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Conheça melhor as tribos das 'manifs'

Portugal

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Artistas-queimadores, cantoras líricas guerreiras e veteranos das guerras em África - as manifestações não excluem ninguém e têm por filosofia integrar todos os descontentes. Como será este sábado, no protesto convocado pela CGTP-IN?

A música Acordai, do compositor Fernando Lopes-Graça, cantada por um coro dirigido pela tenor do Porto, Ana Maria Pinto (à esquerda, na foto) é o hino da contestação.
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A música Acordai, do compositor Fernando Lopes-Graça, cantada por um coro dirigido pela tenor do Porto, Ana Maria Pinto (à esquerda, na foto) é o hino da contestação.

João Vilhena e João Galrão (à esquerda) são percursores do movimento ArtProtesters e queimam as suas criações para alertar para os cortes na Cultura.
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João Vilhena e João Galrão (à esquerda) são percursores do movimento ArtProtesters e queimam as suas criações para alertar para os cortes na Cultura.

Os fuzileiros em reserva territorial também estiveram presentes na manif: «Apostámos numa coisa chamada Abril», dizem.
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Os fuzileiros em reserva territorial também estiveram presentes na manif: «Apostámos numa coisa chamada Abril», dizem.

Os estivadores distinguem-se pelos coletes refletores amarelos e avisam o governantes: «Don't fuck my job».
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Nas novas formas de protesto a imaginação é o limite...
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... e todos encontram a "sua" maneira de mostrar a indignação.
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... e todos encontram a "sua" maneira de mostrar a indignação.

O grande lema do Maio de 68 parece recuperado: "A imaginação ao poder".
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A criativade como forma de contestação está mais viva e popular que nunca, em Portugal.
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A criativade como forma de contestação está mais viva e popular que nunca, em Portugal.

É o que mostram as palavras de ordem da última grande concentração: a Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém.
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É o que mostram as palavras de ordem da última grande concentração: a Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém.

Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.
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Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.

Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.
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Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.

Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.
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Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.

Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.
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Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.

Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.
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Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.

Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.
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Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.

Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.
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Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.

Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.
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Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.

Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.
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Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.

Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.
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Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.

Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.
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Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.

Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.
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Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.

Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.
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Vigília de 21 de Setembro, frente ao Palácio de Belém, durante o Conselho de Estado.

Valorizam a espontaneidade. Não se arregimentam. Funcionam sem um centro aglutinador. No movimento Que se lixe a troika há ativistas do passado mas a organização é do futuro aberta, partilhada, com um pé na net e outro na rua. Nuno Ramos de Almeida, de 48 anos, jornalista, é um dos subscritores da ação que levou à rua centenas de milhares de pessoas nas últimas duas semanas. "Tivemos a certeza de que as manifestações ganhariam grande dimensão pelas reações no Facebook", explica, antes do início da vigília de sexta-feira, 21, em Belém. "Em agosto reunimo-nos no Chiado, para discutir a situação do País. Desde o 12 de março [dia do Protesto da Geração à Rasca] que queríamos fazer um balanço crítico da participação popular", explica Ramos de Almeida. "Eu tinha a ideia de que as próximas iniciativas tinham de ser na base do 'amigo não empata amigo', que a organização não devia ser pesada e não podia excluir", acrescenta. A 27 de agosto, criaram uma página no Facebook e convocaram a manifestação de 15 de setembro desde então, reúnem-se no Café Império e numa sala cedida pela organização internacional de ativistas ATTAC. Mas a grande ajuda para a expressiva participação veio da parte de Passos Coelho. Na sexta-feira, 7, o primeiro-ministro comunicou que haveria aumento de 7% da taxa social única dos trabalhadores, aliviando a cobrada às empresas. O País, atónito, revoltou-se o povo havia cumprido, o Governo tinha chumbado. Até os empresários, assustados com uma nova quebra do consumo, se opuseram à iniciativa governamental. As longas e confusas explicações do ministro das Finanças acirraram ainda mais os ânimos. Os demónios estavam à solta por toda a parte, começaram a organizar-se pequenos grupos para participar nas manifs.

