Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

António Costa: Perfil do candidato à liderança socialista

Portugal

Há 40 anos a esticar a corda. Teso, determinado, obstinado, astuto, batalhador e paciente são alguns adjetivos que ajudam a traçar um retrato instantâneo do homem que desafiou o secretário-geral do PS, António José Seguro

Com um ano
1 / 15

Com um ano

António, aos 10 anos, com o irmão Ricardo
2 / 15

António, aos 10 anos, com o irmão Ricardo

No dia em que se filiou na Juventude Socialista, tina 14 anos
3 / 15

No dia em que se filiou na Juventude Socialista, tina 14 anos

É assim que se sorri quando se tem 10 anos
4 / 15

É assim que se sorri quando se tem 10 anos

Na praia, com o pai, o escritor Orlando Costa
5 / 15

Na praia, com o pai, o escritor Orlando Costa

Aos 15 anos, num Congresso da JS
6 / 15

Aos 15 anos, num Congresso da JS

Entre os ‘crescidos’ Jaime Gama, Jorge Sampaio e Salgado Zenha
7 / 15

Entre os ‘crescidos’ Jaime Gama, Jorge Sampaio e Salgado Zenha

Burro vence Ferrari na Calçada de Carriche. A sua campanha de 1993 abanou o poder comunista em Loures
8 / 15

Burro vence Ferrari na Calçada de Carriche. A sua campanha de 1993 abanou o poder comunista em Loures

Com Almeida Santos e António Guterres, na fase áurea do guterrismo, 1998
9 / 15

Com Almeida Santos e António Guterres, na fase áurea do guterrismo, 1998

Governo de saída. Após a derrota nas eleições de 2002, com Ferro Rodrigues, Jorge Coelho e António José Seguro
10 / 15

Governo de saída. Após a derrota nas eleições de 2002, com Ferro Rodrigues, Jorge Coelho e António José Seguro

Frente a frente com o rival Santana Lopes, na sua segunda corrida à Câmara de Lisboa
11 / 15

Frente a frente com o rival Santana Lopes, na sua segunda corrida à Câmara de Lisboa

Cumprimentado pelo amigo e apoiante, Carlos César, ex-chefe do governo açoriano
12 / 15

Cumprimentado pelo amigo e apoiante, Carlos César, ex-chefe do governo açoriano

Manuel Alegre apoiou-o nas autárquicas. Agora volta a estar ao seu lado
13 / 15

Manuel Alegre apoiou-o nas autárquicas. Agora volta a estar ao seu lado

Costa esteve entre os primeiros apoiantes de Sócrates. Este retribui agora
14 / 15

Costa esteve entre os primeiros apoiantes de Sócrates. Este retribui agora

Após o primeiro ameaço de guerra, a trégua no congresso de 2013 durou pouco
15 / 15

Após o primeiro ameaço de guerra, a trégua no congresso de 2013 durou pouco

Teso, determinado, obstinado, astuto, batalhador e paciente são alguns adjetivos que ajudam a traçar um retrato instantâneo do homem que desafiou o secretário-geral do PS, António José Seguro, no último de uma sucessão de episódios colecionados em quatro décadas

A analogia com Obélix a cair, em pequeno, no caldeirão da poção mágica, o adágio "de pequenino se torce o pepino" ou a metáfora "bebeu a política no leite materno" são lugares demasiado comuns para descrever a faceta pública de alguém como António Costa. Alguém habituado a esticar a corda desde muito cedo.

O episódio que, nos últimos dias, traz o Partido Socialista às sacudidelas por dentro é só o mais recente, num rol extenso. Ou não fosse ele nas palavras de Rui Pena, seu antigo colega no último Governo de António Guterres, "um indivíduo teso e determinado".

Comecemos a desfiar o rol desde o início. E regressemos aos tempos do ciclo preparatório, quando António Luís Santos da Costa, hoje com 52 anos, frequentava um polo da Escola Francisco Arruda, criado no Conservatório Nacional pela reforma de Veiga Simão, ministro da Educação de Marcelo Caetano. A revolução de 1974 pôs fim à experiência pedagógica liderada pela artista plástica Isabel Laginhas, que seria saneada.

