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Endogamia ou mérito? As muitas famílias que marcaram a política mundial

Portugal

No último século, as dinastias na política atravessam a história de muitas repúblicas insuspeitas. Dos Kennedy aos Bush, dos Bhutto aos Nehru-Gandhi, dos Soares aos Rebelo de Sousa

Filipe Luís

Filipe Luís

Editor Executivo

Na mesma semana em que, em Portugal, uma remodelação governamental colocava, pela primeira vez, à mesa do Conselho de Ministros, pai e filha – respetivamente, José Vieira da Silva, Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, e Mariana Vieira da Silva, Presidência e Modernização Administrativa –, no distante Azerbaijão, o Presidente, Ilham Aliyev, nomeava a sua mulher, Mehribam Aliyeva, primeira vice-presidente do país. Em Portugal, o Executivo já contava com um casal de ministros – Eduardo Cabrita, Administração Interna, e Ana Paula Vitorino, Mar –, ambos com forte peso político, já com experiência governativa anterior e várias vezes eleitos como deputados. No Azerbaijão, a primeira-dama, de 52 anos, nomeada no cumprimento de disposições previstas na última revisão constitucional, que criou o cargo, tem também a seu favor a eleição como deputada e a distinção internacional como embaixadora da Boa Vontade da UNESCO. Lá, como comentou cá, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa poderia defender que a coincidência de parentescos não elimina o mérito próprio. Não obstante, em ambos os países se fizeram sentir fortes críticas à alegada endogamia dos círculos do poder político, com os partidos da oposição a protestarem veementemente na ex-república soviética (e de forma um pouco mais contida em Portugal, onde não passaram do registo da insinuação).

É duvidoso que o primeiro-ministro, António Costa, se sinta confortável na companhia do Azerbaijão. Até porque a comparação parece um pouco forçada, se tivermos em conta quer o tipo de regime político quer a deriva, essa sim, realmente dinástica, dos azeris: o Presidente Aliyev já tinha sucedido, no cargo, ao seu falecido pai, Heydar Aliyev… Mas o súbito “alargamento familiar” do Conselho de Ministros coloca no topo da agenda o risco de contaminação endogâmica e favorece as suspeitas de nepotismo, tanto mais que, ao contrário de algumas das grandes dinastias políticas da História do Século XX – os Kennedy, os Bush, os Gandhi –,aqueles de que estamos a falar não têm a suportá-los a legitimidade política própria e pessoal da eleição direta para cargo político.

António Costa, que recorreu, digamos assim, quase “particularmente”, ao seu amigo Diogo Lacerda Machado para desbloquear vários “nós górdios” da governação, desde o da “desprivatização parcial” da TAP (de que Lacerda Machado viria a ser administrador, em representação do Estado...)à negociação com os lesados do BES, alega que se guiou, neste caso, ou no da chamada para o Governo do também seu amigo pessoal Pedro Siza Vieira, por critérios de competência. O que não quer dizer que se sinta, de novo, bem acompanhado, por exemplo, por Donald Trump, que invocou a competência e a experiência do seu genro, Jared Kushner, agora com 38 anos, para o nomear conselheiro sénior da Casa Branca... Jared representava a holding Kushner, vocacionada para o imobiliário, mas também detentora do jornal The Observer. O genro, que se demitiu dos seus cargos na holding para poder trabalhar na Casa Branca (mas que manteve as suas participações financeiras), foi o arquiteto da estratégia de comunicação digital de Trump. E a mulher, Ivanka Trump, 37 anos, filha do Presidente, também se constituiu como “conselheira sénior” (não remunerada) do seu pai.

Por causa da remodelação que instalou Mariana Vieira da Silva no Governo, os exemplos norte-americanos vieram à colação, esta semana, e mesmo cientistas políticos como António Costa Pinto chamaram a atenção para uma certa “normalidade” na existência de dinastias políticas. O último caso teve como protagonista a candidata presidencial Hillary Clinton, mulher de um ex-Presidente norte-americano, Bill Clinton, e ela própria, tal como o marido, figura cimeira do Partido Democrata, pelo qual foi sucessivamente eleita senadora. Hillary sujeitou-se ao crivo eleitoral – e perdeu.