JOÃO & JOÃO, OS QUEIMADORES

Alguns chegam apressados, como se não houvesse amanhã, à vigília de 21 de setembro, em frente do Palácio de Belém. Na mochila de João Vilhena, de 29 anos, estão os identificadores dos artprotesters, um grupo informal de artistas criado para clamar contra os cortes na cultura. Para protestar, os ativistas do movimento queimam as suas próprias criações. Mas hoje estão noutra missão: gravar em vídeo depoimentos de manifestantes que ali se concentraram. "Para memória futura", sintetiza João Vilhena. Além do registo em vídeo e das fotografias que documentam a participação nas manifestações contra o programa da troika, os artprotesters têm outra forma de expressar o seu descontentamento. A iniciativa ocorreu a João Galrão, 36 anos, em meados de junho, quando uma noite regressava a casa, em Almargem do Bispo (Sintra). Para o pintor e escultor, era chegado o momento de mostrar que os artistas também têm razão de descontentamento. Mais: mostrá-lo de modo a que não pudesse haver margem para dúvida. Como? Queimando as próprias obras de arte, uma imolação artística radical. Em rigor, a ação não é inédita. Em 17 de abril deste ano, Antoni Manfredi, diretor do Museu Internacional de Arte Contemporânea de Casoria, em Itália, conduziu uma cerimónia pública de destruição de algumas obras de arte da sua instituição. A ação teve grande repercussão mundial e foi transmitida através da internet. João Galrão havia tido ecos daquela operação. Serviu-lhe de inspiração para, entre 8 e 17 de junho, queimar uma obra de arte por dia, entre colagens, pinturas e esculturas. Os rituais de incineração estão disponíveis em http://artprotesters.wix.com/artprotesters. "Fiz tudo sozinho e gravei em vídeo. Usei álcool e um isqueiro", conta. Palavra a palavra, a forma de protesto alastrou. João Vilhena, também artista plástico e colega de Galrão na Ar.Co, uma escola de artes de Lisboa, juntouse-lhe. Raquel Freire, cineasta, também se solidarizou com ele. No meio artístico, a mensagem foi passando. As visitas ao site e à página do Facebook do movimento foram aumentando. João Aires, um artista brasileiro, alinhou; Briggite Dunkel, alemã, assinalou a sua simpatia queimando igualmente algumas das suas criações. André Fradique, 36 anos, o artista que, neste momento, está em "processo de queima", pretende destruir uma obra original, criada a partir de materiais recicláveis. A intenção é fazê-lo de modo ecológico, usando uma "lente de água" o líquido é usado para concentrar a luz solar, como uma lupa. "O boneco representará um político corrupto e o ato evoca as Queimas do Judas que se realizam na Páscoa", diz. Até agora, 11 artistas participaram nos atos de destruição e está agendada a participação de mais nove. "Nós dizemos aos nossos colegas que devem escolher o que entenderem. É um ato simbólico contra as inaceitáveis condições impostas à cultura e aos portugueses", sintetiza João Vilhena, antes de se fundir com os milhares de pessoas que, às 17 horas, já se espalham pelo jardim em frente da Presidência da República.

ATÉ QUE A VOZ LHES DOA

No sábado, 29, está agendada mais uma manifestação, no Terreiro do Paço, em Lisboa, convocada pela CGTP-In. Os artprotesters lá estarão. Na principal praça da capital, também se ouvirão as vozes do movimento Acordai. É um dos mais recentes, criado no seguimento da vigília de 21 de setembro vão cantar a música que Fernando Lopes-Graça criou para o poema de José Gomes Ferreira. Acordai ameaça, aliás, tornar-se no hit das manifestações, arredando destas os cantares do PREC. "Estava em Zurique, em trabalho, quando decidi convocar as pessoas através do Facebook. Cerca de 800 aderiram à ideia de cantarmos a música durante a vigília", conta Ana Maria Pinto, 31 anos, do Porto. Em frente do palácio, muitos juntaram as suas vozes às da meia centena de pessoas que constituiu o coro improvisado. "Não conhecia ninguém. Quando nos reunimos, na Praça do Império, fizemos um ensaio improvisado e depois juntámo-nos à manifestação", conta Ana Maria Pinto. A cantora lírica volta à carga, no Porto, na Avenida dos Aliados, no dia 29. "O que me motiva é o amor pelo meu povo. Não consigo ficar parada enquanto o meu país está a ser destruído. Quero despertar as consciências, pela palavra e pela música", declara Ana Maria, que, após sete anos a viver em Berlim, regressou de vez a Portugal. Pelo seu povo, mas também pelos seus filhos e netos, cinco fuzileiros marcam presença na vigília. Vêm fardados, mas estão na reserva territorial. "Queremos pedir ao comandante supremo das Forças Armadas [Presidente da República] para mudar estas políticas", diz Manuel Fernandes, 42 anos, com 12 anos de serviço na Marinha e com uma comissão na Bósnia. Do grupo, que foi comunicando no Facebook antes do encontro em Belém, faz parte também Tomás Pereira, 66 anos. "Combatemos em África, comportámo-nos com dignidade e apostámos numa coisa chamada Abril é por causa disso que hoje estou aqui", sublinha. Acordados? "Acordados".

OS NOVOS PROTESTOS

29 setembro Terreiro do Paço, Lisboa, 15 horas Convocada pela CGTP-IN 29 setembro Avenida dos Aliados, Porto. Movimento Acordai 30 setembro Largo do Toural, Guimarães Movimento Acordai. 5 outubro Marcha contra o desemprego (parte de Braga e de Faro) Convocada pela CGTP Termina em Lisboa, a 13 outubro