Num ambiente altamente politizado, os alunos mobilizaram-se, criaram uma associação e ocuparam o Conservatório em protesto contra o saneamento da diretora. Chamado a intervir, o COPCON entrou pela escola dentro, correndo atrás dos alunos para os expulsar. Houve manifestações, a decisão coletiva de se chumbar o ano e chegou a resistir-se em cima do telhado de pedras na mão. António Costa, tinha 12 anos e, numa entrevista ao Jornal de Negócios, recorda o incidente como um dos momentos mais infelizes da sua vida. "Já na altura ele era muito politizado", recordam antigos colegas e professores.

Espantoso seria que não fosse. O pai, o escritor neorrealista Orlando da Costa, militou no PCP de 1954 até morrer, em 2006 e esteve preso três vezes nos calabouços da PIDE. A mãe, a jornalista Maria Antónia Palla, levou-o a Itália, ainda antes do 25 de Abril, para participarem numa manifestação de solidariedade com o Governo legítimo do Chile liderado por Salvador Allende, que fora derrubado pelo sangrento golpe do general Pinochet.

Babush (menino), como o pai, de origem goesa, lhe chamava em concani, a língua de Goa, despertou cedo para a política. Aos 14 anos, bateu à porta da sede do PS de São Pedro de Alcântara, para preencher a ficha da Juventude Socialista.

A sua primeira campanha eleitoral foi a das eleições para a Assembleia Constituinte, em 1975, feita ao lado do então líder da JS, Alberto Arons de Carvalho, 12 anos mais velho, de quem em pouco tempo se tornou íntimo. Nunca faltou a nenhuma campanha do PS. E o único comício de encerramento em que não esteve presente foi o das últimas europeias, a 23 de maio, por ter sido, enquanto presidente da Câmara de Lisboa, o anfitrião do jantar oficial da Liga dos Campeões.

Terminado o liceu, no Passos Manuel, foi estudar leis. Na Faculdade de Direito de Lisboa embrenhou-se no movimento associativo, tornando-se dirigente da Associação Académica durante dois anos. Por essa altura, início da década de 80, começou a frequentar, pela mão de Arons de Carvalho, as reuniões conspirativas, no sótão da casa de António Guterres, em Algés, nas quais se discutia o futuro do partido e se "fez a cama" a três secretários-gerais, Mário Soares, Vítor Constâncio e, finalmente, Jorge Sampaio. Este último esteve inicialmente no grupo que incluía, entre outros, Salgado Zenha, Arons de Carvalho e António Arnaut, mas acabou por perder a liderança para Guterres, numa luta fratricida, que, em 1991, ameaçou partir o PS ao meio.

Nas legislativas desse ano, Cavaco Silva garantiu ao PSD uma segunda maioria absoluta, recolhendo mais de metade dos votos, ao passo que o PS, liderado por Sampaio se ficou pelos 29,1 por cento. Embora tivesse assumido a derrota, o então edil de Lisboa, argumentou com a subida da votação nas europeias e nas autárquicas de 1989, para manifestar a sua intenção de continuar ao comando.

É nessa altura que António Guterres entra numa reunião do partido e diz: "Estou chocado...!" Passados 25 anos, ouvir-se-á a António Costa uma tirada idêntica perante a anémica vitória obtida pelo atual secretário-geral socialista nas europeias do mês passado: "Temos de fazer tudo para evitar a maior tragédia que seria chegar às legislativas com resultados iguais a este".

Ao lançar essa bomba também ele precipitou uma guerra que persistia latente no PS. Tal como Guterres desfez a paz podre entre sampaístas e guterristas, ele abriu uma guerra em que os costistas se aliam aos jovens turcos contra seguristas. Costa e Seguro estão em barricadas opostas, tal como há 25 anos.

Estágio com Sampaio

"António Costa esteve em todas as batalhas internas e externas do PS", diz Vítor Ramalho, um soarista da velha guarda, que já declarou publicamente o seu apoio ao atual edil lisboeta. O antigo secretário de Estado da Economia conhece-o do tempo em que ele fazia o estágio de advocacia no escritório de Jorge Sampaio, José Vera Jardim e Júlio Castro Caldas.

