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Luís Montenegro. Quem é o homem que volta a desafiar Rui Rio?

Portugal

Marcos Borga

Da JSD de Espinho à liderança do grupo parlamentar. Da defesa da redução de impostos à ideia de referendo à eutanásia. Do “herdeiro” de Passos à “criatura” de Relvas. Das viagem ao Euro 2016 à volta alternativa à do líder. O candidato à presidência do PSD em dez pontos

- Luís Filipe Montenegro Cardoso de Morais Esteves nasceu a 16 de fevereiro de 1973. Em miúdo, devido à compleição física (1,86 metros), impunha respeito aos centrais das equipas adversárias às do seu Sp. Espinho. Quem o viu nos campos de futebol do distrito de Aveiro recorda o miúdo alto, com o número nove estampado na camisola às riscas pretas e brancas. Na verdade, era um atleta polivalente: praticou andebol, voleibol e ginástica. E mais: a partir dos 16 anos, tornou-se nadador-salvador, também na sua terra.

- O percurso político teve início na JSD local. A chefia a concelhia dos “laranjinhas” em Espinho foi o primeiro passo de um caminho sem grandes altos e baixos. Montenegro foi eleito deputado pela primeira vez em 2002; em 2005, candidatou-se à Câmara de Espinho, mas perdeu para o socialista José Mota; em 2010, foi eleito vice-presidente do grupo parlamentar, encabeçado por Miguel Macedo; e, um ano depois, assumiria a dianteira da bancada social-democrata, cabendo-lhe a defesa da governação da coligação PSD/CDS num dos períodos mais críticos para o País: o do resgate financeiro da troika.

- “Pivô” de Pedro Passos Coelho na Assembleia da República durante seis anos, quer com o partido no Governo, quer relegado à missão de liderar a oposição, Montenegro teve sempre um papel de combate. Em fevereiro de 2014, quando Portugal começava a dar alguns sinais de retoma económica, proferiu uma frase que ainda hoje não se descolou dele. “Eu sei que a vida quotidiana das pessoas não está melhor, mas não tenho dúvidas de que a vida do País está muito melhor do que em 2011”, disse, em entrevista ao Jornal de Notícias. Após as legislativas de 2015, Passos incumbiu-o de enfrentar António Costa, várias vezes, nos debates quinzenais. O tom crispado, de parte a parte, foi constante.

- Em 2017, quando o passismo dava sinais de desmoronamento, começou a surgir uma vaga de montenegrismo. Nunca esteve em equação enfrentar o primeiro-ministro que tirou o País da bancarrota, mas o caminho começava a ser preparado para as diretas de 2020 (que, afinal, estão aí à porta). Pelo meio, suspeitavam os mais próximos do então líder parlamentar, Passos e Rui Rio enfrentrar-se-iam, depois de Costa (como veio a confirmar-se) ganhar as legislativas deste ano. A saída de cena do líder, precipitada pela hecatombe nas autárquicas de setembro desse ano, fez com que muitos apoiantes o empurrassem para a disputa interna que ocorreu em janeiro do ano seguinte, mas Montengro preferiu ficar de fora.

- Mesmo não se livrando do rótulo de que era uma criatura de Miguel Relvas (sempre visto como um king maker nas hostes sociais-democratas) e tendo sido acusado de calculismo e taticismo, Montenegro assistiu na primeira fila ao duelo entre Rio e Pedro Santana Lopes. Ainda assim, foi ao Congresso do partido, em fevereiro, avisar o recém-eleito presidente que iria andar por aí. “Se for preciso estar cá, eu cá estarei, para o que der e vier, sem receio de nada e sem estar por conta de ninguém. Sou totalmente livre! Desta vez, decidi 'não'; se algum dia entender dizer 'sim', já sabem, eu não vou pedir licença a ninguém”. E deixou a reunião magna em apoteose.

- Menos de um ano volvido, e perante sondagens que deixavam a máquina partidária entre a depressão e a fúria, Montenegro aproveitou um movimento de distritais revoltosas e desafiou Rio a convocar diretas de imediato. Em vão. O líder do partido recusou e contra-atacou, apresentando uma moção de confiança à direção no Conselho Nacional. Rio venceu, mas o challenger passou a ter um trunfo face a todos os outros potenciais adversários – o de ter dito, ainda antes das derrotas eleitorais, “eu avisei”.

- Assim, até às legislativas, Montenegro afastou-se dos palcos mediáticos. Não mais falou aos microfones de rádio ou televisão e só voltaria a ser visto nas campanhas para as europeias, ao lado de Paulo Rangel, e para as legislativas (em Viseu e em Leiria), sempre longe do líder do partido. Na prática, os quilómetros na estrada eram já um sinal de que o avanço estaria por dias. Ou, pragmaticamente, à distância de um desaire no sufrágio do último domingo, 6.

- Agora que confirmou, nos estúdios da SIC, que é candidato à sucessão de Rio – tendo desafiado o próprio líder para o mano a mano -, Montenegro já está a tratar de traçar linhas distintivas. Não renega o passado passista (que ainda mexe com a alma do PSD), assume que quer um partido que cubra o centro, mas também a direita (não exibe complexos de posicionamento) e até admite ponderar sobre entendimentos que agreguem as principais forças desse espaço político. Do CDS à Iniciativa Liberal, passando até pelo Aliança – o Chega fica fora dessas contas.

- De resto, o pensamento do advogado de 46 anos é vincadamente menos estatizante que o da direção incumbente. É apologista da redução da carga fiscal e defende que essa trajetória tenha início no alívio das empresas, acredita num modelo em que os privados possam ter uma palavra relevante na Educação, na Saúde e nos transportes e chegou a posicionar-se contra a contabilização do tempo de serviço dos professores, ainda antes da crise em que António Costa ameaçou demitir-se.

- À margem do caminho para a liderança, em que pode ter de medir forças com Rio (ou alguém dessa linha em alternativa) e com outros três candidatos da ala dita passista), Montenegro sabe que existe um fantasma com o qual pode ter de lidar, mais cedo ou mais tarde: o processo em torno das viagens ao Euro 2016. Tal como dois dos seus maiores apoiantes, Hugo Soares e Luís Campos Ferreira, é arguido pelo alegado recebimento indevido de vantagem, apesar de ter garantido ter a "consciência tranquila” de que não cometeu nenhum crime.