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As lições de Berlim

Portugal

Luis Filipe Catarino / Presidencia da Republica

Cavaco Silva quer "esperança e determinação" da Europa na luta contra a "chaga do desemprego"

Paulo Pena

Debaixo de um céu cinzento, como o estado da Economia, Cavaco Silva passou a Porta de Brandeburgo de oeste para leste.

A passagem, simbólica, da velha fronteira de Berlim que marcou a Guerra Fria, durou uns breves minutos, pautada pelas indicações históricas do bem-disposto burgomestre da capital alemã, Klaus Wowereit. O curto trajecto apenas incomodou um berlinense que ganha a vida, vestido com o uniforme do Exército Vermelho, a carimbar passaportes de turistas com a heráldica extinta da Cortina de Ferro. Quando o Muro caiu, há 20 anos, Cavaco Silva era primeiro-ministro. E o futuro parecia bem menos sombrio.

O passado é uma oportunidade de negócio. Fraca, num dia como este. Mas Cavaco Silva trouxe bem estudada a "lição de Berlim", como lhe chama: "O grande símbolo de Berlim não é mais um Muro que dividia, mas as Portas que se abrem para que os homens convivam entre si", afirma o Presidente português no Hall of Arms da câmara municipal. A mesma ideia repete-a no banquete oferecido pelo Presidente alemão Horst Köhler, no Palácio de Bellevue, na noite de terça-feira, 3: "As adversidades de hoje provam as vantagens do projecto europeu e exigem mais e melhor Europa." Horst Köhler e Cavaco Silva são dois homens sensivelmente da mesma idade e têm fama de "introspectivos".

Vêm, ambos, de partidos de centro-direita (Cavaco do PSD e Koeller da CDU alemã). Não têm poder executivo.

E, para mais, são economistas. Mas se, há quase 20 anos, ambos negociavam, entusiasmados, o Tratado de Maastricht e as regras da moeda única, hoje são duas vozes que clamam por mudança.

No dia em que iniciou, segunda-feira, 2, esta visita de Estado à Alemanha, com passagens por Berlim, Munique e Osnabruk, Cavaco Silva viu um dos principais diários alemães, o Frankfurter Allgemeine Zeitung chamar-lhe "um político para tempos difíceis ". No dia seguinte, numa entrevista publicada pelo mesmo jornal, Cavaco pediu mais eficiência na regulação no sector financeiro e exigiu "reformas, rapidamente".

Dizendo-se "sempre social-democrata", Cavaco pode agora recordar aquela sua definição de há quase 20 anos, confiando no curso acelerado de história económica que a crise tem promovido: "Sou um neo-keynesiano ", disse, nos tempos da sua maioria, quando lhe perguntaram se era um liberal.

Por isso, Cavaco foi dos primeiros políticos europeus a apontar o dedo às remunerações altas dos gestores (no discurso de Ano Novo de 2007) e hoje elege, como a primeira prioridade, o combate à "chaga do desemprego".

UM AUTÓGRAFO COMO OBAMA

Se é na economia que Cavaco Silva está à vontade e "sabe do que fala", como, a propósito, sublinhou Horst Köhler, não terá deixado de apreciar uma referência cinematográfica, em plena exposição dedicada a Manoel de Oliveira, na Academia das Artes de Berlim.

O comissário, João Fernandes, acompanhou o Presidente, a sua mulher, Maria Cavaco Silva, e o cineasta ao longo do recinto. E à frente de uma projecção de uma cena de Vale Abraão (inspirado no romance Madame Bovary, de Flaubert, e escrito por Agustina Bessa-Luís), apontou aquele que considera ser "um dos mais belos travellings do cinema português", a deslocação da câmara por um laranjal.

Cavaco trouxe à Alemanha uma comitiva cultural abrangente: dos consagrados Manoel de Oliveira, Siza Vieira e Carrilho da Graça (estes últimos figuram numa exposição inaugurada em Berlim sobre arquitectura portuguesa fora de Portugal), aos mais novos, como o escritor Gonçalo M. Tavares ou a fadista Kátia Guerreiro.

À entrada para a inauguração dedicada a Oliveira, Cavaco é surpreendido por um jovem alemão que lhe estende uma fotografia sua e uma caneta. O Presidente hesita.

É Maria Cavaco Silva quem lhe pede para quebrar o protocolo e assinar a fotografia.

O jovem alemão calha ser um coleccionador de retratos autografados de presidentes.

