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A rápida ascensão de Carlos Moedas

Portugal

Carlos Moedas fotografado no Jardim do Palácio de São Bento, Lisboa, a 29 de Agosto de 2011

Marcos Borga

História de como um alentejano de Beja se fez cidadão do mundo, conquistou sucesso e riqueza e, sem ser político profissional, chegou ao Governo português para ser interlocutor da troika. Dois anos e meio depois, aterra em Bruxelas como comissário europeu

Ainda não tinha começado a campanha para as últimas legislativas quando Eduardo Mira Cruz, 40 anos, um alentejano simpatizante do CDS, recebeu um telefonema surpreendente. "Eduardo, vou ser cabeça de lista pelo PSD em Beja e quero que tu me apoies." Do outro lado, a voz firme e decidida era de Carlos Moedas, o amigo de infância que nos últimos tempos aparecia com frequência na televisão quando o assunto era Orçamento do Estado ou troika, ao lado de Eduardo Catroga. "Fiquei sem saber o que fazer porque, apesar de não ser filiado, sou próximo do CDS", conta à VISÃO. "Apoio-te como amigo", acabou por lhe dizer. E à direita, mas também à esquerda, com o jeitinho especial das pessoas simples que se dirigem às pessoas simples, como reconhece Mário Simões, líder do PSD Beja, Moedas conseguiu fazer-se eleger, tornando-se o primeiro deputado laranja naquele distrito eleito depois de 2005.

Carlos Moedas é assim: um social-democrata entre democrata-cristãos, um filho de famílias remediadas entre meninos de bem, um laico recebido pelos judeus como se fosse um deles, um liberal e republicano que escreveu num blogue político com tendências monárquicas (o 31 da Armada), um engenheiro civil que virou gestor, um apoiante de Paulo Rangel que é agora braço-direito de Pedro Passos Coelho no Governo, um liberal educado por um comunista nada ortodoxo (ver caixas). Uma espécie de camaleão? "Nem pensar. Um camaleão molda-se aos outros. O Carlos não. Tem as suas ideias absolutamente claras e definidas e foi criado para conviver com a diferença", explica o amigo Manuel Castelo-Branco, 43 anos, atual administrador da Reditus.

"Ele não é nada meias-tintas como os camaleões ", reforça Sofia Galvão, 48 anos, advogada e uma das responsáveis pela sua entrada no gabinete de estudos do PSD.

"No fundo, eu sou genuíno. O que melhor me define é que eu sou uma pessoa apaixonada pelas pessoas. Gosto de ouvir, de falar, de observar as diferenças, as religiões. Sinto-me bem entre diferentes porque sou tolerante e porque me dá um grande gozo compreender vários mundos ", explica o próprio, à VISÃO.

DIA DE CAÍREM AS PESTANAS

Carlos Manuel Félix Moedas, nascido a 10 de agosto de 1970, em Beja, é o fruto de 11 anos passados no estrangeiro, das amizades que fez um pouco por todo o mundo e das raízes portuguesas. Um caldeirão.

Os amigos reconhecem-lhe pelo menos uma costela francesa (o gosto pela leitura), outra anglo-saxónica (que se nota nas palavras que usa, no rigor dos horários e no método) e outra alentejana (que lhe traz a bonomia, a boa disposição e a predileção por pratos como ensopados ou migas).

De uma infância e juventude passadas na capital do Baixo Alentejo, Moedas guarda sobretudo as relações afetivas.

"Conheço-o há mais de 30 anos, desde que fomos para o ciclo. Além da mãe e da irmã [o pai faleceu em 1993], ele mantém por cá um grupinho de amigos que foi sempre acompanhando o seu trajeto, mais ou menos à distância", conta Eduardo Mira Cruz, o democrata-cristão que apoiou a sua eleição.

Filho mais novo de um jornalista e de uma educadora de infância, o atual secretário de Estado foi criado à antiga, a jogar às escondidas, a apanhar pulgas com os cães e a esfolar os joelhos. "Lembro-me de andar na rua das oito às oito, sem telemóvel e sem que os meus pais se preocupassem. Chegava a meter-me à estrada de bicicleta, com os meus amigos, e a ir tomar banho nas barragens da zona. Era outro mundo!" O importante era não trazer problemas da escola e não trazia. "As notas dele eram sempre mais altas do que as dos outros todas juntas", lembra Eduardo.

"Às vezes até irritava." Ele é que se irritava pouco, mas quando acontecia...

"Quando alguma coisa corria mal, nós costumávamos dizer: 'Hoje é dia de lhe caírem as pestanas'." Ele reconhece que por vezes conseguia ser muito impaciente.

"Mas estou a melhorar. Chegava a ter dores de estômago e tudo."