Os Kennedy, glória e drama O patriarca Joseph (Joe) Patrick Kennedy foi o primeiro presidente do organismo americano de regulação de valores imobiliários, após o crash de 1929, e embaixador dos EUA no Reino Unido. Empresário milionário, teve nove filhos, de que se destacaram estes três políticos. Ted (falecido em 2018), o “Leão do Senado”, foi um membro histórico daquele órgão, para o qual foi sucessivamente eleito. John Fitzgerald (JFK, ao centro) foi Presidente dos Estados Unidos da América. Robert (Bobby), anteriormente eleito senador, foi procurador-geral, durante a Administração do irmão e, posteriormente, candidato presidencial (assassinado, como JFK).

Os Kennedy, glória e drama O patriarca Joseph (Joe) Patrick Kennedy foi o primeiro presidente do organismo americano de regulação de valores imobiliários, após o crash de 1929, e embaixador dos EUA no Reino Unido. Empresário milionário, teve nove filhos, de que se destacaram estes três políticos. Ted (falecido em 2018), o “Leão do Senado”, foi um membro histórico daquele órgão, para o qual foi sucessivamente eleito. John Fitzgerald (JFK, ao centro) foi Presidente dos Estados Unidos da América. Robert (Bobby), anteriormente eleito senador, foi procurador-geral, durante a Administração do irmão e, posteriormente, candidato presidencial (assassinado, como JFK).

Popperfoto

A saga dos Kennedy
A 29 de maio de 1917, em Brookline, Massachusetts, nascia John Fitzgerald Kennedy (JFK), filho de Joseph Patrick Kennedy e de Rose Fitzgerald. O fabuloso destino dos Kennedy, católicos irlandeses mais ou menos marginalizados pela sociedade WASP norte-americana (Branca [white], Anglo-Saxónica e Protestante), iria ser decisivamente marcado por este rapaz, o elemento mais notável de um clã sacudido pela glória e pela tragédia.

O bisavô Patrick Joseph abandonara a Irlanda em 1849, fugindo à grande fome da ilha. Protagonizando um final muito mais feliz do que o do filme de James Cameron, Titanic, conhece, a bordo do navio carregado de emigrantes, a jovem Bridget Murphy, por quem se apaixona e com quem virá a casar-se, já em solo americano. Iniciava-se, assim, uma saga que iria marcar a política mundial no século seguinte…

O sonho americano começou com um negócio de importação de uísque, a PJ Kennedy & Company. Aliás, o negócio viria a manter-se na família e a prosperar exponencialmente, havendo suspeitas de ligações à máfia durante o período da “lei seca” que proibia a venda de bebidas alcoólicas, nos anos 20. Pelo meio, a família diversificou a área de negócios e de empresas, com uma firma de corretagem, incursões bem-sucedidas na produção de filmes em Hollywood, e outros. E nem o crash da Bolsa, em 1929, afetou significativamente a fortuna dos Kennedy. O pai do futuro Presidente dos EUA, farejando o perigo, desfizera-se, antecipadamente, da maioria dos títulos que detinha em múltiplas empresas cotadas. Não admira que tenha vindo a ser nomeado responsável do regulador americano de valores imobiliários, logo a seguir ao crash. Por essa altura, Joe Kennedy era já um conselheiro privilegiado do Presidente Franklin Delano Roosevelt. A sua nomeação para a Comissão de Segurança e de Intercâmbio, criada, precisamente, para vigiar Wall Street, provocou suspeitas no mundo financeiro. Roosevelt, porém, usou a mesma estratégia que alguns organismos oficiais utilizam hoje, quando contratam hackers informáticos para despistar ataques de outros hackers: “É preciso um sem-vergonha para apanhar outro sem-vergonha”, terá comentado Roosevelt, enquanto assistia aos procedimentos de Joe Kennedy, que aproveitou para ilegalizar muitas das práticas que ele próprio usara, antes, para enriquecer…

E a política aparece. Joe Patrick Kennedy viria a ser nomeado embaixador em Londres, tendo estabelecido laços pessoais com a família real inglesa. Também representou os EUA na cerimónia de posse do Papa Pio XII, de quem, como católico americano influente, se tornou amigo.

Incomensuravelmente rico, tubarão de Wall Street, mulherengo (como seriam os filhos), filantropo, homem de negócios, uns mais claros do que outros, Joe Patrick, já inscrito no Partido Democrata, foi assim uma das personalidades mais influentes dos Estados Unidos da América, pelo menos, na primeira metade do século XX. Sabendo que não podia vir a ser ele o homem mais poderoso do País – e do mundo –, projetou no seu primogénito, Joseph Jr., que veio ao mundo em 1888, a ambição que, por ter nascido cedo demais, lhe estava vedada a ele: ser o primeiro Presidente católico dos Estados Unidos da América.

