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A guerra dos tronos

Portugal

Dizem que poderá ser um momento de viragem na dinâmica da campanha. O debate televisivo entre Passos Coelho e António Costa será um megaevento mediático inédito, que reúne os três canais, três pivots. Os temas são previsíveis, as respostas preparadas, e milimetricamente calibradas. Mas pode haver surpresas...

 



Isto devia fazer parte da já "grande bíblia" dos debates políticos. Duas normas universais, aplicadas aos políticos em vésperas de um frente a frente. Quem o disse foi um dos mais reputados consultores de comunicação do País, António Cunha e Vaz: se vais debater com um homem mais alto do que tu, nunca o faças de pé; se vais debater com um gordo pede para aumentar a temperatura do ar condicionado.

Na arena televisiva, a forma como se diz, a postura, toda a expressão corporal pode pesar tanto ou mais do que a mensagem que se quer fazer passar. O ditame do consultor de comunicação poder parecer cruel ou mesmo fútil mas é uma óbvia referência à transpiração excessiva de Nixon que o fez perder o celebrizado debate com Kennedy. Passou mais de meio século, e nos bastidores de um debate como o de António Costa e Passos Coelho (esta noite, às 20h30, em direto na RTP1, SIC e TVI), continua, entre o staff e a equipa de cada um, a correrem conselhos, dicas, ajustes, "truques" deste tipo, para nunca aparecer inferiorizado frente ao adversário.  

Já fomos dos países com políticos mais parladores do mundo, já passámos por um "fartote de debates" (mais de cem), já quase os anulámos nas últimas autárquicas e europeias, e agora regressámos a uma nova modalidade: o debate sobre o debate. E o desentendimento sobre o debate: não sendo possível o debate a quatro (PSD, PS, PCP, BE) previsto na nova lei, as televisões de canal aberto desobrigaram-se de fazer um a seis (também com o PP e o PEV). Carlos Magno, presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, e que acompanhou a construção desta lei, afastando os debates das administrações, aproximando-os dos responsáveis editoriais, acredita que ainda há margem de manobra para que aconteça um debate alargado (agendado para finais de setembro): "Já vi coisas mais impossíveis acontecerem..." Segundo ele, o modelo de debates políticos em Portugal padece de um problema estrutural: "Deviam ser organizados pelas instituições - como a Gulbenkian ou Serralves - ou pelas universidades, como acontece nos EUA." Segundo ele, não estamos perante um género jornalístico. O debate, não sendo Tempo de Antena, está tão cheio de regras, de limitações, de tempos, espartilhos e "truques", que deixa de ser "um exercício livre de jornalismo": "É um teleacontecimento. Os jornalistas são fundamentais, mas não podem ser condicionados pelo espetáculo ou pelas regras dos partidos."

Costa e Passos irão debater em condições inéditas: "Nunca na história da democracia portuguesa se uniram três canais, com três equipas, partilha de meios e três moderadores (Clara de Sousa, José Adelino Faria e Judite de Sousa), com exibição em prime time (entre as 20h30 e 21h45, sem intervalo), em simultâneo nas três televisões", salienta Alcides Vieira, diretor de informação da SIC. Este debate será "o ponto alto da campanha", uma oportunidade única para estes dois líderes dos partidos com mais intenções de voto, em estado de quase empate nas sondagens.

'Correr benzinho'

A expectativa do espectador é sempre de que algo extraordinário aconteça, comenta Eduardo Cintra Torres, crítico de televisão, professor na Universidade Católica, e que acompanhou com detalhe os debates das presidenciais de 2005: "Os políticos, esses, já se dão por satisfeitos se o debate 'correr benzinho'": "Os danos de correr muito mal são maiores do que as vantagens de correr muito bem". O fundamental num debate, comenta João Tocha, consultor político, e que já acompanhou vários candidatos, é levar, em vez de um conjunto vasto de respostas, "três ou quatro ideias estruturantes que façam a diferença". Por outro lado, chama a atenção para a importância da comunicação não verbal: "Às vezes, pela postura, pela forma como estão vestidos, antes de eles abrirem a boca, já apanhámos a mensagem. Pode acontecer que eles digam uma coisa e o nosso cérebro capte outra." Desta vez, teremos pela frente "dois seniores da política portuguesa - Passos ganhou à-vontade e Costa também não é virgem, embora às vezes se enerve...": "Nenhum ganha nada em hostilizar o adversário. O objetivo é fazer passar, de forma verbal e não verbal, ideias simples, sem agressividade excessiva, mas com energia." É preciso pensar, refere, que num debate, cada um tem apenas cerca de 15 minutos úteis para expor os temas fundamentais, o que é muito pouco. O que sobra é para as réplicas, repetir as ideias, repisá-las e passar algumas novas. "Daí o candidato dominar um bom sentido de timing e uma boa gestão do tempo, para não se perder em assuntos acessórios." ?O tempo, insiste, é um pormenor que tem de estar muito bem assente na cabeça do candidato. E o marketing político "vai muito além do bigode e da gravata...": "Se aquilo que diz não joga com a maneira como se veste ou com o tom de voz, as coisas 'não colam'..." Cruciais são as equipas: "Devem estar rodeados de pessoas com tarefas distribuídas e que recapitulem tudo o que foi dito pelo adversário, de forma a prever todas as questões, para que o candidato não seja apanhado desprevenido e em direto com algo incómodo." Mais importante de tudo: "Não estarem rodeados de yes man, pessoas do aparelho tão apostados em agradar que são incapazes de contrariar os líderes, e acabam por não lhes dizer algumas verdades, duras mas úteis."