"Já tenho fotos de Obama, de Putine", garante-nos.

Sem ser ríspido ou carrancudo, Cavaco Silva não improvisa, mesmo em ambiente descontraído. Enquanto ouve a explicação de João Fernandes sobre a obra de Oliveira, apenas uma vez interpela o "mestre". E é para gracejar com uma aparição de Oliveira, dedilhando uma guitarra portuguesa, a cantar um fado a Maria de Medeiros: "Não lhe conhecia essa faceta..." Solto, assim mesmo, só quando pôde, por fim, conhecer pessoalmente, aqui em Berlim, a jovem artista plástica portuguesa Adriana Molder. A razão é simples: Adriana foi a primeira jovem artista a ser "patrocinada" pelo actual Presidente, na visita de Estado a Espanha, em 2006. Mas só três anos depois a conheceram.

Adriana faz parte da pujante comunidade artística portuguesa radicada em Berlim.

Cavaco aproveitará o último dia da sua estada na capital alemã, quarta-feira, para a conhecer. Depois, rumará a Munique, onde visitará um dos grandes investidores alemães em Portugal, a Siemens. A visita termina na sexta-feira, 6, em Osnanbruk, sede da Volkswagen, que lidera o consórcio Autoeuropa.

É na Baixa-Saxónia, um dos destinos preferenciais da emigração portuguesa, que Cavaco Silva dará continuidade a uma das imagens de marca do seu mandato: comemorar a data da sua eleição com uma comunidade emigrante portuguesa.

Balanço

Os marcos do mandato

Cronologia dos principais acontecimentos em Belém, nos últimos três anos 

2006

>> 9 DE MARÇO Tomada de posse de Cavaco

>> 25 DE ABRIL Discurso, no aniversário do 25 de Abril, no Parlamento, sobre desigualdades sociais

>> 2 DE JUNHO Veto da Lei da Paridade que, para o PR, prevê sanções excessivas para os partidos que não cumpram as quotas de mulheres nas listas

>> 11 DE JULHO Promulgação da lei sobre a procriação medicamente assistida, com envio de mensagem ao Parlamento

>> 5 DE OUTUBRO A intervenção nas comemorações da implantação da República é dedicada à corrupção e à moralização da vida pública

>> 10 DE NOVEMBRO A Presidência apadrinha o Conselho da Globalização, que reúne empresários portugueses e estrangeiros

>> 16 DE NOVEMBRO O PR dá uma entrevista à SIC, a primeira do seu mandato, e elogia o "ímpeto reformista" do Governo 

2007

>> 1 DE JANEIRO Na mensagem de Ano Novo, Cavaco exige "progressos claros" na Economia, Educação e Justiça 

>> 6 DE MARÇO Após a demissão de Alberto João Jardim do Governo madeirense, o PR convoca eleições regionais antecipadas

>> 4, 23 E 29 DE AGOSTO Cavaco veta o Novo Estatuto dos Jornalistas, o diploma sobre responsabilidade civil extracontratual do Estado e a lei orgânica da GNR 

2008

>> 29 DE FEVEREIRO O PR passa a integrar a rede social de talentos portugueses The Star Tracker

>> 15 DE MARÇO Cavaco devolve o decreto-lei que permitia que a gestão da frente ribeirinha passasse da Administração do Porto de Lisboa para a Câmara

>> 4 E 31 DE JULHO Treze artigos do Estatuto Político-Administrativo dos Açores são enviados ao Tribunal Constitucional (TC) para fiscalização preventiva. Oito pontos "chumbam" e Cavaco faz uma comunicação ao País para explicar as suas dúvidas 

>> 20 DE AGOSTO A lei do Divórcio, proposta pelo PS, é vetada por Cavaco Silva, com argumentos políticos

>> 27 DE OUTUBRO Segundo veto ao Estatuto dos Açores. Desta vez, o PR não tem dúvidas constitucionais, o veto é político

>> 12 DE DEZEMBRO Cavaco pede ao TC a fiscalização de uma norma do Código do Trabalho, relativa ao alargamento do período experimental 

2009

>> 14 DE JANEIRO O decreto-lei para rever as bases da concessão rodoviária nacional à Estradas de Portugal é devolvido

>> 3 DE FEVEREIRO Veto político ao diploma que acabaria com o voto por correspondência dos emigrantes, nas legislativas

>> 2 DE MARÇO Devolução ao Parlamento da Lei do pluralismo e da não concentração dos meios de comunicação social