DE PARIS PARA A TROPA

Teimoso e persistente até à última escala, o jovem Carlos Moedas não quis seguir a carreira que os professores lhe tinham destinado: ser médico. Aos 18 anos, ainda pouco convencido, foi para Lisboa estudar Engenharia Civil no Técnico. Mas nunca se sentiu engenheiro. Fez quatro anos de curso e, durante uma visita de estudo a França, convenceu-se de que o seu futuro podia passar por ali. Candidatou-se ao programa Erasmus e foi fazer o último ano à École Nationale des Ponts et Chaussées. Ficou em Paris entre 1993 e 1998.

Ainda antes de começar a desenhar estações de tratamento de águas e esgotos para a Lyonnaise des Eaux (um emprego conseguido através de um anúncio do Expresso), Moedas recebeu uma notícia das de fazer cair as pestanas. Tinha de deixar Paris para fazer quatro meses de tropa.

"Fui para a Escola de Engenharia em Tancos e depois vim para a Pontinha, mas no primeiro fim de semana em que me deixaram ir a casa só pensava no que me estava a acontecer. Como é que eu, numa semana, estava em França a começar a trabalhar e, na outra, estava ali metido?" De regresso a Paris, ainda esperou três anos para conhecer Céline. Aloirada, magra, de pele muito branca e olhos castanhos claros, a francesa judia acabaria por casar com Carlos, em 2000, também na cidade das luzes, debaixo de um chupah (toldo), como manda a tradição judaica (dela). Entretanto, passaram ambos pelos EUA, ligeiramente separados: ele em Boston, a fazer o MBA, ela em Nova Iorque, a trabalhar na Lectra.

CLUBES DE HARVARD

Carlos descreve esses 24 meses, passados numa das mais conceituadas universidades do mundo, como "os melhores anos" da sua vida. Depois de um primeiro período vivido num quarto partilhado do campus, concorreu a um apartamento, com o amigo Hugo Gonçalves Pereira.

Ficaram juntos. "Não éramos propriamente chefs gourmets, mas tínhamos lá amigos e gostávamos de os receber", recorda Hugo, de 37 anos. Compravam bacalhau nas lojas portuguesas da zona e faziam especialidades nacionais. "Era sobretudo o Hugo que cozinhava. Eu sabia fazer uns bifes com arroz", diz Carlos Moedas, divertido.

Em Harvard, estudavam e sociabilizavam. Depressa fizeram amigos para a vida. Nenhum dos dois tinha queda para o desporto, de modo que o "ginásio de cinco estrelas do campus" era um território pouco explorado pela dupla. "Eu sempre fui demasiado pequeno para ser bem sucedido no desporto. O meu hóbi era ser bom aluno. Mais tarde ainda tentei o golfe, mas aquilo demora muito tempo." O atual secretário de Estado não saiu dos EUA sem um emprego de sucesso, como prometem os panfletos da universidade.

Após um estágio na gigante da banca Goldman Sachs, em Londres, ofereceram-lhe um posto na empresa. Aí conheceria António Borges, com quem chegaria ao PSD. E também aí aprenderia métodos de trabalho que ainda conserva.

"É muito pontual, organizado e metódico e tem a escola americana do fazer acontecer. As coisas são para pensar, mas também para executar", descreve Stephan Morais, 37 anos, mais um amigo feito fora do País (em Paris) que foi o primeiro português a entrar para o Young Global Leaders e é vice-presidente do Banco Nacional de Investimento.

A NECESSIDADE DO REGRESSO

Na Goldman Sachs de Londres, Moedas ficou dois anos, especializando-se em fusões e aquisições. Entretanto nasceram-lhe dois filhos e mudou de banco, para o Eurohipo Investment Bank, um grupo especializado em aconselhamento imobiliário. No seu perfil da rede de talentos portugueses, a Star Trecker, lê-se que nessa fase da carreira "esteve envolvido em transações de grande relevo, como a compra da empresa imobiliária sueca Tornet pelo Grupo Lehman Brothers". As referências ao Lehman Brothers e ao grupo Carlyle, que o viria a incentivar a fundar uma empresa já em Portugal (a Crimson), motivam frequentemente a acusação de ter colaborado com alguns dos grandes responsáveis pela atual crise.

O regresso a Portugal foi desenhado a partir de Londres. "Sempre senti a necessidade de voltar. E não posso esconder que sempre tive um certo interesse pela política. Mas até para não ir contra o meu pai, que era comunista convicto, optei por nunca me meter em associações de estudantes ou coisas do género." A entrada na política não foi fácil. Na altura, Moedas estava na Aguirre & Newman, uma empresa imobiliária espanhola que lhe garantiu o regresso a Portugal, 11 anos depois de ter partido. "Essa primeira fase foi difícil. Estava no gabinete de estudos, mas não me conheciam bem. A primeira pessoa que me deu valor foi o primeiro-ministro que me disse: 'Sei que é trabalhador e gostava de contar consigo. Se ganhar as eleições internas, telefono-lhe no dia seguinte, de manhã.' E telefonou mesmo, o que me impressionou logo." Aí, já Carlos Moedas tinha mais uma filha e também o seu próprio negócio estabelecido desde 2008: a Crimson Investment Management. "Fui eu que sugeri o nome Crimson porque era a cor oficial da Universidade de Harvard (vermelho-escuro) e fazia sentido", conta um dos seus sócios, Hugo Gonçalves Pereira (os outros eram Pais do Amaral, João Brion Sanches, Filipe de Botton e Alexandre Relvas.

