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A desforra da rua

Portugal

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O braço de ferro entre CGTP e Governo quanto ao "passa-não-passa" na Ponte 25 de Abril foi apenas o início da onda de contestação que aí vem

Centrais sindicais e movimentos sociais afinam os motores para a resposta ao novo pacote de austeridade do Executivo. E, em novembro, haverá nova greve da Função Pública

Iam os anos 80 no início quando os Jáfumega, uma banda nortenha então em ascensão, cantavam "A ponte é uma passagem para a outra margem/Desafio pairando sobre o rio/A ponte é uma miragem". A manifestação anunciada pela CGTP para este sábado, dia 19, na Ponte 25 de Abril, tinha também ela todo o caráter de um desafio. Mas esteve longe de ser um desafio de última hora. 

Há muito que a CGTP tem a tentação da Ponte 25 de Abril. É Arménio Carlos, o líder da central, quem revela: Começámos a discutir esta questão e a ponderá-la há meses!"  Mais ainda: a CGTP já esteve para recorrer a esta via, em ocasiões anteriores, que aquele dirigente se escusa a pormenorizar.

"Não só discutimos há muito esta hipótese, como já a testámos", conta Arménio Carlos. A última Marcha contra o Desemprego terá servido à CGTP como prova definitiva de que era possível avançar para essa solução a que várias vezes se sentira tentada. Só no último ano e meio, desde que Arménio Carlos chegou à liderança, esta central já fez desfiles seus passar pela Ponte Dom Luís, no Porto (duas vezes), pela Ponte de Vila Franca de Xira e pela de Viana do Castelo. "Ficámos a saber que era possível passar em todas elas. Não se percebe por que razão o Governo decidiu levantar obstáculos. Ou antes, percebe-se que é só por um motivo político." E lembra que, no Porto, não houve reservas à Ponte do Infante.

E no entanto... A Ponte 25 de Abril irá por agora continuar a ser, pelo menos nos termos que a CGT pretendia, apenas uma miragem. O ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, justificou o "não", invocando os pareceres técnicos que recebera, em matéria de segurança. E Arménio Carlos, depois de um longo braço de ferro, anunciou que, em vez da anunciada marcha, se faria uma concentração em Alcântara. Só de autocarro  haveria manifestantes a atravessar a ponte.

Com mais ou menos travessia da ponte, haverá sempre um depois. A começar pelo setor dos Transportes que, como nos casos da Soflusa, Transtejo e, eventualmente, do Metro, deverão vir a agitar-se nos próximos tempos, sobretudo se o Governo insistir em cortar aos respetivos trabalhadores subsídios que, pelas contas da CGTP, se traduzirão numa perda de rendimentos de 15% a 20 por cento. Entretanto, os enfermeiros têm em curso paralisações diárias de quatro horas, que irão rodando por todos os distritos, até ao final da próxima semana. E a Administração Pública parará em novembro. 

Desconcerto Social

"Até parece que tenho andado em campanha eleitoral", ironiza Carlos Silva, o líder da UGT, sobre a volta em que tem andado empenhado pelo País, a ouvir os sindicatos filiados na sua central e que, ainda no passado fim de semana, o levou a Setúbal e Aveiro. "Era preciso apalpar o terreno, para sabermos da disponibilidade das pessoas. Somos uma instituição pragmática." Das várias etapas dessa volta a Portugal tem invariavelmente regressado com a mesma opinião: "Estamos todos unidos num sentimento de indignação."

Era a conclusão que se adivinhava, não só atendendo ao teor das novas medidas de austeridade que foram escapando para a comunicação social, como por, mais uma vez, a UGT se sentir "destratada" pelo Governo, na própria elaboração do Orçamento do Estado. "Não fomos ouvidos para nada. Não metemos prego nem estopa." Logo a UGT, lembra o seu líder, uma central que "várias vezes se atravessou em acordos de Concertação Social e sempre os cumpriu".

Mas, neste momento, Concertação Social é um conceito vago: "Nem sei bem o que é." Ou, antes, sabe apenas que os parceiros sociais estão convocados para uma reunião, no dia 23 de outubro, para preparar a próxima cimeira europeia. "Mas, nessa altura, já o mal está feito", queixa-se o líder sindical. As medidas de austeridade já estarão provadas. Assim como as respostas que se preparam: "O primeiro-ministro bem pode falar nas dificuldades que aí vêm, se não houver diálogo social. Agora faz orelhas moucas e, depois, não se queixe..."

Até onde levarão as manifestações de indignação que o líder da UGT tem recolhido pelo País? 

 

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