Mas o infortúnio que haveria de atingir os Kennedy nas décadas seguintes deu o primeiro sinal na II Guerra Mundial quando, a 12 de agosto de 1944, enquanto pilotava um bombardeiro da Marinha, Joseph Jr. foi abatido, sobre o Canal da Mancha. Outro combatente, o seu irmão mais novo – e terceiro dos nove filhos do patriarca e de Rose –, John Fitzgerald Kennedy, regressaria a casa são e salvo. Competia-lhe substituir o irmão. (Em 1948, a irmã mais velha, Kathleen, faleceria, num acidente de viação. Era “karma”…)

JFK, já licenciado em Direito, por Harvard, consegue, aos 29 anos, o seu primeiro cargo político, sendo eleito congressista em representação do Massachusetts. Ganha eleições sucessivas. Sem dificuldade, é designado candidato presidencial pelo Partido Democrata em 1960. Não é o único Kennedy a avançar para a Casa Branca: já está coadjuvado por Robert (Bobby) Kennedy, seu irmão mais novo e principal conselheiro, que nomeará procurador-geral. Uma espécie de Mariana Vieira da Silva, com funções de “ministro da Presidência”, mas também com a pasta da Justiça e a tutela da investigação criminal e do Ministério Público...

A aura familiar de sucesso e o sonho americano cumprido acompanham-no. A sua juventude, também a de Bobby e a do caçula da família, Edward (Ted), que será senador sucessivamente eleito, até morrer em 2009, constrói a lenda dos Kennedy como a monarquia que os EUA nunca tiveram. Poder, dinheiro, sexo e política misturam-se num cocktail eleitoral poderoso. John cilindra o adversário republicano Richard Nixon no primeiro debate televisivo de sempre, em 1960, tornando-se o mais jovem Presidente americano da História e o primeiro “político de televisão” e das revistas sociais, também apimentado pelo casamento com a bela, misteriosa e icónica Jacqueline Bouvier.

A sua inexperiência e a sua fogosidade na disputa da Guerra Fria – que, no início dos anos 60, atinge o seu ponto mais crítico – fazem-no cometer erros, como o da invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, em que a CIA sai de rabo entre as pernas, ou o atoleiro do Vietname, para onde começa a arrastar, progressivamente, os EUA. Ainda assim, parece ganhar o braço de ferro com o líder soviético Khrushchev, na crise dos mísseis cubanos, embora graças a importantes concessões na Europa, sobretudo na Turquia, de onde retira, quase à socapa, os seus próprios mísseis. A ação do inseparável mano Bobby, que começa a dar caça à máfia, ajuda a compor a imagem de heroísmo dos Kennedy. O seu assassínio a tiro, em Dallas, em 1963, transporta-o para o Olimpo dos mártires.

O mesmo destino aguarda o lutador pelos direitos civis, Martin Luther King, assassinado em 1968. Nesse mesmo ano, Bobby prepara-se para ganhar a nomeação democrata para as presidenciais quando, em Los Angeles, é morto a tiro. A tragédia que atinge os Kennedy – e que, no futuro, fará outros mortos, vítimas de acidentes estúpidos – é interiorizada pelos americanos como parte da sua própria identidade.

A passagem de testemunho dos Bush George W. Bush foi o segundo do clã eleito Presidente dos EUA (entre 2001 e 2009). O seu pai, George H. W. Bush, foi vice de Ronald Reagan e Presidente entre 1989 e 1993. O pai apadrinhou os primeiros passos do filho na política, nomeando-o assessor da sua própria campanha. Jeb, irmão de George H. e tio de George W., foi governador da Florida.

A passagem de testemunho dos Bush George W. Bush foi o segundo do clã eleito Presidente dos EUA (entre 2001 e 2009). O seu pai, George H. W. Bush, foi vice de Ronald Reagan e Presidente entre 1989 e 1993. O pai apadrinhou os primeiros passos do filho na política, nomeando-o assessor da sua própria campanha. Jeb, irmão de George H. e tio de George W., foi governador da Florida.