Babush nunca terá levado muito à letra o conselho paterno: "Não amadureças muito depressa." O rapaz não só amadureceu, como aprendeu depressa e isso não apenas na intriga política. Desde cedo sobressaiu, como o mais novo, e deu nas vistas pela positiva. Mais arguto do que calculista, saiu-se bem nas leis. Fez questão de aprender e exercer o ofício.

Tanto Sampaio, como Vera Jardim o conhecem desde miúdo, uma vez que ele é sobrinho de Jorge Santos (irmão da mãe), também sócio daquele escritório

"Foi meu estagiário", afirma Vera Jardim. "Mas o Jorge Sampaio e eu temos dúvidas sobre qual de nós terá sido, de facto, o patrono."

O certo é que, depois do estágio, ficou mais dois ou três anos no escritório e acabou por trabalhar mais com Vera Jardim. Em 1994 os dois causídicos assumem a defesa de Vuvu Grace, uma jovem mãe zairense que chegou ao aeroporto da Portela, com a sua filha Benedicte, de 6 anos, para visitar o marido. A africana e a criança ficaram retidas pelo SEF (Dias Loureiro era ministro da tutela e Cavaco primeiro-ministro), por não terem bilhetes de regresso. Os dois advogados agarram no "caso Vuvu", levando a tribunal uma providência cautelar, e o PS coloca-o na agenda política. A causa foi ganha e Vuvu ficou.

Durante uns tempos, Costa acumulou a política com o Direito. Foi deputado à Assembleia Municipal de Lisboa (1987 a 1993), e tornou-se uma figura central na ampla coligação de esquerda liderada por Sampaio nas autárquicas de 1989. Ao mesmo tempo, integrou o Secretariado Nacional do PS (1987-90); a seguir foi deputado à Assembleia da República (1991-95), e, em 1994, regressou ao Secretariado do partido.

Dessa época, é o arrojo da sua candidatura à Câmara Municipal de Loures, em 1993, que melhor fica registado na memória do folclore de campanha. A disputa daquela edilidade na periferia de Lisboa com os comunistas, que a governavam em maioria absoluta desde 1980, foi taco a taco.

Um burro contra 300 cavalos

Tido como um dirigente político "muito disponível para ouvir ideias loucas", segundo um amigo de longa data, Costa embarcou nessa campanha eleitoral com uma corrida entre um Ferrari encarnado pedido emprestado a um amigo e um burro, em plena hora de ponta, num dos mais tormentosos acessos à capital: a Calçada de Carriche. O asinino levou a melhor sobre os mais de 300 cavalos do motor do carro de fabrico italiano. E Costa roubou a maioria absoluta ao PCP coligado com os verdes. Ao contrário do burro triunfante, só não ganhou por um triz, obtendo 33,53% dos votos e elegendo quatro vereadores, contra 34,64% (e outros quatro vereadores) dos comunistas. A corrida contra Demétrio Alves foi renhida ao ponto de a dada altura, durante a contagem dos votos, se ter chegado a pensar que Costa ganhara, como recorda Vítor Ramalho, tendo havido televisões que anunciaram a sua vitória.

Entretanto, também faz uma pós-graduação em Estudos Europeus, casa e tem dois filhos.

É obstinado. "Muito focado, dedicado aos pormenores", afirma João Tiago Silveira, ex-colega nos governos de Guterres e Sócrates. "Propõe as medidas e sabe pô-las em prática", sublinha.

É informal, por vezes anárquico. Mas, acima de tudo, não dá ponto sem nó. E, no caso da corrida de Loures, apoiou a iniciativa num estudo que, na altura, dava conta de que as pessoas da periferia de Lisboa perdiam em média sete anos de vida ativa em transportes a caminho dos seus locais de trabalho na capital.

Em meados dos anos 90 do século passado, decidiu suspender a advocacia para se dedicar a tempo inteiro à política.

