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Eleições: PSD/Lisboa ignora (mais uma vez) direção nacional

Portugal

Horacio Villalobos/ Getty Images

Pedro Pinto, presidente da segunda maior distrital do País e apoiante de Passos e Santana, admite estar a ponderar todas as hipóteses, apesar da mensagem da direção de Rio que pede que se evitem disputas internas até às legislativas. Ainda assim, até já se fala de potenciais candidatos

Todos os cenários estão em cima da mesa. E todos significa mesmo todos – inclusive (num ano eleitoralmente quente), a hipótese de convocar eleições para a distrital de Lisboa entre maio e outubro, passando (mais uma vez) por cima das indicações que a direção do partido deu às estruturas locais. “É possivel que sejam realizadas entre as europeias e as legislativas, é possível que sejam só depois, ainda estou a pensar nisso”, admite Pedro Pinto à VISÃO. Uma coisa é certa: a recomendação da direção nacional conta pouco para o que o social-democrata decidir.

O dirigente social-democrata diz que há argumentos para justificar qualquer escolha que venha a fazer. “Se marcar eleições para depois das legislativas, faço-o porque a direção nacional pediu; se marcar para antes das legislativas, faço-o porque o prazo para o fim do mandato termina a 1 de julho”, quando se esgotam os dois anos previstos nos estatutos para a realização de novas eleições. De uma maneira ou de outra, fica o aviso: “Só haverá eleições quando eu quiser”, sublinha o presidente do PSD/Lisboa.

O problema é mesmo a posição que a direção de Rui Rio tomou recentemente, e que está em linha com o que Pedro Passos Coelho tinha feito em 2017. De acordo com os estatutos dos sociais-democratas, as eleições têm de ser marcadas com uma antecedência mínima de 15 dias.

A lançar-se a corrida para a liderança do PSD/Lisboa antes de outubro, isso significaria um atropelo ao calendário definido pela direção do partido, que preferia ter os militantes concentrados nos embates das europeias e das legislativas sem terem de pensar em confrontos internos – sobretudo quando Rio se prepara para as maiores provas de fogo à sua liderança e quando o PSD continua a povoar um terreno muito distante daquele que o PS tem ocupado nas várias sondagens.

Campanha sombra com vantagem

Um calendário mais imediato pode, no entanto, ter outras motivações. Fontes sociais-democratas partilham com a VISÃO a ideia de que antecipar (à luz do calendário da direção nacional) a escolha da distrital para o intervalo entre as eleições nacionais daria vantagem a uma candidatura “anti-Rio” na corrida a um dos mais importantes órgãos locais do PSD.

Pedro Pinto, que sucedeu a Miguel Pinto Luz, é um desalinhado face à atual direção nacional. Era um elemento próximo de Passos Coelho (do qual fora vice-presidente) e esteve ao lado de Pedro Santana Lopes na disputa pela liderança que Rio venceu. Depois, em setembro do ano passado, o PSD/Lisboa não assinou um manifesto de apoio à atual direção em que se pedia um apoio inequívoco” ao presidente do partido.

Nesse contexto, uma lista que contasse com o seu apoio beneficiaria, segundo as mesmas fontes, de informação privilegiada sobre o calendário interno.

Pedro Pinto rejeita – e ridiculariza até – essa leitura do momento interno do PSD/Lisboa. São ideias “tontinhas”, sem cabimento. Até porque a decisão, que garante ser exclusivamente sua, ainda não está fechada. O social-democrata reconhece que “todos querem” ocupar o lugar onde chegou em 2017, mas admite que, no limite, ele próprio pode voltar a concorrer ao lugar. “É normal ponderar se me recandidato ou não”, salienta à VISÃO. É mais um cenário em aberto quando, em Cascais, outro elemento da equipa de Carlos Carreiras também já estaria a fazer contas.

Nuno Piteira Lopes é vereador do Urbanismo e, ao que a VISÃO apurou, seria um dos potenciais nomes na corrida, mas o social-democrata garante não estar a par das intenções de Pedro Pinto – sejam elas quais forem. “Desconheço inteiramente o assunto” de uma eventual antecipação do calendário, resume o tesoureiro do PSD/Lisboa, antes de sublinhar que “a situação de 2017” (quando Pedro Pinto, então presidente da mesa da distrital, marcou eleições para o início de julho) foi “excecional”. A direção de Rui Rio, começa por recordar, empurrou o assunto para lá de outubro – para rapidamente assinalar que essa posição “não vincula [os órgãos locais] nem impede” outros timings.

E nem sequer afasta a possibilidade de entrar na corrida. Esse pode até ser “um assunto que nunca foi colocado em cima da mesa”, mas a decisão será sempre “concertada”. Porque, diz Piteira Lopes, um desconhecido da vida nacional do PSD, não faz “política sozinho”. “A situação será avaliada por mim mas discutida em grupo”, remata.

À distrital o que é da distrital

O caso tem contornos de déjà vu. Há apenas dois anos, Miguel Pinto Luz ainda era presidente da distrital do PSD de Lisboa. Estávamos em finais de maio e o dirigente social-democrata, vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais, anunciou que estava de saída e que daí a menos de um mês seria o seu último dia à frente de uma distrital que liderou durante seis anos. “No dia 20 de junho termina o meu mandato, ponto.”

A bola passou para as mãos de Pedro Pinto, presidente da mesa da distrital. As eleições foram a 1 de julho, contra as pretensões do partido, que ainda funcionava sob a batuta de Pedro Passos Coelho. Nos Princípios de Orientação Estratégica para as eleições autárquicas que se disputavam a 1 de outubro, a Comissão Política Nacional, primeiro, e o Conselho Nacional, a seguir, faziam uma recomendação expressa para que os confrontos internos fossem guardados para depois das eleições para o poder local.

Como o Observador registou na altura, a nota da direção do PSD pretendia que se mantivessem os órgãos locais do partido se mantivessem em pleno funcionamento e estabilidade, a fim de maximizar a capacidade de resposta aos desafios” eleitorais. O documento referia mesmo que as “distritais” que cessassem “os seus mandatos entre abril e outubro de 2017” apenas marcassem “as respetivas eleições em novembro e dezembro de 2017”, já depois das autárquicas.

Se o presidente da distrital quer convocar eleições, seria um pouco anti-natura a mesa não o fazer”, explica Pedro Pinto, agora na pele de presidente do PSD/Lisboa. “Aliás, quando as eleições são convocadas, eu ainda nem sequer era candidato”, recorda. A bola volta a estar nas suas mãos. E a decisão é tomada nas próximas semanas.

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