David Hume Kennerly

As duas guerras dos Bush
Se os democratas Kennedy não lograram contribuir com dois Presidentes para a História americana recente, os republicanos Bush fizeram-no. Produtos, não de Harvard, mas da mais conservadora Universidade de Yale, no Connecticut, George Herbert Walker Bush, vice-presidente nos mandatos de Ronald Reagan, herdou os louros da vitória na Guerra Fria, contra o império soviético. Era neto do patriarca do clã, Samuel Prescott, diretor nos caminhos de ferro explorados pelos Rockefeller, posteriormente presidente de uma grande companhia no negócio do aço e, mais tarde, magnata dos petróleos, tendo resistido aos abanões da Grande Depressão dos anos 30. A participação de Prescott uma sociedade bancária, a UBC, que tinha relações com financiadores do regime nazi, nomeadamente o industrial alemão Fritz Thyssen, lançaram a suspeita de colaboração com o inimigo, um lado lunar da família que se mantém até hoje. Isso não o impediu de ser eleito para o Senado, em 1952 e em 1956. Era a primeira geração Bush na política.

O seu filho George, primeiro Bush Presidente, só em 1966 entra na política, ao ser eleito representante do Texas no Congresso. Foi embaixador na ONU, chefe do escritório de representação dos EUA na China comunista e diretor da CIA, durante a administração de Gerald Ford. Em 1980, depois de uma tentativa frustrada para se fazer eleger senador, George Bush surge como candidato à vice-presidência de Ronald Reagan, pelo Partido Republicano. Oito anos depois, é eleito nº 1 da superpotência.

Entretanto, o seu filho George Walker (George W. Bush) segue as pisadas do pai. “Traindo” Yale, faz, nos anos 70, um mestrado em Administração de Empresas em Harvard, para melhor se habilitar a gerir os negócios petrolíferos da família. No ano em que conheceu e se casou com Laura Welch, após um noivado-relâmpago, George W. Bush entra na política, para representar, no Congresso, o Oeste do Texas. E foi uma década depois que as carreiras políticas de pai e filho se cruzaram, quando, em 1988, George Bush lhe pediu que o assessorasse na campanha presidencial.

Se um desencadeou a primeira guerra do Golfo, enviando, em 1990, tropas para defender o Koweit da invasão iraquiana ordenada por Saddam Hussein, o segundo acabou o trabalho, bombardeando o Afeganistão e invadindo o país de Saddam ate à prisão e à condenação à morte do ditador. George W. Bush era Presidente dos EUA desde janeiro de 2001, numa das eleições mais caóticas de sempre, com o candidato democrata Al Gore a ser dado como vencedor até à recontagem dos votos, na Florida. Por sinal, o Estado onde era governador… o seu irmão, Jeb Bush.

Bolsonaro & filhos lda. Jair Bolsonaro, que um dia nomeou para o seu gabinete a namorada porque, não sendo casados, “não eram parentes”, tem três filhos na política: Flávio (na foto), Carlos e Eduardo. Pelo menos, o primeiro foi fundamental na campanha e continua a deter grande influência, agora que o pai é Presidente. Em termos de famílias políticas, o Brasil é um caso de estudo.

Bolsonaro & filhos lda. Jair Bolsonaro, que um dia nomeou para o seu gabinete a namorada porque, não sendo casados, “não eram parentes”, tem três filhos na política: Flávio (na foto), Carlos e Eduardo. Pelo menos, o primeiro foi fundamental na campanha e continua a deter grande influência, agora que o pai é Presidente. Em termos de famílias políticas, o Brasil é um caso de estudo.

SERGIO LIMA

Os barões do Brasil
Os Estados Unidos da América estão longe de ser um caso raro entre as repúblicas que tiveram pais e filhos no mais alto cargo. O atual chefe do Governo do vizinho Canadá, Justin Trudeau, também pertence a uma extirpe de políticos, retomando um cargo que já fora, nos anos 70, do seu pai, Pierre Elliott Trudeau. Embora estes casos, que são democracias, tenham a seu favor o facto de os titulares dos cargos políticos terem de passar pelo crivo de eleições transparentes. O que é diferente de dezenas de repúblicas africanas onde o fenómeno é recorrente. Ou na Síria, onde Bashar Assad sucedeu diretamente a seu pai, Hafez Assad. Para não falar do caso extremo da Coreia do Norte, onde a dinastia Kim ainda perdura, tendo agora na presidência Kim Jong-un, o filho de Kim Jong-il que, por sua vez, sucedera ao avô do atual “grande líder”, Kim Il-sung, um combatente que se destacou como soldado do Exército Vermelho soviético de Estaline, antes de procurar transpor para o seu próprio país o modelo estalinista. A endogamia é mais notória sem eleições, e aqui podemos descontar a eleição de alguns dos protagonistas portugueses nas listas de deputados, elas próprias elaboradas através da nomeação política dos aparelhos partidários…

