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De Alvito para a ribalta

Portugal

Foto: Luis Barra

Aos 26 anos já escrevia um livro com um Nobel da Economia, mas só aos 28 Mariana Mortágua se tornou na deputada de quem se fala

Bastava-lhe ser filha de Camilo Mortágua - o revolucionário que participou no assalto ao paquete Santa Maria em 1961 e no desvio do avião que espalhou por Lisboa milhares de panfletos antifascistas - para ser conhecida. Mas Mariana não é de se encostar a louros alheios. Tem os seus, conquistados tão discretamente que até quando ultrapassou nove candidatos (da lista às legislativas) para substituir Ana Drago, no Parlamento, tornando-se a deputada mais nova do Bloco de Esquerda (BE) e do hemiciclo, a polémica deixou rapidamente de se fazer ouvir.

Mas a discrição tem limites e, um ano depois, o nome Mariana Mortágua (filha do revolucionário, não do PIDE, como gosta de referir) saltou mesmo para a ribalta. De há um mês para cá, foi numerosas vezes cara da semana e figura em alta, nos vários termómetros mediáticos. "É aproveitar, porque há de durar pouco", sorri. Foi dela a voz que se levantou contra a reposição das pensões vitalícias dos deputados e aquela que mais se tem destacado (pela pertinência e estudo das questões, Ricardo Salgado dixit) nas audições ao caso BES. É ela também a face do BE, nas questões económicas, desde a TAP à energia.

Mariana nem sempre foi de dar a cara - na infância, passada em Alvito, preferia pedir à irmã gémea, Joana, dois minutos mais nova mas igualmente bloquista, que fizesse isto ou pedisse aquilo; e chegava a ficar enjoada quando tinha de falar em público. Mas a herança genética é forte e a contestação corre--lhe nas veias.

Aos sete anos, já mobilizava tropas para pedir ao presidente da Câmara de Alvito que resolvesse o problema da passadeira junto da escola, recordou a sua mãe ao Expresso. Aos 15, inscrevia-se na ONG Ação para a Justiça e Paz e, pouco depois, mandava comida para o "Barco do Aborto", ancorado ao largo da Figueira da Foz. Foi a melhor média a entrar em Economia, no ISCTE, a melhor do curso e do mestrado. O doutoramento, vai ter de se ir fazendo, nos intervalos de tudo o resto. Confessa sofrer, ao pensar nos prazos, mas não consegue deixar de fazer mil coisas ao mesmo tempo. Sempre foi assim. Acabou o curso a trabalhar num centro de investigação do ISEG, fez o mestrado a trabalhar numa consultora (de onde se despediu por não acreditar no que estava a fazer) e no Parlamento. E, depois, ainda acumulou o trabalho parlamentar com umas aulas que deu no ISCAL.

José Gusmão nem a conhecia bem, mas não hesitou quando, recém-eleito deputado, precisou de uma assessora para as questões financeiras. "Ela já era militante do Bloco e intervinha sempre com muita competência. Algumas das qualidades que faziam dela uma boa assessora estão agora à vista, na comissão BES: tem uma grande capacidade de trabalho e de investigação, é muito metódica", desfia.

'New kid of the Bloco'

Foi na AR que Mariana conheceu Francisco Louçã. Hoje são bons amigos, trabalham bem juntos e até escreveram dois livros a quatro mãos. Mas não se considera sua "pupila" ou "delfim", como se diz por aí. "É exagerado", afirma, mas é coisa que não a  incomoda. Ao lançar-se no doutoramento, não foi à porta de Louçã (professor de Economia no ISEG) que bateu. Desviou-se, antes, para Londres, para a SOAS (School of Oriental and African Studies, "a universidade mais de esquerda da Europa"), para ir atrás da orientação de Jan Toporowski, para a sua tese sobre Desequilíbrios macroeconómicos da União Europeia.

É rigorosa, exigente consigo própria, segura, focada, ponderada. Foi habituada a argumentar e a justificar cada posição e o seu empenho foi sendo reconhecido, embora ela justifique o seu percurso com as "oportunidades" que foram aparecendo. Ao chegar aos 26 anos, por exemplo, escrevia, a convite do jornalista financeiro Tony Phillips, um capítulo para o livro A Europa à Beira do Abismo, no qual também participavam um prémio Nobel da Economia (Joseph Stiglitz) e um ex-ministro das Finanças (o argentino Roberto Lavagna).

Hoje, entre o trabalho parlamentar, a comissão de inquérito ao BES, o doutoramento e a carta (faltam-lhe três aulas práticas para ir a exame de condução), Mariana não tem tempo para escrever livros... nem para ler. No pouco tempo livre que arranja, passeia ("esta cidade é linda!"), vai para os copos (cerveja, de preferência) com os amigos ou limpa a casa. A bicicleta está parada há meses (até já tem os pneus em baixo) e a equipa de futebol lá vai esperando pela sua avançada. Sabe que, quando pressionada, mais faz, e por isso vai-se inscrevendo em conferências e obrigando a fazer papers, que, depois, aproveita para a tese.

Assumidamente workaholic (embora tenha descoberto, recentemente, que "ser workaholic não é uma coisa boa e que não há problema em tirar um tempo para mim"), é do género de se fechar em casa a estudar dossiês. Foi, aliás, pela VISÃO que soube que ia ser vice-presidente da Comissão de Inquérito ao BES. Estava há horas a ler sobre o assunto que nem deu por ela...

Deita-se tarde e começa muito cedo. Vive a café e no medo de acabar a fazer qualquer coisa de que não goste. "Nunca precisei de trabalhar em call centres (como muitos dos seus amigos). Mas não sei o que o futuro me reserva." Faz parte da geração que cresceu a ouvir que era a mais educada, que havia "meritocracia" e a sentir na pele o que era a  "competitividade". Mas que é também a mais "angustiada e frustrada. Por mais que se faça, nunca é suficiente".

Sente que tem sorte, por estar orientada. Tem, pela função que desempenha "por cidadania", um bom ordenado ao fim do mês, o que sabe bem, depois de ter sido "tão pobre", em Londres. Passa pelas comissões e pelo hemiciclo com ar simpático, sorridente, mas seguro. E com a responsabilidade de ir desconstruindo a linguagem mais técnica e o economês, para que todos os eleitores percebam do que se fala, naquela casa do poder. Quer acabar a legislatura "a fazer um bom trabalho" e com forças para se empenhar na campanha, por um Governo de esquerda. Com o PS? "O BE tem um projeto muito concreto. Não estou disposta a abdicar dele por um lugar no Executivo", diz, apontando os exemplos do Syriza ou do Podemos. "Votem em nós!", diz, convicta que é esta a vida que quer. O seu lugar na política (no BE) está conquistado. Há de acabar o doutoramento, para poder seguir (também) uma vida académica. Depois, é esperar pelas oportunidades e que a vida não a leve a emigrar.