Por seu lado, retoma Eduardo Cintra Torres, é preciso ter sempre em conta que "um espectador não é um eleitor". Neste caso de quase empate nas sondagens, o debate de dia 9 pode funcionar "como um tira-teimas para os hesitantes, e para reforçar a intenção de voto dos já convencidos". Será uma espécie de final de campeonato, "um Sporting/Benfica", e poderá, avisa, ser marcante, "mesmo que nada nos fique do que eles digam". A retórica dos políticos de há 40 anos mudou muito, "dantes falavam como se escrevessem", faziam intervenções muito longas, fechadas, depois tiveram de adaptar-se à linguagem televisiva. Nunca é possível prever o que é que exatamente os espectadores querem ouvir. "As próprias pessoas, se calhar, também não sabem." Nem o quê nem como, mas o professor garante que já ninguém está disposto a ouvir a palavra "promessa". Dá como exemplo "o cartaz evangélico" do PS: "Se fosse há uns anos não tinha havido polémica, talvez uns dissessem que era piroso, não mais. Hoje, as pessoas estão muito mais intolerantes, ganharam uma aversão à ideia de promessas." Os políticos já perceberam, diz. Substituíram a palavra "promessa" por "compromisso". E "confiança" parece ser um termo disputado por Costa e Passos. Têm ambos uma grande fluência, mas, adverte, "Costa tem 'comunicação a mais' um vício de comentarista. E nós não estamos aqui para eleger um comentador televisivo, mas um deputado e um primeiro-ministro"

Chover no molhado

Mesmo com comícios, redes sociais, ações diretas, arruadas, os debates - seja por tradição ou porque ainda ninguém descobriu forma mais eficaz de comunicar com o eleitorado -, continuam a ser considerados o ponto alto das campanhas. Alexandre Guerra, consultor de comunicação e coautor do recente livro Insondáveis Sondagens (Aletheia), continua a ter presente o referencial do debate Nixon/Kennedy ("é importante a sua análise a nível dos pequenos pormenores"), ocorre-lhe também que transpirar em televisão pode ser "devastador para a comunicação política". "Há sinais importantes, que dão aspeto de fraqueza e que as pessoas não gostam de ver." Lembra que Kennedy raramente andava de sobretudo, dizia-se que punha muitas camisolas debaixo da camisa, para se revelar desportivo e imune ao frio. "A mensagem é importante, mas é fundamental a forma como ela é passada", defende. "A ideia de que as pessoas estão fartas de assistir a comunicação política é falsa. Os últimos debates nos EUA tiveram audiências à frente do The Daily Show. Os políticos portugueses têm alguma dificuldade em encontrar registos novos, em acompanharem os tempos." O que é paradoxal, refere, já que os mais jovens demonstraram uma capacidade de mobilização nas maiores manifestações depois do 25 de Abril. E lembra que, quando Obama revelou a sua playlist no Spotify, para alguns soou estranho, "mas se se vir bem é uma forma de chegar ao eleitorado mais jovem. Criam-se assim elos de ligação". Claro que há "soluções old school" que continuam a ser eficazes e eficientes, "mas é preciso dizer-se que o eleitorado jovem está interessado na política, mas não encontra compatibilidade no discurso e não se faz esforço nenhum para ir de encontro a essa linguagem". Suspeita que os reflexos de um debate, a quase a um mês das eleições, sejam nulos, na urna: "Agora, pode criar um efeito de motivação para uma força política e de desânimo para outra. Mais importante do que o debate, são os ecos que ele gera, e para os indecisos, que formam aquela massa flutuante, que não gosta de se sentir excluída, mas sim de se rever na opinião mainstream, e anda sempre a ver de onde sopra o vento, podem ser decisivos."    