Ainda assim, não deixa de ser verdade que o nome e o patrocínio podem influenciar as motivações do eleitorado. Teria Bobby Kennedy ou, sobretudo, Ted Kennedy o carisma do irmão John, ou, pelo contrário, beneficiaram do apelido e da proteção política do malogrado Presidente que, pelo menos no primeiro caso, catapultou o irmão para a alta esfera dos negócios do Estado?... Será possível que o caminho aberto por um pai carismático estabeleça uma relação automática de “efeito simpatia” no eleitorado? Pergunte-se a Marine Le Pen e aos eleitores franceses, que parecem encarar com naturalidade o facto de a Frente Nacional ser uma espécie de coutada que o fundador, Jean-Marie Le Pen, passou para as mãos da filha dileta...

A endogamia na política tem no Brasil o seu exemplo mais – digamos assim… – perfeito. Aliás, o que os eleitores sufragaram nas urnas, em 2018, foi não apenas um Presidente polémico, mas também o nepotismo como razão de Estado. Algo que Jair Bolsonaro nunca, sequer, se deu ao trabalho de esconder. Os seus três filhos homens, Flávio, Carlos e Eduardo, também são políticos e, sobretudo Flávio, goza de inequívoca influência no Planalto. Renato, o irmão do Presidente, nomeado “assessor especial” da Assembleia do Estado de São Paulo, com o salário de 
17 mil reais (cerca de quatro mil euros) ficou conhecido por “funcionário-fantasma” por, alegadamente, nunca ter posto os pés no local de trabalho. Já em 2007, Bolsonaro contratara para trabalhar no seu gabinete de deputado a então namorada, com a justificação de que, não sendo casados, “não eram parentes”.

O Brasil está dividido por famílias. No Maranhão, pontificam os Sarney (pai, ex-Presidente, e dois filhos, uma filha que foi governadora do Estado e um filho deputado federal. Em Minas Gerais mandam os Neves, de Tancredo (que chegou a ser Presidente da República) ao seu neto Aécio, também recente candidato ao mesmo cargo. Entre deputados e governadores, o Pernambuco tem sido dominado pela família Arraes. Alagoas deu ao mundo os Collor de Mello, desde Lindolfo Collor, figura proeminente na revolução de 1931, a Fernando, Presidente destituído na sequência de um impeachement, mas que viu os filhos continuarem a singrar na política. Na Baía, os “bandeirantes” são os Magalhães, com dezenas de membros como deputados, governadores, ministros e autarcas. Ciro, Cid e Ivo são os irmãos Gomes, do Ceará, todos políticos proeminentes, tendo o primeiro sido candidato presidencial na recente pugna contra Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. E assim sucessivamente.

Os Nehru-Gandhi, sangue pela Índia Indira Gandhi (que usou o apelido do marido) era filha de Jawaharlal Nehru, o histórico primeiro dirigente da Índia independente. Educada para lhe suceder, construiu o seu próprio espaço, desempenhando um papel de importância global na Guerra Fria. Foi assassinada, tal como o seu filho, Rajiv, que, por sua vez, lhe tinha sucedido no cargo.

Os Nehru-Gandhi, sangue pela Índia Indira Gandhi (que usou o apelido do marido) era filha de Jawaharlal Nehru, o histórico primeiro dirigente da Índia independente. Educada para lhe suceder, construiu o seu próprio espaço, desempenhando um papel de importância global na Guerra Fria. Foi assassinada, tal como o seu filho, Rajiv, que, por sua vez, lhe tinha sucedido no cargo.

STF

Mulheres assassinadas
O subcontinente indiano deu ao mundo duas famílias poderosas e queridas do povo, ambas tocadas pela glória e pela tragédia, um pouco ao modo dos Kennedy, mas no feminino. No Paquistão, os Bhutto; na Índia, os Nerhu-Gandhi (que nada têm que ver com o ativista pela independência, Mahatma Gandhi). O fator familiar é tão grande que o Paquistão, um país muçulmano, elegeu, mais do que uma vez, uma mulher (!) para liderar o Governo: a bela Benazir teve o mesmo destino que uma líder mais a sul, a socialista radical Indira Gandhi, filha do primeiro chefe de governo da Índia independente, Jawaharlal Nehru: ambas foram assassinadas.

