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Cenas de um Sócrates desconhecido

Portugal

Acordava do avesso, "virado contra o mundo". "Partia tudo", nas reuniões, e acreditava que a magistratura queria vingar-se dele. Retrato breve de um ex-primeiro-ministro acossado, a partir das memórias de São Bento

José Sócrates tinha uma tese: foi a redução das férias judiciais de dois para um mês, decisão tomada logo no início do seu primeiro Governo, que "tramou" a sua relação com a magistratura e a Justiça. O antigo primeiro-ministro recorria a esta teoria conspirativa sempre que tentava justificar perante os colaboradores, em São Bento, a sucessão de "perseguições", casos e polémicas que, na Imprensa, traziam o seu nome atrelado. "Mostrava arrependimento e reconhecia que não tirara grande benefício da medida, bem pelo contrário. Dizia que aí terá começado o parti-pris da magistratura contra ele", recorda um ex-membro do seu gabinete.

Não se sabe se alguém acreditou na explicação do detido mais famoso do Estabelecimento Prisional de Évora, mas do homem que dezenas de colaboradores conheceram nos seis anos de Governo socialista (2005-2011) não seria esperada outra versão.

Viam-no, é certo, adito aos melhores restaurantes, aos bons carros, à roupa de marca e luxos de uma vida cosmopolita proporcionada pela ascensão política. Percebia-se que atribuíra o cargo de assessor para o Desenvolvimento Regional em São Bento ao amigo Carlos Martins, da Covilhã como forma de ter, no gabinete, "um homem de mão" para assuntos que não passavam necessariamente pela atividade governamental. Sabia-se quem eram os mais próximos na área empresarial - do grupo Lena à JP Sá Couto - mas nada a fazer supor que a sua qualidade de vida pudesse ter origens duvidosas, assentes em "esquemas" como aqueles que o Ministério Público estará em condições de provar. "Tendo em conta a forma como trabalhava, as semanas inteiras que, por vezes, dedicava a ações do PS e do Governo, isso só seria possível com uma vida paralela, completamente blindada", admitem antigos colaboradores do ex-chefe de Governo.

Reuniões de 'partir tudo'

Nada transpirava. À família, mãe incluída, "só telefonava à nossa frente em casos de extrema necessidade. Para os seus colaboradores, os familiares eram quase inexistentes e as relações muito impessoais." De namoros e namoricos, "ia-se sabendo", mas Sócrates não revelava sentimentos, nem sequer um comentário sobre os filhos ou o irmão que esteve doente. Cinema, livros, "era quase sempre de ouvir falar", relata um dos comensais de muitos jantares com o antigo líder socialista. "Só conheci a ex-mulher [Sofia Fava] quando a vi na televisão. Às vezes até o deixávamos à porta de casa dela a fim de ir buscar os filhos para verem o futebol, mas não passava daí", recorda um ex-membro do gabinete de José Sócrates. No Natal, não havia lugar, da parte dele, a gestos ou momentos que assinalassem o espírito da época. Quando se insistia para que desse uma imagem mais humanizada em termos públicos, resmungava: "Se dou o braço a torcer, se abro a porta uma vez, isto nunca mais acaba!"

Mesmo assim, nunca a Imprensa o largou. Essa era a parte que ele não controlava. Não que não tivesse tentado, segundo transpirou do processo Face Oculta. De manhã, "acordava sempre virado contra o mundo e, até à hora do almoço, era de pontapé para cima, paranoico com tudo o que se dizia na comunicação social ou que os ministros tinham dito sem ele saber", descrevem-no. O Governo era "o Governo dele, no sentido literal da palavra". Ou seja, "tinha tudo na cabeça, ao pormenor. Tratava os ministros como ajudantes, queria sempre controlar o que cada um estava a fazer e a dizer", recorda quem participava nas reuniões.

O humor melhorava ao longo do dia. Sem nunca pedir desculpa por qualquer frase irrefletida ou injusta, mas também sem guardar rancores. As reuniões de segunda-feira, em São Bento, "eram o fim do mundo, de partir tudo", descreve um dos participantes. "Fazia o que queria quase a 100 por cento. Mesmo quando era aconselhado a não fazer." Se as escutas dos investigadores da Operação Marquês a Sócrates duram há 11 meses, como é público, então várias das conversas devem ser, no mínimo, afiadas. "Nem quando já se sabia das investigações do Face Oculta ele deixou de dizer ao telemóvel o que lhe apetecia. Quando era aconselhado a moderar-se, irritava-se: 'Digo o que quiser, falo como quiser, com quem quiser'", relembram alguns dos mais próximos.

Sócrates vai à luta

Um dos seus prazeres eram os almoços e jantares com amigos que manteve entre Paris e Lisboa, já depois de sair do Governo (Pedro Silva Pereira, Vieira da Silva, Edite Estrela, José Lello, Renato Sampaio, entre outros). Quem o acompanhou em muitas dessas ocasiões, descreve-o assim: "Gosta de manter uma conversa mundana, mas útil. Há sempre um interesse que o leva a sentar-se à mesa de um restaurante com alguém." No gabinete, recebia Mário Soares e António Vitorino, dos poucos a quem admitia conselhos. Fora das funções, apreciava as opiniões de Sérgio Figueiredo, ex-jornalista, diretor-geral da Fundação EDP e indigitado para diretor de Informação da TVI.

Reduzido nas últimas semanas à condição de preso número 44, a aguardar os desenvolvimentos da Operação Marquês, como reagirá ele, segundo alguns dos seus antigos colaboradores e estrategas de comunicação? "O estilo Sócrates é pôr tudo a mexer. E isso já está a acontecer. Quanto mais passarem os dias, mais vai crescer a onda de indignação a favor, subjacente à ideia de que, independentemente das provas, um ex-primeiro-ministro não deve estar preso", admitem. Em resumo, vai lutar até ao fim. "É um político que se deixa levar pela vertigem, para o bem e para o mal. Se lhe disserem que vai bater contra a parede, ele não ouve: bate e continua, pronto para outra".

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