"Teria dado um belíssimo advogado, se não tivesse deixado a carreira. Era um jurista inteligente, muito arguto, batalhador", destaca José Vera Jardim, que, em 1995, voltou a cruzar-se com ele. Mas desta vez no primeiro Governo de António Guterres. Vera Jardim, presidindo à pasta da Justiça, e Costa, inicialmente, como secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, até 1997, quando sobe a ministro da mesma pasta.

Passados dois anos, no segundo Executivo, assume o lugar anteriormente ocupado por Vera Jardim. Este será um ponto alto da sua carreira política tanto pela complexidade dos dossiês que lhe foram parar às mãos, como pelas idiossincrasias de uma governação marcada por crises, convulsões, resultantes da falta de coordenação e de determinação do primeiro-ministro, que muitas vezes reagia às situações quando já era tarde demais. "Guterres é uma excelente pessoa, um tipo sensacional, mas não era muito interventivo. Procurava a concertação e não a confrontação", recorda Rui Pena.

Muito focado e atento aos pormenores, como diz João Tiago Silveira é nessa época que Costa faz brilhar as suas capacidades com maior acuidade. "Propõe as medidas e sabe pô-las em prática." Coisas como o Simplex e Empresa na Hora são ideias desse período. E dele. É-lhe também atribuída a grande reforma do contencioso administrativo.

Dentro do partido, desempenhou o papel de negociador e de conciliador, quando, em fevereiro de 2001, a bancada parlamentar, integrada por vários ministros do Executivo anterior, se rebelou, aberta e publicamente, contra Guterres, acusando-o de falta de bandeiras e de determinação. Foram os casos, em fevereiro de 2001, de Manuel Alegre e João Cravinho (anterior ministro do Equipamento).

"Costa foi um dos elementos determinantes a fazer a ponte entre o Governo e o grupo parlamentar, conseguindo um apaziguamento relativo", nota Rui Pena, antigo homem do CDS repescado por Guterres para ministro da Defesa, no seu segundo consulado.

Guterres encostado à parede

Mas não foi apenas essa faceta que mostrou. Já uns dois meses antes, revelara também a do político hábil que estica a corda ao ponto de encostar o próprio primeiro-ministro à parede.

No final de novembro de 2000, o secretário de Estado dos assuntos Fiscais, Ricardo Sá Fernandes (um independente), participara numa iniciativa promovida por Marcelo Rebelo de Sousa intitulada Noites da Oposição, falando sobre o "caso Camarate". Sá Fernandes alegou ter novas provas sobre o desastre em que morreram Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, em 1980, e apontou o dedo aos vários governos que, segundo ele, nada fizeram para esclarecer o caso.

Costa, ministro da Justiça na altura, não gostou. Dois dias depois, mostrou-se incomodado, numa reunião do conselho de ministros, acusando Sá Fernandes de ter violado os deveres de solidariedade institucional e de respeito mútuo. Mais: aborreceu-o o silêncio e a passividade do Governo, de Guterres em particular. Isso foi numa quinta-feira. Na segunda seguinte, 4 de dezembro, Costa convocou a imprensa para o salão nobre do Ministério e, ao meio dia, anunciou a sua demissão em direto.

Logo a seguir, toca o telemóvel. É Guterres. Ele não atende. O telefone continua a tocar e o chefe do Governo toma um medida inaudita: envia um motorista de telemóvel na mão com o pedido expresso para que atenda. Ainda assim, Costa mantém o silêncio.

Pouco depois, à hora do almoço, Guterres toma uma posição, através de um comunicado oficial: segura o ministro e desautoriza o secretário de Estado, que anuncia a sua demissão antes das quatro da tarde. Ainda nessa tarde, o chefe de Sá Fernandes, Pina Moura, ministro das Finanças, sai em defesa do seu secretário de Estado e passa a constar da lista de remodeláveis, acabando por sair do Governo, em julho do ano seguinte.

