de bigode e óculos escuros, e usou-o num editorial chamado "O Rei vai nu". A escola não cumpria a lei sobre a participação de alunos no conselho pedagógico e o cartoon vinha mesmo a calhar. O presidente do conselho directivo não gostou. A mãe, docente em biologia, foi chamada. Mas Diogo pôde contar com a compreensão dela. "O meu pai e a minha mãe sempre tiveram preocupações de carácter cívico. Antes do 25 de Abril, pertenciam à JUC e foram fundadores do núcleo do Porto da SEDES. A PIDE chegou a tirar informação sobre o meu pai, na empresa, mas o superior hierárquico era mais à esquerda do que ele, portanto... foi irónico!". Sempre se discutiu política na casa do Ameal. A mãe viria ainda a ser uma destacada membro do Sindicato dos Professores da zona Norte. Fez também parte da primeira comissão política no Porto do PPD, a seguir à fundação.

Não tardou que o filho lhe seguisse as pisadas. Ainda no António Nobre, fez-se militante da JSD. A vida associativa prossegue na Católica do Porto, onde se licenciou em Direito. Sem o saber ainda, estava a preparar-se para as lutas académicas do final dos anos 80, instigadas pela introdução das propinas - com as quais sempre esteve de acordo, desde que fixadas "a um valor razoável" e acompanhadas de medidas de apoio aos alunos carenciados. Escapa por um triz à "geração rasca", deixando o epíteto para os seus sucessores na Federação Académica do Porto (FAP) - que criou de raiz -, entre eles Fernando Medina, hoje secretário de Estado do Emprego. 

Diogo Vasconcelos viria a ser reeleito por duas vezes presidente da FAP. No último mandato, chama Armando Baptista para a vice-presidência. Admite que a política sempre o acompanhou, mas garante que em nada influenciou o seu desempenho enquanto líder dos estudantes do Porto. "'Boy' é a pessoa que sai de uma associação académica e vai para a política. Não foi o meu caso", esclarece. As convicções fizeram com que declinasse um convite de Pedro Passos Coelho para lhe suceder na direcção da JSD. "Fui eleito [para a FAP] numa lista impulsionada pela esquerda académica do Porto! Aliás, o que eu defendia foi adoptado pelo ex-ministro Marçal Grilo", esclareceu. O seu antigo número dois na FAP admira-lhe a capacidade de liderança, que lhe permite "fazer as coisas até ao fim". "O Diogo é uma daquele homens capazes de levar a montanha a Maomé", disse à VISÃO Armando Baptista, um dos fundadores do portal AEIOU. É muito directo mas contido, de tal maneira que o amigo nunca o viu perder as estribeiras em público. Nem perder o controlo, nem mesmo nas sucessivas Queimas das Fitas em que ambos participaram, por dever "profissional". "Se alguma vez bebeu de mais, já não estava ninguém sóbrio para contar como foi", brinca. 

O mais novo director da Cisco (entra hoje, dia 1, em funções) diz que gosta de usar a metáfora da ampulheta: "De vez em quando, é preciso virar tudo ao contrário". "Entendi que entrar num gabinete ministerial, assim que se acaba um curso, pode ser uma experiência muito interessante, bem paga, mas lá está...". Não lhe agradou a ideia. A opção foi feita a favor da actividade editorial. Depois de um breve estágio na redacção do Porto do diário Público, entrou no grupo Fórum, dirigido por Rui Marques, que conheceu em 1993 durante a viagem do Lusitânia Expresso - missão de paz por Timor-Leste que juntou líderes estudantis e outras personalidades a bordo de um navio. Rui Marques, actual comissário para a Imigração e Minorias Étnicas, elogia-lhe a inteligência, a visão e a capacidade empreendedora, de lançar ideias e de executá-las com eficácia. "Está sempre na linha da frente", disse à VISÃO. Por isso, convidou-o a tornar-se sócio do grupo Fórum, que esteve na génese das revistas Fórum Estudante, Fórum Ambiente, Cais, Cybernet e, mais tarde, Ideias & Negócios - um projecto do próprio Diogo Vasconcelos. É na edição de revistas que Vasconcelos trabalha, depois de feito o estágio de advocacia, até que em 2002 não resiste ao apelo da política e é eleito, nas listas de Durão Barroso, deputado à Assembleia da República. Vai para o Parlamento mas já com o objectivo de vir a desenvolver um projecto na área da sociedade da informação. "Estive lá durante o tempo necessário para montar a UMIC", esclarece.

A orgânica da UMIC viria a ser desenhada de acordo com a sua inspiração: um modelo interministerial, autónomo, semelhante ao que se fazia na Austrália, na Nova Zelândia e no Reino Unido. Confessa: "Podia-se ter posto a questão de ter um cargo no Governo, se quisesse. Não quis. Acho que o modelo inicial da UMIC estava correcto. Falava com os ministros que queria, tinha o orçamento que pedira". Os resultados falam por si: "Num período muito curto, fiz muita coisa". Gosta de pensar que ajudou a mudar o país. 

Sempre atento às novidades da tecnologia, acha idiota que lhe perguntem o número de horas que passa diariamente na Internet. "Só quando estou a almoçar, a jantar ou a dormir é que não estou ligado, através do telemóvel, do PDA, do computador [inclusive do i-Pod, do qual nunca se esquece]. Acho essa pergunta pré-sociedade da informação", dispara. Quando chegou a Belém, depois de ter participado na campanha presidencial de Cavaco Silva, fez com que todas as pessoas tivessem acesso a um PDA, para consultar o e-mail em qualquer sítio e a qualquer hora. Desde há um ano que é responsável pelo "site" da presidência, que tem batido sucessivos recordes de visitas. Foi também a partir da Casa Civil que lhe foi feita a despedida, poucos dias antes da partida para Londres: um jantar de confraternização e a reunião, em livro, de mais de 150 depoimentos de pessoas que com ele trabalharam e contactaram. Uma edição que Diogo Vasconcelos vai levar na bagagem.