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Conselho de Ministros visto pelo buraco da fechadura

Portugal

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Luís Barra

Saiba o que veria se fosse uma mosca e passasse pelas reuniões de preparação do Orçamento do Estado, que juntaram ministros e alguns secretários de Estado e perfizeram 43 horas em pouco mais de uma semana

  • Lugares marcados: Os lugares na mesa (oval) do Conselho de Ministros estão marcados e ninguém se senta fora do sítio. Na sala onde se reúnem os governantes há lugar para o chefe de gabinete do primeiro-ministro, Francisco Ribeiro de Menezes, que assiste a tudo.
  • Participantes: Passos Coelho senta-se no topo da mesa. Seguem-se, pela esquerda, Paulo Portas, Paulo Macedo, Miguel Relvas, Assunção Cristas, Nuno Crato, Carlos Moedas e Marques Guedes (no topo da mesa oposto). À direita de Passos senta-se Vítor Gaspar, depois Aguiar Branco, Paula Teixeira da Cruz, Álvaro Santos Pereira, Miguel Macedo e Pedro Mota Soares.
  • Ouvir sempre: O primeiro-ministro tem o vício de ouvir, que partilha com Vítor Gaspar. Alguns ministros, pelo contrário, têm o vício de falar, como o próprio Gaspar. Daí resultam reuniões longas, em que cada um discorre sobre assuntos muito específicos das suas pastas.
  • Artigo a artigo: Outro dos aspetos que contribuem para que as reuniões se prolonguem é o facto de a proposta de OE ser vista artigo a artigo. As decisões são tomadas no momento e pelo coletivo, com as vantagens e desvantagens que daí advêm, nomeadamente a falta de preparação. Alguns documentos seguem, antes ou depois dos encontros, por mail.
  • Método Gaspar: Os ministros tomam notas durante as reuniões, em papel, nos iPads ou em computadores portáteis. Para Vítor Gaspar, tirar notas faz parte de um método que o ajuda a escrever os relatórios dos encontros. Gaspar anota o que cada um vai dizendo e, no fim das discussões, resume as posições tomadas e o que ficou acordado, de forma a vincular os ministros ao que foi decidido.
  • Fumar na rua: Nas grandes maratonas dos últimos dias, os telemóveis não tocam e só saem da mesa os fumadores (como Miguel Macedo). Como ninguém está autorizado a fumar na sala, é preciso ir à "rua", longe dos olhares das câmaras de televisão.
  • Dress code e alimentação: Os ministros não bebem água engarrafada. Há jarros em cima da mesa que são enchidos conforme as conveniências. As refeições (leves) são servidas in loco. Só no domingo, 7 de outubro, é que os governantes saíram para almoçar. Nesse dia, o guarda-roupa foi mais descontraído e nem todos levaram gravata.
  • O mais assertivo: Paulo Macedo é o ministro que tem feito mais intervenções cirúrgicas e propostas pertinentes, capazes de fazer Vítor Gaspar recuar. Conhece a máquina fiscal e a empresarial, conhece a banca, tem competências técnicas reconhecidas, opina e é muito assertivo.
  • Anedotas contidas: Nuno Crato é um dos intervenientes mais discretos. Não fala muito, mas tem sempre uma palavra com humor para ajudar a descomprimir. Costuma começar as suas declarações a fazer uma piada qualquer, centro do contexto da discussão.
  • Todos atingidos: Por vezes, os governantes dão os seus exemplos pessoais para demonstrarem como certas medidas atingem as suas vidas e as dos outros portugueses. Há ministros que têm filhos desempregados, outros têm mães ou irmãos que vão ter grandes aumentos do IMI, outros têm familiares diretos emigrados, etc.