Com o guterrismo atascado no pântano, em 2002, o País vai a votos e o PS para a oposição a Durão Barroso e, depois, a Santana Lopes. Costa fica como líder parlamentar. Quando, em 2003, estala o escândalo Casa Pia e o deputado e porta-voz do PS, Paulo Pedroso, é preso, a liderança de Ferro Rodrigues é seriamente abalada. Costa, Ferro e outros dirigentes socialistas têm o telefone sob escuta e chegam a público transcrições comprometedoras. É um dos piores momentos da vida política e pessoal do atual presidente da Câmara lisboeta.

A SIC, a estação televisiva então dirigida pelo seu meio irmão, Ricardo Costa (atual diretor do Expresso), é a primeira a transmitir essas transcrições, expondo António Costa a acusações de tentativas de favorecimento e obstrução da justiça.

Entre os irmãos há uma espécie de pacto, que se pode sintetizar numa frase escrita por Ricardo, na semana passada naquele semanário, num texto intitulado Carta a um irmão político:

"Temos a vantagem de saber que nunca teremos de fazer um frente a frente, mas temos a desvantagem de saber que o Expresso te vai cair em cima de quando em vez e que tu vais tentar cair em cima do Expresso."

Com Sócrates

Com Ferro Rodrigues a relação esfriou, no momento em que o secretário-geral substitui Costa na liderança da bancada socialista por António José Seguro. Foi quase a contragosto que ele aceitou, em 2004 ser o número dois de uma lista às eleições europeias encabeçada por Sousa Franco. A morte deste em plena campanha eleitoral, colocou-o em primeiro lugar. Mas Costa mal teve tempo para aquecer o lugar em Estrasburgo. Quando Ferro decidiu não se demitir depois do então Presidente Jorge Sampaio optar por não convocar eleições na sequência da demissão de Durão Barroso (que ia assumir a presidência da Comissão Europeia), Costa seria dos primeiros a aparecer ao lado de Sócrates.

Este há de chamá-lo logo em março de 2005 para seu braço direito no Governo: o cargo de ministro de Estado e da Administração Interna. Mas a sua permanência no Executivo é curta e levemente beliscada pelo Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança em Portugal (SIRESP). A polémica em torno desta rede de comunicações móveis comum às forças de segurança, emergência médica e proteção civil, cai-lhe literalmente no colo. Trata-se de uma parceria público-privada, no valor de 538 milhões de euros, adjudicada pelo seu antecessor, Daniel Sanches (PSD) e ferida de suspeitas de irregularidades. António Costa pediu vários pareceres. Um deles, da Procuradoria-Geral da República, decretou nula a adjudicação feita por Sanches. Mas o concurso continuava válido e Costa não podia anulá-lo. Contudo, teve a possibilidade de optar por não adjudicar o sistema à Sociedade Lusa de Negócios (detentora do BPN), considerando que a proposta feita não era satisfatória. Costa limitou-se a renegociar o contrato, descendo o preço em cerca de 50 milhões de euros, mas prescindindo de algumas funcionalidades do sistema.

Depois andou, pelo menos desde 2000, com a Câmara de Lisboa na mira e conseguiu ganhá-la confortavelmente, nas autárquicas intercalares de 2007 e mantê-la em 2009 e 2013. Chegou, finalmente a número um, atingiu a emancipação política, construída com a mesma paciência com que, ao longo dos anos, montou puzzles de milhentas peças ou enrolou lombo de vaca em massa folhada para o bife à Wellington que gosta de servir aos amigos. Liberto dos sampaísmos, guterrismos, ferrismos e socratismos, pôde preparar o costismo que ganha força e expressão dentro do PS.

Costa está a provocar um fenómeno político que, à esquerda dos socialistas, é olhado com uma apreensão curiosa. Há muita gente nas franjas das esquerdas com vontade de se deixar convencer de que a sua candidatura é agregadora. Mas que também quer dele mais clarificação; que apresente ideias concretas em relação ao Tratado Orçamental, cuja assinatura por António José Seguro critica; que diga o que pensa em concreto sobre a renegociação da dívida, a reforma eleitoral, os círculos uninominais e a redução do número de deputados. Enfim, há uma esquerda à espera, para ver se Costa faz deslocar a esquerda para o PS, ou o PS para a esquerda.