Para Pedro Marques Lopes, analista político, este debate Passos?/Costa, "aliás, como qualquer outro debate, serve sobretudo para duas coisas: enquanto cimentador de convicções políticas e enquanto mobilizador dos descontentes da área política respetiva". "Estou absolutamente convicto de que ninguém muda da área do PS para o PSD, ou vice-versa, por causa de um debate. Apenas se sentem mais ou menos mobilizados pelo desempenho do candidato natural." Quer dizer que os candidatos estarão a falar para dentro do próprio eleitorado? "Naturalmente que sim. O problema do Costa é não conseguir mobilizar e é nisso que ele vai apostar. As pessoas até estão dispostas a votar PS, mas precisam que ele as convença. Para Passos, o debate conta pouco, uma vez que o seu eleitorado já está captado, pelo que indicam as sondagens." Por isso, afirma que uma vitória do Costa não será apanhar Passos em contradições ou captar os elogios dos comentadores subsequentes.  

Olhe que não...

É invariavelmente referido nas cadeiras de ciência política, o primeiro e mais analisado debate de sempre, e que permaneceu como case study para a História. Na noite de 26 de setembro de 1960, Kennedy, um jovem e inexperiente senador, era um perdedor anunciado. Mas contra todas as expectativas, Kennedy bate o "valor seguro Nixon", ao longo dos 60 minutos do duelo. Num artigo da revista Time, chega-se a afirmar que aquela noite não mudou apenas o curso da história presidencial - os analistas estão convencidos que Kennedy nunca teria sido Presidente dos EUA se não tivesse vencido aquele debate -, aquela noite, afirma-se, mudou o mundo. "Foi um daqueles pontos incomuns na linha do tempo da História, onde se pode dizer que as coisas mudaram muito dramaticamente - neste caso em apenas uma noite", confirma Alan Schroeder, professor de História dos Media da Universidade de Northeastern, também citado pela revista. A verdade é que nem Kennedy foi particularmente brilhante nem Nixon desastroso. O problema é que, à época, não se tinha ideia de como era importante a comunicação política televisionada. E perante um Nixon debilitado fisicamente, pálido e encurvado, que transpirava penosamente, postou-se um jovem bronzeado, na sua melhor forma. Tanto que aqueles que ouviram o debate pela rádio não percecionaram as coisas da mesma maneira, e ficaram convencidos de que Nixon teria realmente ganho. Décadas depois, nas suas memórias, o ex-Presidente haveria de admitir: "Prestei muita atenção ao que ia dizer e pouca ao como ia parecer." Mesmo que assistentes, em debates posteriores, tivessem "engordado" e até melhorado a aparência de Nixon, nada conseguiu esbater a primeira impressão. A TV virou a maré.

Mesmo em Portugal, assim que chegou a democracia, houve debates que ficaram na História. No meio de questões de alta complexidade, da independência de Angola, a poucos dias do 25 de Novembro, ninguém esqueceu a interpelação de Cunhal "Olhe que não, olhe que não..." a Mário Soares, em 1975. E houve volte-faces imprevistos: um inesperadamente intimidado Marcelo Rebelo e Sousa, nas autárquicas de 1989, perante um, esse sim, tímido que se revelou firme, Jorge Sampaio.

Em 2005, Santana contra Sócrates foi considerado um dos debates mais tensos da nossa História: "Valeu quase tudo", segundo o Expresso. Também memoráveis alguns fait-divers: como quando Carrilho se recusou a apertar a mão de Carmona. Ou Fernando Nobre se referia, numa inusitada metáfora, "a uma galinha que fugia com um bocado de pão no bico".    

Esqueletos no armário

Mas não só a transmissão simultânea dos três canais, o debate Costa/Passos tem algo de inédito na sua substância. "Por incrível que pareça", adianta José Neves, historiador, professor na Universidade Nova, "quem está sob escrutínio acaba por ser António Costa". E este é um facto novo nos debates dos últimos anos: a oposição parece estar mais na berlinda do que o partido do Governo e de todas as políticas de austeridade e de empobrecimento. A diferença entre o centro/direita e o centro/esquerda é difusa, afirma, e vai haver pouco embate de ideias. "A única linha política que diverge da austeridade pode entrar em rutura com a Europa, é o caso da CDU e do BE. O PS, não estando disposto a isso, não podendo ser muito antiausteridade para não ser antieuropeu, quer o melhor dos dois mundos. Marcar a diferença seria radicalizar o discurso, mas o PS encontra-se em cima do muro. Não há folga para se ser reformista no interior do Euro." António Costa, recorda o historiador, tem fama de ser um "político hábil" - "mas até no programa da Quadratura do Círculo, Pacheco Pereira tinha uma postura antigoverno mais agressiva" -, e Passos tem fama de ser um "político esperto" - "além disso adquiriu uma característica rara, que é uma serenidade extraordinária, ao contrário de Portas ou Sócrates". O problema, continua, é Costa não ter um PS alternativo para apresentar: "Não quer ter um discurso crítico da Europa e tem, por razões, internas um forte handicap no tema corrupção." Existe, segundo ele, um estranho clima de "guerra fria entre o PS e o PSD". "São partidos bloqueados, parece que existe entre eles um pacto não assinado, ambos têm muitos esqueletos no armário".