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Como "assombrar" umas eleições

Portugal

Um estudo de dois politólogos estima que, no domingo, haverá quase um milhão de eleitores-fantasma a "votar". E a poder declarar um falso vencedor

Miguel Carvalho

Das eleições de 1979 às do próximo domingo, o País perdeu efervescências. Ou talvez tenha aprimorado técnicas. Porém, sejamos justos: não fossem uns "fantasmas" incómodos, uns quantos arrivismos e reminiscências atávicas, e o processo eleitoral talvez fosse exemplar. Os politólogos José Bourdain e Luís Humberto Teixeira, do Instituto de Ciências Sociais e Políticas de Lisboa, admitem conviver mal com o facto de se jogar "com dados viciados". Há dias, actualizaram um estudo de 2007 sobre os cadernos eleitorais, com base nos elementos da Direcção-Geral da Administração Eleitoral (DGAI), do INE e do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. E chegaram a conclusões assustadoras: segundo as suas estimativas, as eleições legislativas do próximo domingo serão disputadas à boleia de quase um milhão de eleitores-fantasmas, 930 mil para sermos precisos (ver quadro). Mais do que a soma dos votos obtidos pela CDU e pelo CDS nas eleições para a Assembleia da República de 2005. Naqueles números, incluem-se cidadãos falecidos, duplas inscrições e outras irregularidades. A situação pode originar um vencedor errado, nas legislativas - sobretudo se a eleição for renhida -, pois foi com base nestes cadernos "enfeitiçados" que se fez a nova distribuição de deputados pelos distritos. Para estas eleições, Lisboa, Castelo Branco e Bragança perderam um deputado a favor de Porto, Braga e Aveiro. Mas Viana do Castelo e Madeira perderiam um deputado para Setúbal e Porto se os cadernos estivessem correctos. "São eles que definem se uma região tendencialmente de direita como Viana tem mais um mandato ou se esse mandato é atribuído a Setúbal, que é um distrito tendencialmente mais à esquerda. E isso pode fazer toda a diferença em eleições mais disputadas", explica Luís Humberto Teixeira, que considera haver "uma elevada probabilidade de a verdade eleitoral sair distorcida". Ou seja, "o partido mais votado pode ter menos deputados do que o segundo". Neste quadro, um dos cenários possíveis é o PSD perder dois deputados e o PS ganhar mais dois.

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