Foi com esta empresa que o Grupo Carlyle assinou um contrato de exclusividade para a gestão dos ativos que futuramente iria deter em Portugal.

Com escritório em frente a casa, nas Amoreiras, a Crimson proporcionou-lhe mais tempo de qualidade. Não precisava de usar transportes, podia ir levar os filhos à escola o Liceu Francês e ainda lhe sobrava tempo para tomar um café num quiosque do centro comercial antes de começar o dia de trabalho, normalmente passado entre telefonemas, "sempre longos, sempre ricos", como diz o amigo Castelo-Branco. Às vezes, os dois filhos mais velhos até iam para o escritório fazer os trabalhos de casa.

Três anos depois da fundação da Crimson, Moedas tornou-se secretário de Estado por convite de Passos Coelho e iniciou o processo de alienação de todas as suas participações na empresa. E mesmo longe de Harvard e sem bacalhau ou enchidos a acompanhar, está de novo sentado à mesa com pessoas de outros mundos representantes do Fundo Monetário Internacional, BCE e UE a discutir a execução das medidas da troika e a cozinhar soluções para Portugal. Um caldeirão. Mesmo como ele gosta.

 

Uma carta do pai ao filho

Ainda vivo, José Moedas escrevia as crónicas Vento Suão, no Diário do Alentejo, algumas das quais sob a forma de cartas dirigidas ao seu filho: "Olha, Carlos: depois de amanhã não é outro dia, é muito mais que domingo, é um outro ano que começa e, por isso mesmo, estou hoje a falar contigo. Depois de amanhã, Carlos, as coisas não deveriam estar como estão hoje, como decerto vão estar amanhã. Depois de amanhã, que é domingo, quando tu acordasses, quando acordassem todos os meninos, as coisas deveriam nascer diferentes. Não falo, está claro, das árvores, dos montes, dos rios, dos mares, das estrelas, da lua, do verde das searas, do cheiro dos aloendros e das estevas, muito menos da passarada chilreando de galho em galho. Não falo das coisas da natureza, nem das outras coisas igualmente belas e puras que são os animais. Depois de amanhã, as coisas que deveriam amanhecer diferentes eram os homens. Depois de amanhã, Carlos, quando tu acordasses, nenhuma criança, tua vizinha, ou de muito longe, deveria ter fome ou frio nem os pais sem ganho suficiente de lhes dar pão. Mais: quando tu acordasses, nenhum homem deveria estar em guerra, nenhuma arma deveria ter gatilho para disparar. Depois de amanhã, Carlos, deveria nascer um mundo novo, em que não houvesse meninos ricos e meninos pobres, porque os pais de todos os meninos tinham decidido unir-se numa só palavra, abraçar-se num só gesto. Depois de amanhã, que é domingo, deveria ser o ano primeiro da criação de um mundo diferente, aquele com que os poetas (ainda) sonham mesmo os que nunca foram meninos. Mas se não puder ser depois de amanhã, Carlos, que seja no outro dia, quando tu fores homem, quando forem homens todos os meninos de agora. Luta por isso, pá!"

Radiografia

O único secretário de Estado adjunto da história a ter assento no Conselho de Ministros e gabinete em S. Bento é alentejano, mas já viveu em Paris, Boston, Londres e Lisboa

1 - É casado com Céline Abecassis, francesa, judia, docente universitária e mãe dos seus três filhos

2 - O pai, José Moedas, era jornalista (carteira profissional n.º 5) e fundou o Diário do Alentejo. Há uma rua em Beja com o seu nome

3 - Faz parte da geração Blackberry: está sempre "ligado", é viciado em falar ao telefone e escreveu num blogue

4 - Projetou estações de tratamento de águas e esgotos depois de se licenciar em Engenharia Civil

5 - A biografia de Madeleine Albright e o filme Munich são duas das suas obras preferidas

6 - Filho de um comunista, assume-se como liberal de pensamento

7 - Entrou no PSD pela mão de António Borges, com quem trabalhou na Goldman Sachs

8 - Foi braço-direito de Catroga nas negociações do Orçamento e nas reuniões com a troika

9 - Em Portugal, fundou a Crimson, que começou por ter como principal cliente o Grupo Carlyle

10 - Tem um amigo, Manuel Castelo-Branco, que diz ter reconhecido as partes do programa do PSD escritas por ele "pela limpidez das ideias, pelos seus anglicismos e pela assertividade"