Indira (Gandhi por parte do marido) teve a difícil missão de suceder a um dos grandes políticos do século XX, mas soube construir a sua própria lenda, liderando os não alinhados e fazendo um forte contraponto às grandes potências da Guerra Fria (embora, por razões táticas, tenha mantido melhores relações com a URSS). Por querer manter o País unido e secular, foi assassinada por sikhs radicais em outubro de 1984. O mesmo destino teve, por sua vez, o seu filho, Rajiv Gandhi, que continuou a dinastia, sucedendo-lhe como primeiro-ministro. Mas este foi eliminado por radicais de etnia tamil. Acabava-se uma linhagem política que marcou os destinos do mundo…

A homóloga paquistanesa de Indira, Benazir Bhutto, que estudou Ciência Política e Filosofia em Oxford e Harvard (já preparada pelo pai para vir a suceder-lhe...), era filha do primeiro-ministro Zulfikar Ali Bhutto. Conselheira política do pai, viu-o ser deposto e executado, em 1979, após um golpe militar que instituiu a ditadura no país. Presa e exilada, regressou em 1986, com o levantamento da lei marcial e a legalização de partidos políticos. À frente do seu PPP (Partido Popular do Paquistão), venceu as eleições de 1988. Seria destituída pelo Presidente do país, acusada de corrupção, de novo vencedora de eleições em 1993, novamente acusada, de novo exilada, amnistiada e outra vez regressada ao palco político e às campanhas eleitorais. Foi numa destas ações que, em 2007, seria assassinada por um bombista suicida da Al-Qaeda.

Kennedys, Gandhis e Bhuttos assassinados, Bolsonaros polémicos, Bushs triunfantes, Clintons derrotados, Kims inamovíveis, Hassads acossados ou Le Pens emergentes, as linhagens marcam a política do nosso tempo. No Governo português, uns modestos Vieira da Silva e Cabrita/Vitorino vão representando o seu papel de pequenas peças num fenómeno político que ficará conhecido por Geringonça. Para uns, uma endogamia de trazer por casa. Para outros, a simples coincidência de parentescos reunidos “por mérito”. Mas não será assim sempre?

Kyodo News

Os Kim e a “monarquia comunista”
Kim Il-sung, o Grande Líder, é venerado como um santo (ou antes, é melhor que os norte-coreanos mostrem venerá-lo...) no seu país. Ex-combatente no Exército Vermelho de Estaline, fundou, na Coreia do Norte, uma espécie de dinastia. Quando morreu, sucedeu-lhe o filho Kim Jong-il. Por morte deste, ascendeu à presidência o neto, Kim Jong-un (ambos na foto).

LOUAI BESHARA

Os Assad, guerra eterna
Bashar Assad (segundo, à esq. de pé) sucedeu ao pai, Hafez Assad. A Síria vive uma guerra civil interminável e o ditador já por diversas vezes foi dado como acabado. Mas resiste sempre e parece continuar de pedra e cal.

Direitos Reservados

Os Rebelo de Sousa, ditadura e democracia
Aquele que será, talvez, o mais popular Presidente da República da democracia, Marcelo Rebelo de Sousa (envolvido pelo braço esquerdo do pai), é filho de um governante do tempo da ditadura: Baltasar Rebelo de Sousa foi subsecretário de Estado de Salazar e ministro de Marcelo Caetano. Os seus conhecimentos foram fundamentais para introduzir o filho na alta-roda política, mas nunca teve qualquer influência direta na carreira de Marcelo, toda feita já depois do 25 de Abril.

Bruno Rascão

Os Soares e a política à flor da pele
João Lopes Soares foi uma referência nos tempos da I República, tendo exercido, entre outros, o cargo de governador civil. Foi um exemplo para o filho Mário, que começou a respirar política nas reuniões mais ou menos clandestinas do reviralho, em casa do pai, na oposição ao Estado Novo. João Barroso Soares respirou os mesmos ambientes, ainda em ditadura e, depois, em democracia. Mas enquanto Mário foi o mais influente político português da segunda metade do século XX, tendo chegado a primeiro-ministro e a Presidente da República, João Soares queixa-se de que a sombra do pai o prejudicou mais do que o favoreceu, na sua carreira política e no PS. Ainda assim, chegou a deputado, a presidente da Câmara de Lisboa e a ministro.

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